Esforço interpretativo

Os economistas Raúl Prebisch e Celso Furtado procuraram (re)interpretar a dinâmica socioeconômica da América Latina e, claro, do Brasil, após a Segunda Guerra Mundial e o consequente estabelecimento de uma nova ordem mundial

Texto Carlos Eduardo Tauil

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) trouxe significativas alterações na ordem mundial, seja em sua forma conceitual ou na prática. Suas consequências intensificaram o processo contraditório entre os países que regulam o mercado internacional e os que apenas se alinham aos seus desdobramentos. Com dois polos de dominação mundial (EUA e URSS), aquele liderado pelos Estados Unidos defrontava-se com a difícil tarefa de isolar, das influências soviéticas, as áreas de comércio com suas políticas econômicas, sem com isso comprometer sua hegemonia recém-conquistada.

Harry Truman assumiu após a morte de Roosevelt, e em sua gestão ocorreu a conclusão da Segunda Guerra Mundial

Harry Truman assumiu após a morte de Roosevelt, e em sua gestão ocorreu a conclusão da Segunda Guerra Mundial. No ano de 1944, o governo dos EUA encabeçou uma série de negociações que tinham o caráter de garantir a reativação do crédito internacional, seus sistemas de pagamentos, recuperar as economias europeias e empreender as reivindicações de desenvolvimento e bem-estar social de todos os países que não estavam sob influência da URSS. A devastação causada pela Grande Guerra precisava ser evitada de todas as formas. Então, com o objetivo de proporcionar bases para diálogos entre os países nas esferas econômicas, sociais e humanitárias, 51 países se reuniram em São Francisco, nos Estados Unidos, e ratificaram a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 24 de outubro de 1945. Naquele momento, o “desenvolvimento” era a principal agenda dos países que estavam sob influência estadunidense, e a pobreza das nações, cuja economia possuía o mesmo caráter da economia brasileira, demandava profunda discussão.

O então presidente dos Estados Unidos, Harry Truman (1884-1972), no início de seu segundo mandato, em 20 de janeiro de 1949, fez o seguinte discurso, lançando pela primeira vez o termo “subdesenvolvido” para os países não centrais no capitalismo mundial: “Faz-se necessário lançar um novo programa que seja audacioso e que ponha as vantagens de nosso avanço científico e de nosso progresso industrial a serviço da melhoria e do crescimento das regiões subdesenvolvidas. Mais da metade das pessoas em todo o mundo vive em condições vizinhas à da miséria e não possui o que comer. São vítimas de enfermidades. Sua pobreza constitui uma desvantagem e uma ameaça, tanto para elas quanto para as regiões mais prósperas”. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) trouxe significativas alterações na ordem mundial, seja em sua forma conceitual ou na prática

O surgimento da Cepal
Em 1948, o Conselho Econômico e Social da ONU criou a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). Esse conselho, sediado no Chile, tinha por objetivo fomentar a cooperação econômica de seus membros. O êxito na criação da Cepal, pelo Conselho Econômico e Social, decorreu mediante a ostensiva pressão política dos países latino-americanos signatários da ONU. Os países latino-americanos precisavam estar inseridos na dinâmica da nova ordem mundial capitalista, e se fazia necessário um diagnóstico conjuntural do continente para adotar medidas que apontassem para o desenvolvimento da região. A nova interpretação das relações internacionais subsumiu a América Latina em um ambiente em que sua inserção não passava pelo simples ritmo de evolução do capitalismo, mas sim pela quebra de paradigmas das teorias econômicas anunciadas até então. Nesse sentido, o ex-diretor do Banco Central da Argentina, Raúl Prebisch (1901-1986), foi convidado a atuar como consultor na Cepal e apresentar um relatório sobre a conjuntura socioeconômica em que a América Latina estava inserida. Em 1949, Raúl Prebisch apre sentou “O desenvolvimento econômico da América Latina e alguns de seus principais problemas” (texto que ficou conhecido como “Manifesto da Cepal”). Com esse documento, o argentino faz uma reavaliação sobre a transferência de diretrizes da economia clássica para o continente latino-americano.

Logo no início do “Manifesto da Cepal”, o argentino vai sinalizar sua orientação interpretativa: “A realidade está destruindo na América Latina aquele velho esquema da divisão internacional do trabalho que, após haver adquirido grande vigor no século XIX, seguiu prevalecendo, doutrinariamente, até bem pouco tempo” (Prebisch, 1949, p. 47).

Por focar seu diagnóstico nas estruturas produtivas dos países periféricos, em especial os países latino-americanos, Raúl Prebisch lançou um modelo analítico até então inédito para o exame dos problemas econômicos e sociais de países de desenvolvimento periférico. O modelo estruturalista – como ficou conhecido o método de análise prebischiano – parte das relações entre o centro e a periferia somadas à atribuição dos países periféricos no mercado internacional (Bielschowsky, 1995, p. 111).

