Filmes sobre a socialização

Socialização é um conceito central na Sociologia e diz respeito à inserção dos indivíduos na sociedade. Apresentaremos a seguir três obras cinematográficas que trabalham essa questão

 

Por Fabricio Basílio* | Fotos: Shutterstock/Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

O garoto selvagem

O filme de Truffaut é uma história verídica, de um caso documentado daquilo que ficou conhecido entre psicólogos, médicos e sociólogos como criança selvagem, ou seja, que passou boa parte da vida distante de outros seres humanos. No filme, um garoto é encontrado vivendo na floresta e é capturado por caçadores, que o levam para a cidade, onde é constantemente açoitado por olhares civilizados, para em seguida ser trancafiado em uma cela. Quando dr. Jean Itard, vivido pelo próprio Truffaut, fica sabendo da existência de um menino selvagem, criado por animais, pede que o garoto seja transferido para sua clínica para surdos e mudos.

 

As cenas seguintes são articuladas de modo a evidenciar o estranho comportamento do jovem diante da sociedade regulamentada que o cerca. Primeiro notamos a recorrente atitude de morder quando se sente ameaçado, o que é mesclado com grunhidos. Depois, percebemos o gosto do personagem em manter uma postura curvada, quase como locomovendo-se em quatro patas, e por último vemos uma insistência em se debruçar para beber água de um rio.

 

Com sua chegada a Paris o “garoto selvagem” passa a ser chamado de Victor, ao mesmo tempo em que se torna objeto de estudo do dr. Itard. Victor é tido como mudo, ganha roupas, banhos quentes, unhas cortadas e aulas diárias. Enquanto isso, dr. Itard revela em seus manuscritos a intenção de ensinar o garoto a ouvir e ver, ao mesmo tempo em que corrige repetidamente a postura corporal de seu paciente. Em seguida, os ensinamentos passam para utilização de utensílios domésticos, como colheres, e o primeiro passeio com sapatos, tudo obviamente imposto à força. Mesmo assim dr. Itard revela o aumento da sensibilidade corpórea em Victor, que começa a utilizar roupas quando sente frio.

 

 

O grande objetivo de Itard é que Victor seja capaz de se comunicar por uso dos códigos estabelecidos na época, o que se faz por meio da identificação de objetos a partir de gravuras e inserção de uma placa contendo as letras do alfabeto, na qual precisa unir à legenda de cada letra uma peça de madeira de igual formato.

 

A cada façanha de seu paciente o doutor lhe fornece uma recompensa, um copo de água que Victor bebe muitas vezes olhando por uma janela com vista para o campo, que notoriamente remete a um raciocínio de liberdade perdida. Ao passo que os erros são duramente repreendidos com o enclausuramento em um armário escuro. Cercado por um projeto de aprendizagem baseado na repetição e na punição, Victor vai, pouco a pouco, se moldando aos ditames do enérgico professor. Porém, ainda resta ao jovem criado na floresta a vista de sua janela, e com ela a possibilidade de fuga e regresso.

 

Animações como recurso didático

 

Onde fica a casa do meu amigo?

A obra de Kiarostami trata da socialização no espaço da escola. Uma porta velha e enferrujada balança ao sabor do vento enquanto ouvimos o murmurinho de um grupo de crianças conversando. Um professor autoritário nos revela que estamos em uma sala de aula e, entre suas juras de punição severa às crianças, a ação de uma delas se tornará essencial para a construção do filme dirigido por Abbas Kiarostami: a expulsão de Mohammad Reza Nemarzadeh caso este esqueça o caderno de lições mais uma vez.

 

Enquanto Nemarzadeh chora perante as ameaças de punição, Ahmad acompanha calado, já que mesmo um arrastar de cadeiras é recriminado pelo professor. A aula termina e Ahmad, que agora descobrimos ser o protagonista do filme, chega em casa e sua mãe lhe pede para fazer a lição, ao mesmo tempo em que interrompe várias vezes a criança, ora para ele embalar um bebê que chora, ora para buscar fraldas dentro de casa. Surge um padrão de idas e vindas, sempre ritualizado pelo calçar e descalçar dos sapatos, que quando não alcançado é duramente repreendido pela avó de Ahmad.

 

Entre esses movimentos pendulares pelo interior e exterior da casa, Ahmad descobre estar com o caderno de Nemarzadeh. Preocupado, avisa a mãe que precisa entregá-lo, mas o que para a criança é uma situação de extrema importância, para sua mãe as palavras de Ahmad se configuram numa forma de iludi-la quanto à resolução das próprias lições de casa.

 

 

Às escondidas Ahmad sai de casa, levando embaixo da camisa o caderno do amigo. A partir desse ponto Kiarostami trabalha de forma primorosa a construção do espaço-tempo, contrapondo a descoberta de um novo território por uma criança aos entraves proporcionados pelo olhar adulto pouco afeito à sensibilidade. Nesse sentido é notória a sequência em que o avô interrompe o empenho de Ahmad com uma recriminação descabida, quando na verdade só queria que o neto lhe comprasse cigarros.

