Hibridação ciborgue

Se compreendermos os cibersintomas de nossa cultura como eles realmente são, ou seja, como reflexos claros daquilo que somos e produzimos tecnologicamente, veremos que a cibernética – como logus e práxis – perfaz e estrutura as próprias sociedades contemporâneas

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Onde começam e onde terminam – indagamos – os nossos sistemas informacionais? O que, de fato, diferencia o usuário humano de sua estrutura técnica de hardware, software e conectividade cibernética, que ele mesmo cria e usa? Como estabelecer se algo é realmente natural ou artificial sem ser tendencioso, arbitrário ou mesmo impreciso? Uma das respostas possíveis é que, com a vertiginosa ascensão das biotecnociências, esses limites vão se tornando cada vez mais imprecisos, fluidos e borrados. Isso se dá porque as tecnologias reescrevem a própria história da humanidade, e esses pretensos limites e separações “precisos”, que são estabelecidos (mente/cérebro, corpo/entorno, matéria/energia humano/natureza, humano/tecnologia), na verdade não existem, são apenas convenções culturais e civilizacionais arbitrárias, pré-acordadas no entendimento coletivo. E, nessa relação dialógica, dificílimo é poder afirmar, com segurança, onde se inicia um (o cibernético) e onde termina o outro (o organismo).

 

Essa dinâmica interação ciborgue tende a se acentuar ainda mais daqui para frente. Fatores como a contínua miniaturização e nanoaturização dos sistemas eletrônicos, o consequente barateamento de seu custo de produção e comercialização e o fácil acesso a esses materiais possibilitam que, cada vez mais, os introduzamos em nossas rotinas e hábitos cotidiários de organização do mundo, no que inclinamo-nos a nomear, criticamente, de tecnologização. Essa cibertendência veio aos poucos e sedutoramente, por meio de pequenos objetos tecnológicos de consumo trivial do dia a dia (computadores, telefones móveis, MP3, MP4, tablets, i-phones e smartphones, games), e acabou nos apanhando (tecnologicamente) em seu próprio repuxo extremamente poderoso de enredamento, nessa impactante “onda” de tecnicização.

 

O ser cibernético

 

“Outro dia” (20 ou 30 anos atrás – pouco tempo, historicamente falando), computador – e os mais velhos podem confirmar – era coisa única e exclusivamente de ficção científica, das elites muito sofisticadas e poderosas, ou mesmo dos próprios cientistas em grandes instituições. Hoje, eles estão em toda parte. O próprio comando de nossas existências se encontra organizado, predominantemente, em meio cibernético. Isso quer dizer que sistemas e máquinas executam todo o trabalho, ou quase todo. Aliás, a nossa vida só se sustenta da forma que é baseada (1) em nossas potentes, dispendiosas e poluentes tecnologias; (2) na extraordinária e extenuante quantidade de energia que essa superestrutura demanda e consome sistematicamente, que somos assim “obrigados” a gerar, esgotando o meio ambiente; e (3) nas infindáveis potencializações tecnológicas possíveis graças a ela, ou seja, referimo-nos a absolutamente tudo que está ao nosso redor.

 

 

Toda a nossa cultura está fundada em técnicas e tecnologias, mesmo que minimizemos ou ignoremos a sua importância. Numa só palavra: se “desligássemos” as nossas sociedades da energia elétrica, ou fôssemos “desligados” – por algum motivo externo, como tempestades solares de forte magnitude, por exemplo –, retrocederíamos tecnológica e culturalmente à Idade Média, para não dizer a uma total barbárie. Uma cidade enorme como São Paulo, por exemplo – mas não só ela –, estaria fadada ao caos urbano e social, entrando em colapso rapidamente, pois sem energia elétrica por um período longo não haveria, também, telefone, internet, água, gás, gasolina, alimentos, remédios, elevadores… O principal problema para a sobrevivência das pessoas, além dos demais óbvios, seria a falta de alternativas em termos de fontes de alimentos e água.

 

Reflexo

Não se trata de querer desmerecer ou desconstruir as cibergerações e sua efervescente cibercultura, baseada nas trocações virtuais extremadas e na ubiquidade informacional. Pelo contrário, elas têm o seu valor intrínseco próprio, inalienável, do nosso ponto de vista, e nos agrada, sobremaneira, a ideia de podermos – enquanto sociedade – compreender (se possível) a tempo a magnitude da revolução que nós mesmos estamos a protagonizar, com as nossas novas rotinas e hábitos.

