Intelectual x especialista

Ao intelectual progressista brasileiro cabe o trabalho de resgatar o inconsciente popular, a história e o desejo de transformar o homem, o mundo e a vida

Por Yago Junho* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Um dos temas que mais reclamam uma profunda reflexão nesses tempos de maré cheia pós-moderna e ao mesmo tempo reacionária diz respeito ao papel que cabe ao intelectual. “A figura do intelectual (artista, filósofo, pensador), tal como criada na modernidade clássica, entrou no seu ocaso”, afirma Beatriz Sarlo em Cenas da vida pós-moderna. Porém, segundo a mesma escritora, algumas das funções reclamadas pelos intelectuais ainda continuam atuais, tais como: “a crítica daquilo que existe, o espírito livre e anticonformista, o destemor perante os poderosos, o sentido de solidariedade com as vítimas” (Sarlo, 2000, p. 165).

 

Hoje o sentido heroico atribuído à prática intelectual não atrai mais ninguém. Primeiro porque os próprios empreenderam uma profunda revisão do elitismo explícito dos intelectuais do modelo clássico, bem como as instituições cooptaram esses mensageiros do conhecimento imprescindível à prática do juízo crítico. E nas academias trabalham como especialistas. E aqui a ensaísta argentina traça uma linha sutil demarcando o exercício teórico dos especialistas e dos intelectuais.

 

Os especialistas trabalham até às margens do possível, e suas opiniões são as bases das políticas de longo prazo. “Num clima em que se comemora o fim das ideologias, os especialistas encarnam a figura da história: garantem o pragmatismo e fundam um novo tipo de realismo político” (Sarlo, 2000, p. 167). São os burocratas estatais, portadores de um conhecimento técnico e neutro. Acreditam estar acima dos grupos sociais e de seus respectivos interesses, considerando que sua prática é uma prática não política.

 

Foto: Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 63

 

Numa onda de perda de valores, esses profissionais, segundo Beatriz Sarlo, são os portadores do vazio de fundamentos. Quando são chamados à tomada de posição vivem à deriva, “[…] entre o vale-tudo e as tentativas de despertar um núcleo de princípios que permita, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da pesquisa científica e o estabelecimento de limites que lhe são necessários, mas que ela não consegue encontrar nas fronteiras propriamente científicas” (Sarlo, 2000, p. 169).

 

Por outro lado, o cerne da prática dos intelectuais é a recusa em aceitar a neutralidade valorativa. O intelectual é o sujeito que toma partido, seu campo de ação é o choque de valores. Mesmo não deixando de lado os problemas ocasionados ao longo do século XX por essas tomadas de posições, a escritora entende que não foram eliminadas as questões sobre quem fala e como se fala. E ataca: o individualismo da nossa sociedade, o enfraquecimento da esfera pública, a baixa confiança dos cidadãos em relação às instituições e aos políticos, o reacionarismo das igrejas, a baixa qualidade dos meios audiovisuais, a crise da escola, a decadência da cultura e a miséria de sentidos globais não podem ser percebidos como autonomia dos indivíduos.

 

O problema central é que o pluralismo não é tolerante sem uma perspectiva geral, mas simplesmente particularista. A ideia do relativismo de que os valores independentemente de uma avaliação crítica são válidos deixa aberto o curso da sociedade ao vento das razões mais particularistas. “Nessa atmosfera, não devemos encarar a necessidade de uma discussão geral de ideias como capricho de intelectuais à moda antiga, nem como sobrevivência ilegítima de hegelianos ou marxistas clandestinos que apostam seu poder simbólico na reconstrução de uma totalidade determinada. Tampouco devemos entregar as ideias gerais à única fábrica que as produz no atacado: os meios audiovisuais de comunicação, que, beneficiados pelo rompimento dos grandes centros modernos de construção ideológica, oferecem-nos livres de qualquer suspeição de parcialidade, quase todas as ficções do social que consumimos” (Sarlo, 2000, p. 177).

 

Para ler na íntegra, faranta a revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 68 nas bancas ou clicando aqui!

*Yago Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor do livro Sociologia Pau Brasil pela Editora Multifoco. E-mail: yeuzebio@gmail.com

Adaptado do texto “Intelectualidade perdida”