História política do PSDB

Disputas internas e excesso de “caciques” marcam a história do partido, que vivenciou pelo menos duas transições ideológicas importantes

Por Dr. Alessandro Farage Figueiredo* e Dr. Fábio Metzger** | Foto: Domínio público

O PSDB surge com um vantajoso quadro de políticos com vasta experiência administrativa e intelectual, como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o letrado Arthur da Távola, o militante José Serra, o jurista André Franco Montoro, o engenheiro Mário Covas, vários ex-deputados constituintes etc. A princípio tratava-se de um partido de esquerda modernizadora centrada em atividades parlamentares, embora participasse ativamente de questões do Executivo. Sua primeira grande atuação ocorreu no Plebiscito de 1993, quando os brasileiros foram às urnas escolher o regime e o sistema político que queriam para o país. Nesse momento, o PSDB se assume a favor de uma abordagem de centro-esquerda modernista europeia pelo Parlamentarismo (Frente Parlamentarista); questão essa que mesmo derrotada nas urnas em 1993 é sempre retomada pelos tucanos como hipótese de solução para crises políticas brasileiras. De maneira eficiente, seu marketing político com propostas de esquerda europeia moderna conquistou um vasto eleitorado nas classes média e alta de maior escolaridade, visto que esses brasileiros possuem uma significativa simpatia por um modelo social-democrata eurocontinental em detrimento tanto de propostas socialistas que já se encontravam em decadência na Europa Oriental, e fracassadas em países como Angola e Cuba, quanto do modelo americano considerado exacerbadamente tecnocrático, militarista e esteticamente kitsch, além do modelo asiático, principalmente o japonês, considerado absurdamente rígido e culturalmente estranho.

 

Assim o PSDB fica reconhecido frente ao eleitorado como um partido sofisticado e diplomático, de um viés inspirado na social-democracia parlamentarista europeia. Contudo, a turbulência política das primeiras eleições pós-redemocratização na América Latina e Europa Oriental afeta as atividades partidárias e consequentemente sua ideologia e práticas políticas. Logo, o PSDB se torna um ator político importante, visto que, com o impedimento do presidente Fernando Collor, o partido assume um papel de destaque no Ministério da Fazenda do governo Itamar Franco, onde toma posse Fernando Henrique Cardoso (FHC) já conhecido por ser ex-senador constituinte e famoso cientista político uspiano.

 

Marxismo acadêmico no Brasil

 

A primeira transição ideológica vem de um processo paulatino de diálogo entre filiados do PSDB nacional que ocupavam os primeiros escalões do governo federal de Itamar Franco (PMDB), o Congresso Nacional e alguns governos estaduais e municipais, liderados por Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Tasso Jereissati, Pimenta da Veiga, Ciro Gomes e José Serra, com uma escola de economistas que adotavam uma linha de pensamento econômico liberal, oriunda principalmente da Faculdade de Economia da PUC-Rio (a princípio, sem filiação partidária, casos de Pedro Malan, Gustavo Franco, Elena Landau e Edmar Bacha). Desse modo, o PSDB transita da esquerda para o centro. É nesse momento que o PSDB confere as condições políticas para que o governo Itamar Franco estabeleça o Plano Real, em 1993, com Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda. O sucesso do Plano Real, que visou a estabilização da economia, com o consequente combate à hiperinflação, viabilizou a vitória dos tucanos nas eleições gerais de 1994, em aliança com o PFL (atual DEM).

 

Um dos problemas do PSDB é exatamente a quantidade de “caciques” e correntes internas em disputa. Essa situação chega ao ponto de enfrentamentos diretos entre grupos do PSDB de São Paulo e lideranças de outros estados (especialmente o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves) | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Com essa abertura inicial às políticas econômicas liberais como uma prática ordoliberal (economia social de mercado), típica da social-democracia alemã, o PSDB e seus membros passaram a ser acusados por outros partidos políticos esquerdistas e por acadêmicos marxistas de iniciarem reformas “neoliberais” no Brasil inspiradas nas políticas do governo Margareth Thatcher (Reino Unido) e Ronald Reagan (EUA), além de uso eleitoreiro do Plano Real, o que, segundo a oposição, prejudicaria a economia brasileira e comprometeria as políticas sociais e a geração de empregos. As acusações chegaram ao ponto dos presidenciáveis Leonel Brizola do PDT chamar o Plano Real de “cálice envenenado” (Alonso, 1994) e Luiz Inácio Lula da Silva do PT se apresentar como contrário ao plano e prometer desfazê-lo assim que eleito.

 

Conservadorismo no Brasil

 

Por influência do cenário político internacional, o PSDB inicia uma segunda transição ideológica, por meio da ideia de terceira via do sociólogo Anthony Giddens, adotada pelo novo trabalhismo (new labour) britânico do ex-primeiro-ministro Tony Blair e pelo governo democrata do ex-presidente dos EUA Bill Clinton, com quem Cardoso desenvolveu amizade. A terceira via se tornou a principal referência política do PSDB. O sociólogo Anthony Giddens observando as mudanças políticas da Europa com o final da Guerra Fria estabeleceu uma releitura do pensamento político da centro-esquerda do pós-Guerra Fria, dentro do Partido Trabalhista inglês (Labour), após a experiência liberal econômica mais radical do governo Thatcher e Reagan. Segundo Giddens, o Estado não deveria se tornar mínimo sem critério e deixar tudo na mão invisível do livre-mercado, como desejam os liberais radicais, nem mesmo se tornar o monstro socialista dominando quase todos os aspectos da sociedade, como querem os comunistas, mas sim ser um Estado “necessário” limitado àquilo que deve ser de sua competência: ele não chegaria a ser o mínimo dos neoliberais. Mas seria reduzido para o mais eficiente para atender demandas sociais, limitando-se a questões de segurança, saúde, educação e previdência. Tal orientação política foi, em parte, acatada pela ala liberal e pelos liberais do aliado PFL/DEM, que viam na terceira via uma medida palatável para suas propostas liberais, embora estivesse longe da perfeição política e do liberalismo original. Já os tucanos defensores da social-democracia, especialmente em São Paulo, defendiam a terceira via como forma de modernização, que conforme FHC é o meio político capaz de superar a era Vargas, caracterizada pelo personalismo nos serviços públicos, patrimonialismo exarcebado e centralização estatal das decisões econômicas.

 

 

 

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Sociologia Ciência & Vida Ed. 69

*Dr. Alessandro Farage Figueiredo é cientista político, jurista, sociólogo e demógrafo. Pós-doutorado em Desenvolvimento Internacional pela University of Denver. Pós-doutorando em Ciência, Tecnologia e Educação pelo Cefet/RJ. Tem o website https://plus.google.com/+AlessandroFarageFigueiredo e seu e-mail é alefarage@gmail.com

**Dr. Fábio Metzger é cientista político, historiador, sociólogo e jornalista. Tem o blog https://politicavoz.wordpress.com/ e seu e-mail é fabiometzger@terra.com.br

Adaptado do texto “A social-democracia europeizada e a terceira via centrista do PSDB”