Folclore e desenvolvimento humano

Como fazer para os conhecimentos folclóricos se materializarem em ações que ajudem o brasileiro no seu desenvolvimento adaptado às suas condições físicas e ecológicas?

Por Yago Junho* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Folclore é a maneira de agir, sentir e pensar de um povo transmitida oralmente. Para que um fato seja folclórico, é necessário o aparecimento de quatro características: anonimato, persistência, antiguidade e oralidade. Daí que todo folclore é popular, mas nem tudo o que é popular é folclore. Segundo Florestan Fernandes, esse termo compreende “todos os elementos culturais que constituem soluções usuais e costumeiramente admitidas e esperadas dos membros de uma sociedade, transmitidas de geração a geração por meios informais […]” (FERNANDES, 1989, p.16)

 

O problema é que a palavra folclore se desgastou ao longo do tempo. Sinônimo de mentira, de coisa sem importância, algo exótico. Por isso, perdemos sua dimensão gnosiológica de compreensão da realidade sociocultural-econômica do Brasil. A institucionalização das Ciências Sociais foi fundamental para a marginalização dos estudos sobre o folclore. Luís Rodolfo Vilhena discute essa questão no livro Projeto e missão – o movimento folclórico brasileiro 1947-1964. O folclorista passou a ser identificado com o intelectual polígrafo, com o ensaísta e com a falta de cientificidade. A badalação caiu em cima do intelectual especialista, da monografia e da cientificidade. A metodologia passou a contar mais que a ideia e a capacidade argumentativa.

 

O resultado é que a sabedoria oral retida na memória não senta no mesmo banco da epistemologia e da hermenêutica. Até porque, o folclore destaca o riso como estratégia de compreensão do mundo. “O riso foi condenado por todos os reformadores religiosos. Jesus Cristo jamais riu. Proscreve-se terminantemente dos códigos da boa educação. Rir silenciosamente é o sinal da sabedoria para o rei Salomão. Alegria interior, mas não o riso, é a lição cristã”. (CASCUDO, 1961, p.10)

 

Diariamente, realizamos inúmeras ações folclóricas sem nos darmos conta. Um exemplo disso é a maneira como cumprimentamos alguém com beijo no rosto, ou quando nos despedimos balançando a mão espalmada

Em minhas aulas de Antropologia, sempre pergunto aos alunos se conhecem algum ditado popular que dá errado. “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. “Não podemos tapar o Sol com a peneira”. “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. De modo que há uma filosofia de vida poderosa nesses ditados. Enganam-se aqueles que acham que essa forma de conhecimento não tem funcionalidade. Por que usamos ainda o sinal de positivo com o polegar levantado? Esse gesto tem mais de 2.500 anos. Ora, porque tem utilidade.

 

Somos um povo supersticioso. Aliás, a base do folclore é a superstição, quer dizer, aquilo que permanece. Diariamente realizamos inúmeras ações folclóricas sem nos darmos conta disso. Despedir de alguém balançando a mão espalmada; bater na madeira três vezes para espantar o azar; dar três beijos no rosto de uma mulher quando a conhecemos. Insisto: não é possível entendermos nossa formação cultural sem conhecermos nossa riquíssima cultura popular. Essa cultura popular foi se formando para fazer que o homem brasileiro se adaptasse às condições geográficas e sociais específicas do País. O problema é que começamos a adotar padrões civilizacionais, quase sempre, incompatíveis com a natureza local. Esse desajuste acarreta várias consequências, a nós, brasileiros. Consequências políticas, econômicas, sociais e para a saúde.

 

A grande questão que temos a enfrentar é: como fazer para os conhecimentos folclóricos se materializarem em ações que ajudem o brasileiro no seu desenvolvimento adaptado às suas condições físicas e ecológicas?

 

Pensamento folclórico

O Brasil é o único país do mundo em que há um Dicionário do folclore, escrito por Luís da Câmara Cascudo. De acordo com o pensamento de Gilberto Felisberto Vasconcellos, se a palavra é o veículo do pensamento e se conseguimos nos expressar de A a Z por meio do folclore, então é possível termos um pensamento folclórico no Estado. “Se o pensamento de Karl Marx foi materializado em prática política, por que não materializar o pensamento de Luís da Câmara Cascudo?” (VASCONCELLOS, 2001, p. 68).