Filiado ao pensamento keynesiano, Raúl Prebisch entende que o progresso nos países latino-americanos deveria ser pautado por uma reordenação do Estado, alterando o padrão de políticas públicas, orientando-as para a composição de polos industriais e investimentos na infraestrutura, objetivando demonstrar que as exportações de matérias- primas deveriam ser uma extensão do mercado interno, provendo ao mercado internacional seu excedente produtivo.

Em 1948, o Conselho Econômico e Social da ONU criou a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal). Esse conselho, sediado no Chile, tinha por objetivo fomentar a cooperação econômica de seus membros

Pobreza na América Latina
A ressignificação da condição de pobreza da América Latina, em Prebisch, relaciona a localização do continente no ambiente de países periféricos na dinâmica internacional, ao passo que os países centrais revitalizam um círculo vicioso em que o movimento de atividades produtivas eterniza a concentração de riquezas na divisão internacional do trabalho. Competia aos países periféricos a tarefa de se apropriar do “local” em que estavam inseridos no funcionamento do capitalismo mundial e descobrirem quais são as particularidades que deveriam ser exploradas com o objetivo de diminuir a lacuna entre a periferia e os países centrais. A crítica de Prebisch se fundamentou no deslocamento da ideologia ricardiana para contextos em que sua aplicabilidade não se prova. A hipótese da vantagem comparativa, de David Ricardo, conserva o conceito de que a especialização na produção de um determinado gênero por um país maximizará – através do comércio internacional – o bem-estar de sua população.

 

Harry Truman assumiu após a morte de Roosevelt, e em sua gestão ocorreu a conclusão da Segunda Guerra Mundial

Ao propagar que os países produtores de bens primários não precisariam se industrializar, para se beneficiar do progresso tecnológico dos países centrais, a teoria econômica ortodoxa não levou em consideração as especificidades de demanda e a realidade histórica de cada região participante do comércio mundial. Nesse sentido, Prebisch escreveu: “A política do desenvolvimento tem que se basear numa interpretação autêntica da realidade latino-americana. Nas teorias que recebemos e continuamos a receber dos grandes centros, há com frequência uma falsa pretensão de universalidade. Toca-nos, essencialmente, a nós, homens da periferia, contribuir para corrigir essas teorias e introduzir nelas os elementos dinâmicos que requerem, para aproximar-se da nossa realidade” (1949, p. 21).

O “Manifesto da Cepal” deixou explícito que há um desenvolvimento desigual nas relações do capitalismo internacional e, contrariamente ao que anunciava a teoria da vantagem comparativa, o efeito dessa divisão internacional do trabalho era uma duradoura e constante depreciação de preço dos produtos primários em relação aos industriais, fazendo com que os países fornecedores de matérias-primas se conservassem nas condições de dependência das demandas internacionais dos países centrais.

Durante a década de 1950, Celso Furtado manteve-se alinhado à metodologia históricoestruturalista cepalina de análises econômicas do Brasil

Celso Furtado e o País
O Brasil teve em Celso Furtado (1920- 2004) o seu principal interlocutor às premissas cepalinas. O economista brasileiro ingressou na equipe cepalina de Raúl Prebisch desde sua fundação, e se o argentino logrou êxito na teorização autônoma a respeito das questões das estruturas produtivas da América Latina, nós podemos afirmar que Celso Furtado foi imprescindível no processo interpretativo teórico e propositivo das políticas econômicas brasileiras na década de 1950. Assim como toda perspectiva de reelaboração das teorias clássicas econômicas que pairava no mercado mundial pós-crise de 1929, o economista brasileiro também foi influenciado pela óptica keynesiana de que o simples jogo do mercado, se autorregulando, não daria conta do desenvolvimento dos países subdesenvolvidos e que estes se manteriam dependentes dos países do centro capitalista, cujas economias estavam suportadas pelo desenvolvimento industrial.

O economista argentino Raúl Prebisch é possivelmente o nome mais importante da história da Cepal

O economista argentino Raúl Prebisch é possivelmente o nome mais importante da história da Cepal
Na primeira metade da década de 1950, Celso Furtado se apropriou de diversos elementos teóricos elaborados por Raúl Prebisch, internalizando a perspectiva teórica e o posicionamento político cepalino ao caso brasileiro. A historicidade na análise dos problemas produtivos do Brasil foi uma das principais contribuições na formação da escola analítica estruturalista brasileira, bem como o pilar para elaboração de políticas econômicas desenvolvimentistas na segunda metade da década de 1950. Entendemos por política econômica desenvolvimentista o conceito utilizado pelo economista e professor Ricardo Bielschowsky em Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo – 1930 a 1964 (2000, p. 7).

Durante a década de 1950, Celso Furtado manteve-se alinhado à metodologia histórico-estruturalista cepalina de análises econômicas do Brasil. Para o economista brasileiro, o subdesenvolvimento brasileiro também obedeceu à óptica dualista, centro e periferia, preconizada pela Cepal, ou seja, a dinâmica político-econômica do Brasil foi resultante e integrante do movimento de expansão capitalista internacional e toda debilidade da estrutura produtiva brasileira, e suas consequências, vincula-se à forma singular como o país foi inserido no mercado mundial. Nesse sentido, Celso Furtado apresentou quais eram suas categorias analíticas fundamentais no processo de interpretação do desenvolvimento dos países, ou: “A análise desse problema (o subdesenvolvimento) dentro de uma perspectiva histórica é de importância fundamental para compreender as modificações estruturais que estão ocorrendo atualmente na economia brasileira” (Furtado, 1954, p. 22).