 

Não desejamos incorrer no mesmo tipo de “engano” pessimista, que acometeu o filósofo Sócrates, quase meio século antes de Cristo (399 a.C.), por exemplo, que, naquele tempo, já era ferrenho inimigo do verbo traduzido e grafado como tecnologia da comunicação, já que acreditava que, com a escrita e os próprios livros, corria-se o sério risco de se desprezar a memória natural, e de não se ter mais que guardar os conhecimentos do mundo e de nós mesmos em nossas próprias cabeças e mentes. Ele, de certa maneira, tinha razão, reconhecemos – já que realmente os livros se consumaram como vetores importantes de conhecimentos e saberes humanos –, o problema central, aparentemente desprezado por ele (Sócrates), é que o mundo e a própria realidade social se dão sempre em-fluxo, em constante transmutar de ir e revir, de se reinventar de tempos em tempos, e o futuro tecnossocial – por isso mesmo – não pode ser perfeitamente predito em detalhes a priori, já que, de fato, ainda não se consumou na realidade. Isso sem mencionar que existe sempre a possibilidade de ocorrências de novas sensibilidades sociais, que podem, “por si”, emergir e se articular, mudando assim, drasticamente, o rumo da própria história.

 

O diabo do smartphone

 

Sócrates, em grande medida, estava certo, já que deixamos boa parte de nossos conhecimentos e saberes “abrigados” e “adormecidos” nos livros, prontos para serem, posteriormente, “desencantados” e “acordados”. Mas os livros, por sua vez, também são – à sua maneira – “vivos”, já que são, frequentemente, lidos, estudados, reproduzidos, pesquisados, guardados e repassados de geração em geração, juntamente com seus ricos e diversos conteúdos, e isso influencia o mundo. Eles são reflexos claros de nossa civilização, de nossa identidade, gerando concentração de sabedoria neles, sim, é verdade, mas isso não determinou, absolutamente, o fim da memória oral ou verbal coletiva da humanidade, e a prova disso são os próprios livros e cérebros humanos “convivendo” juntos e felizes até mesmo no veloz e ciber-deslumbrante século XXI, sem que um tenha que, necessariamente, tomar o “lugar” do outro no mundo.

 

 

Seguindo adiante com os exemplos ilustrativos e didáticos, no fim do século XX, com o surgimento da tecnologia da televisão, bem no auge da “onda do rádio”, que se expressava como mídia principal e predominante nas sociedades desenvolvidas mundo afora, alguns, também pessimistas em relação à novidade – não tão notáveis e dignos de referência como Sócrates, é verdade –, previram aflitos e, enfaticamente proféticos, o “fim do rádio”. Eles propalavam que, diante da ascensão da televisão, essa mídia sucumbiria rapidamente e que, em pouco tempo, estaria fadada ao total fracasso, o que, absolutamente – convenhamos –, não aconteceu. A história nos ensinou que ambos viriam a conviver, se não harmoniosamente, pelo menos competitivamente, ao sabor do próprio mercado – assim como toda a nossa sociedade, infelizmente, se organiza –, e que ambas continuam estabelecidas nas culturas humanas nos dias atuais como mídias fortes, diferentes, alternativas, complementares, úteis e amplamente usadas pelas populações mundiais.

 

Com a chegada massiva da internet, então alardeou-se aos quatro ventos – isso para citar apenas um dos vários exemplos de profecias fracassadas sobre a grande rede – o que seria um grande “bum das compras virtuais” e o (pretenso) “fim das compras presenciais”, e que todo o comércio se daria, dali em diante, predominantemente, a distância, ciberneticamente. Isso também não se consumou, já ambas as coisas acontecem, hoje, concomitantemente, ou seja, o infomercado cresce, em grande velocidade, é verdade, mas as lojas presenciais também se multiplicam em expressivo número, pois têm seus atrativos e diferenciais próprios.

 

O futuro agora

“Anteontem” era o e-mail e o Messenger, “ontem” foi o Orkut e o Twitter, hoje o Facebook, o LinkedIn e o Instagram, amanhã, quem sabe – se as sociedades aprovarem e adotarem –, internet in brain, ou seja, tudo isso junto dentro da própria cabeça das pessoas. O que será que Sócrates diria sobre isso? Atualmente já é possível ligar cérebros humanos a equipamentos informático-computacionais e outras máquinas, fazendo os primeiros comandarem os segundos, de uma maneira ainda relativamente brutal e tosca, que é conectando os equipamentos e sensores, diretamente, no corpo caloso do cérebro do freguês. Nesse instante, existem milhares de pessoas especializadas em neurociência e design cibernético-informacional trabalhando em empresas importantes de comunicação de massa, via internet e/ou universidades, tentando inventar uma maneira de botar aquilo tudo, que hoje chega trivialmente no nosso computador, tablet, smartphone ou qualquer outro dispositivo informacional desse tipo, dentro da nossa própria cabeça.