 

Os territórios indígenas

 

Óbvio que o que se propõe não é reivindicar o Ministério da Fazenda para o Boitatá, nem o do Planejamento para o Curupira. Mas podemos desenvolver um programa governamental para acabar com as mazelas sociais e melhorar as condições de vida de todo brasileiro com os ensinamentos da cultura popular. Se precisamos de um amplo programa de combate à fome e à desnutrição, consultemos História da alimentação no Brasil; se necessitamos de ações voltadas para desenvolver o espírito empreendedor, temos o livro Coisas que o povo diz; se é urgente o processo de alfabetização, bebamos em Literatura oral no Brasil, etc. Cascudo é um vasto depósito de ideias e conhecimentos. Basta olharmos para esses textos com seriedade e despidos de preconceitos.

 

Já sabemos, por experiência feita e sentida, que mimetizar modelos teóricos para resolver nossos problemas redundou em nada. A difícil realidade da vida da maioria dos brasileiros atesta isso. A solução para os nossos problemas virá de estratégias que soubermos estabelecer baseados em invenções próprias. Naturalmente que isso não significa dar as costas ao mundo. O folclore nos ensina que o intercâmbio cultural é fundamental para o fortalecimento dos países. E, principalmente, nos mostra que cada cultura filtra os elementos de outras que possam ser adaptáveis às situações locais. Essa é uma troca sadia. O que vemos em nosso país é simplesmente imposição de valores alheios às necessidades reais da maioria de nossa população.

 

Antagonismos culturais

Darcy Ribeiro dizia que um intelectual da Dinamarca podia se dar ao luxo de fazer palavra-cruzada, pois a Dinamarca deu certo, estendeu os ganhos materiais e simbólicos à maioria absoluta de sua população. O Brasil não deu certo. Ainda não emplacamos nossa aceleração evolutiva. Portanto, os intelectuais brasileiros têm o dever de contribuir para o desenvolvimento econômico do País. Até o início dos anos 1960, “[…] A importância adquirida pelos estudos folclóricos no labor intelectual dos universitários constituía uma consequência fecunda da interação da universidade com o meio ambiente – e da filtragem de ‘motivos intelectuais’, que passavam deste para aquela. É provável que, hoje, muitos considerem tais motivos relativamente destituí­dos de valor científico autêntico. Não sou desta opinião”. (FERNANDES, 1989, p.2).

 

Sociologia e produção cultural

 

Todo desenvolvimento civilizacional tem o lado social e sentimental. O folclore, por isso, adquire um valor especial por amalgamar os dois polos. Em razão desse fato, a leitura da obra do maior folclorista brasileiro, Luís da Câmara Cascudo, assume importância capital na compreensão da evolução sociológica do Brasil. Atenção: folclore é o uso útil do conhecimento popular no enfrentamento do dia a dia. Esse conhecimento pode nos devolver o tempo telúrico perdido. Um exemplo dessa reflexão é o livro Rede de dormir, também de Luís da Câmara Cascudo.

 

A rede foi o primeiro elemento de adaptação do português à paisagem tropical. Colaboradora nas viagens do sono, nela foram embalados os ferozes guerreiros tupinambás, os soldados de Antônio Conselheiro e a trupe de Lampião. Na rede se sentava, comia, mercadejava e conversava. Era a parceira fundamental da economia doméstica. O autor traça uma diferença interessante entre a rede e a cama. Esta última nos obriga a tomar o seu costume; aquela se molda ao nosso formato. A rede está para a solidariedade assim como a cama para a resignação.

 

Segundo Luís da Câmara Cascudo, enquanto a cama nos obriga a tomar o seu costume, a rede se molda ao nosso formato. Desta maneira, a rede está para a solidariedade assim como a cama para a resignação

 

Até 1570, as redes foram as camas do Brasil. Sinal de fidalguia, representou um elemento imprescindível na fixação da aristocracia rural açucareira. Desempenhou, também, a função de meio de transporte, tanto em vida como na morte. Era parte inseparável de seu dono. A primeira pergunta que se fazia a um hóspede: dorme em cama ou rede? Oliveira Lima, conferenciando na Sorbonne sobre a colonização de Minas Gerais, situou a rede como um dos elementos fundamentais do sucesso daquela empresa. Sua difusão, afirma Cascudo, se deu do Amazonas à Bahia, pelas mãos dos tupis, principalmente pela utilização do algodão. Mas aí vai o alerta: “o material não explica o fabrico nem o determina. É preciso a existência funcional de uma técnica costumeira”. (CASCUDO, 2003, p.53).