 

Quando a noite cai, Ahmad parece cada vez mais perdido em sua jornada e as novas vielas estreitas parecem cada vez mais com as anteriores, que de certo modo serializam a narrativa. Sobre isso Jean-Luc Nancy afirma que: “quanto ao essencial, Onde fica a casa do meu amigo? consiste numa série de variações sobre uma criança caminhando pelas ruas de um vilarejo”.

Ninguém pode saber

Akira e sua mãe estão de mudança, se apresentam aos novos vizinhos e depois sobem uma mala pesada com cuidado. Akira acaricia a mala enquanto carregadores arrastam um armário pesado. A mudança termina. A porta da frente é fechada e assim ela ficará durante grande parte do filme. Akira e sua mãe abrem uma das malas e espantosamente surge uma menina de vestido. Mais uma mala é aberta e, surpreendentemente, sai dela um menino que é parabenizado pela mãe por ter se mantido quieto durante tanto tempo. Mais tarde, quando todos do prédio parecem estar dormindo, Akira busca na estação sua outra irmã, que por ser mais velha nunca caberia em uma mala de rodinhas.

 

Baseado em fatos, o filme dirigido por Hirokazu Koreeda tem uma premissa consonante aos argumentos da mãe: apenas Akira pode sair de casa, enquanto seus outros três irmãos precisam ficar presos no apartamento e sem fazer barulho, pois a descoberta de que moram cinco pessoas no espaço pode levá-los a um novo despejo.

 

 

Com isso, a narrativa passa a acompanhar a rotina de Akira, entre compras no supermercado, arrumação da casa, preparo da comida e tempo nos estudos, ainda sobram energia ao garoto de esperar todos os dias sua mãe, que chega sempre tarde. Porém, essa rotina muda certa manhã, pois em uma mesa bagunçada Akira visualiza um envelope com dinheiro e um bilhete de sua mãe afirmando que passará um tempo fora.

 

A partir disso Ninguém pode saber lida com a ausência das figuras parentais e com o processo de maturidade precoce de Akira. O dinheiro deixado pela mãe é gasto aos poucos e mesmo com nenhuma das crianças frequentando a escola tudo é anotado e somado. No início a rotina solitária das crianças funciona graças a noções rígidas de disciplina incutidas pela mãe, mas após uma passagem rápida e as promessas de que voltaria no Natal, ela não será mais vista no filme.

 

Nesse sentido, é muito bem articulada a sequência em que Akira presenteia os irmãos com dinheiro forjando bilhetes que supostamente teriam sido escritos por sua mãe. Em outra cena o jovem presenteia o aniversário de cinco anos da irmã com um passeio noturno no qual a menina, há meses enclausurada, aproveita observando todos os produtos vendidos na rua.

 

Resenha do filme Trabalhar Cansa

 

A narrativa progride, o dinheiro vai cena a cena minguando, as roupas se rasgando e as contas atrasadas servindo de papel para desenhos coloridos. A presença de adultos no filme é relegada a situações no qual a falta de dinheiro se faz presente, como o cobrador que bate à porta ou a vizinha que abre a porta em busca do dinheiro do aluguel.

 

Koreeda mostra delicadeza na construção de planos e detalhes ao mesmo tempo em que sobrecarrega a narrativa com mais e mais acontecimentos, que se por um lado brindam o espectador com belos enquadramentos, por outro ameaça a verossimilhança da trama, que se segura no descaso humano visto apenas nas grandes metrópoles.

O conceito de socialização

 

Um dos principais autores da Sociologia, o alemão Georg Simmel re etiu com originalidade o tema da socialização

Émile Durkheim foi um dos primeiros autores a forjar o conceito de socialização em Sociologia; considerava o desenvolvimento conduzido pelos adultos daqueles que ainda não estão inseridos na vida em sociedade – portanto, algo específico do período da infância. Existiria uma vida organizada em sociedade, à qual os indivíduos deveriam ser integrados, uma vez que incorporavam os saberes e normas sociais vigentes, por intermédio de indivíduos “já socializados”, com a finalidade de manter a coesão e a ordem social.

 

Trazendo isso para os filmes em questão notamos como o adulto ou a ausência deste é relevante para o desenvolvimento de uma criança. Em O garoto selvagem, Victor tem sua frágil inserção na sociedade guiada pelo doutor e por seu método, já no filme de Kiarostami são as ameaças de um professor tirânico e o descaso dos adultos que fazem a narrativa do filme progredir.

 

Essa maneira de conceber as relações entre indivíduo e sociedade subsidiou o desenvolvimento do conceito de socialização em Georg Simmel (2006) para quem qualquer forma de interação entre seres humanos deve ser considerada uma forma de socialização. Nesse sentido, em Simmel, o ser humano como um todo é visto como um complexo de conteúdos, forças e possibilidades sem forma; com base nas suas motivações e interações do seu “estar-no-mundo mutante”, modela a si mesmo como uma forma diferenciada e com fronteiras definidas e, ao mesmo tempo, socializa-se.

 

*Fabrício Basílio é graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
E-mail: fabricio.cineuff@gmail.com

Adaptado do texto “A socialização no cinema”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 59