 

 

Há muito dinheiro e interesse envolvidos nisso, pois, pelo menos em tese, tal tecnologia revolucionaria, radicalmente, a maneira como interagimos com as nossas informações, com a realidade, o mundo virtual e a própria maneira como nos relacionamos com nosso organismo biológico. Em especial, no que tange à intrusividade e hibridação das técnicas. Se compreendermos os cibersintomas de nossa cultura como eles realmente são, ou seja, como reflexos claros daquilo que somos e produzimos tecnologicamente, enfim, como sinais tácitos de nossa humanidade, veremos que a cibernética – como logus e práxis – perfaz e estrutura as próprias sociedades contemporâneas.

 

Ciberdependência?

 

Toda essa conjuntura que nos rodeia atualmente, de extrema sofisticação, é o resultado inelutável de nossa sagacidade e engenho, de nossa obstinação técnica – desde a pedra lascada até as mídias digitais –, e essa condição, totalmente tecnologizada, a qual estamos cada vez mais submetidos, põe em xeque questões consideradas, até então, imutáveis ou relativamente estáveis, no que se refere a conhecimento formal e, até mesmo, ao senso comum. Referimo-nos à difícil questão que se impõe a nós, que é saber discernir, com clareza, o que se consumará dessa inusitada mistura, que começa a se acentuar do organismo biológico e dos seus sistemas tecnológicos, em que ambos vão se amalgamando, mutuamente, projetando-nos a um contexto de reflexão, que chamamos de humano-pós-humano. Trata-se de um ser híbrido, predominantemente em-fluxo, e que é, em grande medida, pós-biológico.

 

O que seremos

Para onde caminha a humanidade? Ou, aprimorando a nossa indagação: para o que ela caminha? Enfim, o que o humano fará de si mesmo diante do extremado poder tecnologizante que detém? Esta é – segundo o nosso rude entendimento – a indagação das indagações, quase impossível de ser respondida com precisão agora. Todavia, o que percebemos é que com a tendência à hibridação do tipo ciborgue, estamos e estaremos – cada vez mais – construindo uma conjuntura conflitiva e ressignificadora para o próprio filo humano, principalmente no que se refere à sua própria estruturação ontológica. Não que esse humano “original” e unicamente biológico esteja também – profeticamente – fadado ao declínio e à extinção, como alguns entusiastas mais afoitos do pós-humano e do trans-humano gostam de alardear, mas, sem dúvida, com a utilização dessas novas tecnologias no interior do corpo humano, instauramos uma nova e preocupante condição, na qual poderemos encontrar, interagindo num mesmo contexto societal, pessoas ditas “normais” ou “originais” (aquelas sem interfaces tecnológicas ou próteses cibernéticas adicionais incorporadas e acopladas a si), juntamente com outras pretensamente “melhoradas” e “turbinadas”, por meio dessas mesmas tecnologias (que serão aquelas que terão aptidões, habilidades, dons e poderes sobre-humanos).

 

 

Como nas revoluções culturais humanas importantes, que citamos anteriormente – bem como nas demais, que poderiam ser citadas como marcos na história humana (como a Revolução Francesa, a criação da imprensa, da máquina a vapor, ou a própria Revolução Industrial) –, inclinamo-nos a acreditar que surgirá o “novum biotecnológico”. Tratar-se-á de um ser hibridado e, até certo ponto, desfigurado, diferente do velho e milenarizado humano, mas esse último, certamente, também haverá de encontrar – com a mesma sagacidade e engenho que o trouxe até aqui – suas formas criativas de permanecer e garantir a manutenção de sua própria integridade, originalidade e identidade filogenética seminal.

 

 

*Alexandre Quaresma é escritor, ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). Membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common Ground Publishing, e autor dos livros Nanotecnologias – zênite ou nadir? e Humano-pós-humano-bioética, conflitos e dilemas da pós-modernidade (no prelo). a-quaresma@hotmail.com

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 53