A análise furtadiana, apresentada em A economia brasileira, de 1954, parte do pressuposto que o desenvolvimento econômico brasileiro manteve-se dependente em todos os seus ciclos produtivos, desde o ciclo açucareiro até o cafeeiro, e produziu, assim, uma estrutura econômica e social pouco diversificada e pouco dinâmica, incapaz de internalizar o desenvolvimento técnico. Tendo como resultado o aumento da produtividade de seus fatores de produção, como observado nos países industrializados, e completamente deficitário na formação de um mercado interno que produzisse a base de acumulação de capital aos empresários brasileiros.

O diagnóstico e o prognóstico feitos por Raúl Prebisch e Celso Furtado obedeceram a uma lógica limitada apenas pelas relações econômicas deixando de lado as relações históricas de classes, bem como relações políticas e sociais

 

O economista e professor da UFRJ, Ricardo Bielschowsky, trabalhou na Cepal

Em 1954, Celso Furtado escreveu: “É indispensável, pois, que se reconheça a existência de um problema para que sua solução possa constituir objeto de especulação dos homens de pensamento” (Furtado, 1954, p. 191). Ao diagnosticar que os setores produtivos brasileiros mantinham estruturas débeis, a análise furtadiana indicava que o Brasil deveria se reinventar na forma de se posicionar no comércio internacional e o desenvolvimento de sua economia deveria obedecer à lógica “de dentro para fora”. Ou seja, para Furtado, a industrialização era a única forma de fomentar o aumento de produtividade necessário a um processo de acumulação acelerada de capitais que, somado à difusão do progresso técnico no sistema econômico, poderia democratizar o bem-estar social para a população.

A industrialização do país, segundo Furtado, deveria ser realizada como uma proposição política a fim de superar a pobreza e/ou reduzir o desnivelamento dos padrões de vida entre os países periféricos dos centrais. Nesse sentido, para o economista brasileiro, somente através de um impulso político no processo de crescimento econômico autossustentável o Brasil poderia cumprir sua independência política e econômica.

É importante ressaltar o esforço interpretativo da escola estruturalista na América Latina, e em especial no Brasil. Porém, e talvez por se tratar de uma escola formada por economistas de origem ortodoxa, o diagnóstico e o prognóstico feitos por Raúl Prebisch e Celso Furtado obedeceram a uma lógica limitada apenas pelas relações econômicas deixando de lado as relações históricas de classes, bem como relações políticas e sociais.

*Harry Truman » Harry Truman (1884-1972) foi o 33º presidente dos Estados Unidos da América. Assumiu após a morte de Franklin Roosevelt, em abril de 1945, e contribuiu para a conclusão da Segunda Guerra Mundial e para os primeiros movimentos da Guerra Fria. Filiado ao Partido Democrata, sendo reeleito. Governou até janeiro de 1953.

*Cepal » O site em língua portuguesa da Cepal, vinculada à ONU, é http://www.cepal.org/pt-br

*Raúl Prebisch » O economista e pensador Raúl Prebisch (1901-1986) desempenhou diversas funções nas áreas econômicas da Argentina, mas foi durante seu mandato de diretor do Banco Central, quando se defrontou com inexequível pagamento da dívida externa argentina, que ele lançou-se na tarefa de reinterpretar as circunstâncias que levaram a Argentina àquela delicada situação (Dosman, 2011, p. 44).

*Pensamento keynesiano » John Maynard Keynes (1883-1946) foi um economista inglês, que fundou a escola heterodoxa econômica, responsável por revisar os postulados teóricos liberais de autores como Adam Smith, David Ricardo e Jean-Baptiste Say.

*Ideologia ricardiana » O economista e político David Ricardo (1772-1823) foi um dos fundadores, junto com Adam Smith, da escola clássica inglesa da economia política.

*Ricardo Bielschowsky » Graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com mestrado pela Universidade de Brasília (UnB) e doutorado pela Universidade de Leicester, ambos em Economia. Professor da UFRJ, trabalhou na Cepal entre 1991 e 2011.

Carlos Eduardo Tauil é doutorando em Ciências Sociais pela Unesp e mestre em Ciências Sociais pela Unifesp. E-mail: cadutauil@hotmail.com

Referências
BIELSCHOWSK Y, Ricardo. Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico desenvolvimentista. São Paulo: Editora Contraponto, 2012.
FURTADO , Celso. A economia brasileira. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1954.
__________. Uma economia dependente. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1956.
PRE BISCH , Raúl. “El desarrollo econômico de la América Latina y algunos de sus principales problemas”. Cepal: Santiago – Chile, 1949.

Revista Sociologia Ed. 65