Incertezas do presente

Como lidar com um dos maiores dilemas impostos às Ciências Sociais?

Por Tainá Veloso Justo | Foto: 123RF | Adaptação web Isis Fonseca

Incertezas do presente

Imaginar-se num campo de colheitas num distante vilarejo na Europa do século XIV, celebrar os acontecimentos da vida marcados pela mudança das estações, deixar a terra levar o seu tempo para frutificar. Dois séculos mais tarde, podemos ser um escriba diante de seus alfarrábios a ler demoradamente tratados antigos e cartas extensas, considerar as questões postas por novas teorias, escrever pausadamente e detalhadamente sobre as coisas que se descobrem. Essas imagens parecem deslizar lentas sobre uma linha do tempo a passar diante de nossos olhos, cujas retinas se irritam pela lentidão com que se sucedem os quadros.

Nos primórdios do cinema, as imagens em movimento correspondiam a 24 quadros por segundo, atualmente são 30 (permeados por milhares de efeitos sonoros
e visuais). A partir da divisão do trabalho, a velocidade da vida acelerou-se, mas não havia ultrapassado limites de velocidade. Havia um processo duríssimo de recrudescimento de almas, o homem enquanto autômato que tombava exausto ao fim da jornada de trabalho. As guerras mundiais, sobretudo a Segunda (1940-1945), transformam-se em máquinas ótimas de eliminação de pessoas.

Chacinas, extermínios, holocaustos foram palavras pesadas e quase cotidianas no desenrolar da História no século XX, que se encerra com a Guerra Fria e se prepara para o novo milênio com formas mais eficazes e velozes de comunicação. Na década de 1990, a internet se torna acessível aos cidadãos, sai dos altos escalões dos governos e adentra os lares dos representados.

O mundo encolhe. A vida acelera. Os hábitos se flexibilizam. As leis perdem a rigidez de outrora. O tempo rompe o relógio e se adianta e atrasa sem muito critério. Os indivíduos se desprendem de vez de seus nacionalismos e os Estados-nação se encontram sobrepostos por organizações supranacionais.

O século XXI começa permeado pela incerteza do presente, um passado distante e um futuro irreconhecível. Não nos pautamos mais pelas mudanças de estações,
a natureza é que não deve se interpor aos nossos planos. A velocidade da vida contemporânea passa por cada vez menos intensidade de relações sociais – cada vez mais efêmeras e objetivas, relega a reflexão a um canto de coisas inúteis e segue como bólido imparável. Qualquer comportamento retardatário torna-se um ato de resistência aos sinais dos tempos.

Podemos dizer que o principal dilema posto às Ciências Sociais trata-se da incerteza. Um mundo em que os indivíduos se veem em face às contradições de todo
tipo; um mundo pequeno e transbordante de informações que muitas vezes se chocam, confundem, aterrorizam (um alto nível de consciência de algo, ou uma superexposição a determinado tema).

Tal descrição denota um cenário tenebroso e inescapável, num primeiro lance de vista, o cenário claustrofóbico, sem saída, homens que não escrevem a própria história. Nos últimos 16 anos, a sucessão de acontecimentos se deu muito mais rápido comparando-se ao último século e sua violência sem medidas, as revoluções tecnológicas que permitiram que as novidades chegassem quase que ao mesmo tempo do ocorrido.

Fotografia, cinema e internet, os meios eletrônicos de comunicação que Arjun Appadurai descreve como “ferramenta para que cada indivíduo se imagine como um projeto social em curso” (2004, p. 14-15). O início do século XXI vive uma experiência intensificada do que se prenunciou e de fato ocorreu no século XX, o aumento da incerteza.

Essa vivência na qual a produção é intensa, o consumo imediato e o descarte é o fim esperado. Dois movimentos colidem e convivem – o que não deixa de ser normal, a intensificação das contradições produz isso –, de um lado as lutas por reconhecimento, o multiculturalismo, o pluralismo político, los de abajo que expõem seu lado da história e reclamam seus direitos por terra, voto e identidade; do outro, uma enorme homogenização dos gostos, dos ethos sociais, das instituições, como se o mundo todo devesse trabalhar sob uma única matriz, identificada apenas por estereótipos consolidados numa certa cognição coletiva.

A incerteza perpassa uma questão ancestral das sociedades: a definição do outro. Se pegarmos de exemplo um dos acontecimentos mais marcantes desse início de século, o ataque às torres gêmeas do World Trade Center, podemos colocar como a alteridade contemporânea é confusa, difusa e incerta. A razão é simples:
após dois aviões de empresas nacionais dos Estados Unidos terem sido atirados contra um dos maiores prédios do mundo, fora a terceira aeronave, lançada
em direção ao Pentágono – o centro crítico do Departamento de Defesa americano –, como responder a tal ofensiva?

Governos são postos contra a parede e uma resposta imediata é exigida. Nesse caso, como retaliar outra nação quando o terrorismo contemporâneo não tem face? Ao longo da última década esse rosto ganhou feições radicais e religiosas, no caso o islamismo radical. No entanto, apesar do rosto definido, as questões continuam nebulosas.

A cada novo ataque um mesmo grupo reivindica a autoria, num ato que gera mais confusão. Os governos e a necessidade imposta dos representados por respostas imediatas ficam a disparar suas munições no escuro. A incerteza se impõe como a única certeza, e a noção schumpteriana de destruição criativa, ou seja, a ausência de cálculos das consequências de mudanças, segue como paradigma não só em empresas multinacionais, mas no âmbito dos governos. A lógica daquele outro irreconhecível, invisível e fluido passa a operar no interior de instituições que até certo ponto funcionavam segundo nossas teorias nos ensinam.

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