 

O estrado da antiguidade foi o chão. Os africanos não conheciam a rede de dormir, tampouco os portugueses. Portanto, os direitos autorais da rede pertencem aos sul-americanos. Então, como surgiu a ideia de se trançar fios para servir como cama? Recorro novamente ao mestre potiguar: “a ideia [poderá] ter nascido dos balanços das lianas da mata e ocasionais descansos gostosos num breve sentamento nos cipós curvos que balançavam árvores próximas […] A resistência flexível dos cipós tropicais e a grade dos puçás dariam a soma imaginativa do leito suspenso, agora que estavam os indígenas em terras de mato, calor úmido, insetos famintos e abundância de materiais facilitadores para o fabrico” (CASCUDO, 2003, p. 65).

 

Isso mostra que o início da utilização da rede coincide com um estágio mais avançado de evolução do conhecimento em relação às proteções contra a natureza. Por essa razão, a utilização do fogo embaixo das redes no momento de dormir. O fogo era uma ajuda divina. Como a rede se distanciava do chão, os homens ficavam longe do alcance de insetos e de aranhas. E o sono era facilitado pelo balanço lento e aninhador da rede.

 

Não damos nenhum crédito às práticas, aos hábitos e aos costumes populares, como o balançar, que é um poderoso calmante e relaxante para os nervos

 

Câmara Cascudo, com o intuito de fundamentar seu estudo sobre a rede, pediu ao seu amigo, o médico juiz-forano Antônio da Silva Mello, para lhe dar um parecer sobre a validade ou não da rede para a saúde. Formado em Medicina em Berlim no início do século XX, Silva Mello, armado com visão holista, escreveu sobre os mais variados temas: Sociologia, Antropologia, Psicanálise, Superstição. Para ele o todo é a verdade. Seus estudos médicos começam na boca e terminam no vaso sanitário. Gilberto Freyre dizia que o doutor Silva Mello era um intelectual profundamente ecológico.

 

Segundo Silva Mello, a rede é a cama ideal para as regiões tropicais. Representa enorme vantagem para o homem “civilizado”, pois torna mais fácil a ventilação e a irradiação de calor pelo corpo por ficar suspensa no ar. Ainda segundo o esculápio mineiro: “a posição curvada tomada pelo corpo na rede, que pode ser julgada anormal ou prejudicial, deve impor-se antes como ideal para o repouso, pois corresponde à do feto no útero”. (CASCUDO, 2003, p. 152). E lança a seguinte hipótese: a cama seria a responsável pelo aparecimento de artrite e reumatismo. Os nossos músculos e articulações ficariam prejudicados pela imobilidade das camas.

 

Ciências Sociais no Brasil

 

A maneira que nós dormimos é de fundamental importância para a saúde e determina boa parte de várias reações que temos quando acordados. O nosso corpo na rede fica tão ajustado à fisiologia do homem dos trópicos que se revela de grande valor em alguns casos de doenças, tais como insônia, irritabilidade e depressão. Balançar é um poderoso calmante e relaxante para os nervos. Entretanto, não damos nenhum crédito às práticas, aos hábitos e aos costumes populares. Ainda mais quando essas atividades são oriundas de civilizações que julgamos inferiores.

 

Vale a pena citar mais uma vez o esculápio juiz-forano Silva Mello: “a rede é uma das invenções mais felizes do homem primitivo, serve para nos fazer compreender melhor certas tendências naturais do nosso corpo” (CASCUDO, 2003, p.154). Um dos problemas da civilização moderna é que estamos na contramão de algumas tendências instintivas do homem. Preservar a natureza também é cuidar de nossa natureza humana. A rede é um excepcional exemplo de relacionamento sustentável entre o homem e o meio ambiente.

 

*Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora e professor de Sociologia, Antropologia e Metodologia de Pesquisa da FAI – Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação em Santa Rita do Sapucaí (MG).

Adaptado do texto “Folclore e a Sociologia do balanço”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 35