Internação compulsória e repreensão na Cracolândia

Profissionais afirmam que a medida não é a solução para o problema e se caracteriza como reflexo de uma herança manicomial que acompanha a história da saúde no Brasil

Por Caroline Svitras | Foto: Shutterstock

Em maio deste ano, policiais e frequentadores da região paulistana conhecida como Cracolândia entraram em confronto após a denúncia do roubo de um celular. Onze dias depois, 900 agentes das polícias Civil e Militar participaram da megaoperação responsável pela prisão de 35 pessoas e pela dispersão dos frequentadores daquela região, a maioria usuária de crack. Desde então, um grande debate tem se travado na sociedade brasileira sobre quais medidas devem ser implantadas tanto para o tratamento de dependentes químicos a fim de evitar que mais episódios como este se estabeleçam na cidade.

 

“As cracolândias já foram alvos de diversas intervenções pontuais e alvo de políticas públicas polêmicas. […] Hoje em dia, o combate ao crack é visto como um problema não só de saúde pública, mas também de segurança pública”, nos conta o psiquiatra Ricardo Steffen. Diante do conflito travado entre usuários e policiais, a Prefeitura de São Paulo entrou com um pedido na Justiça pela internação compulsória dos dependentes químicos que se estabeleceram na Cracolândia. A psicóloga Verônica Veras afirma que “atualmente não existem medicamentos eficazes comprovados no tratamento do uso de crack e a internação nem sempre é a solução”. Para ela, “a origem do vício em crack e da formação da Cracolândia está na sociedade, o efeito não pode ser simplesmente escondido atrás dos muros”.

 

Para compreender melhor o cenário em questão, devemos levar em conta a forma como o vício atua na mente e no corpo de uma pessoa e as razões que levam alguém a se entregar às drogas. Steffen afirma que “as pessoas usam drogas porque se sentem bem. Elas têm um efeito tranquilizante ou euforizante, que geram prazer de alguma maneira”. Veras acrescenta a fala do psiquiatra e nos conta que “o crack é a forma mais barata de levar as moléculas de cocaína ao cérebro de forma mais rápida e efeitos mais intensos. […]A dependência ocorre com frequência, pois da mesma forma rápida com que é absorvido pelo organismo, sua eliminação também é veloz, gerando uma interrupção na sensação de “bem-estar” seguida imediatamente por um imenso desprazer e vontade incontrolável de reutilizar a droga”.

 

Diante desta realidade, qual pode ser o melhor tratamento para quem enfrenta a dependência em crack? Veras mostra que o caminho “ideal é o que combina soluções para cada área que o usuário apresenta como base do seu vicio no crack. É um desafio para os profissionais de saúde que precisam olhar para o usuário como alguém que tem uma história”. Segundo ela, esse auxílio chega às pessoas por meio do Plano Nacional de Enfrentamento ao Crack, que busca combinar as áreas de Educação, Saúde e Desenvolvimento Social no combate ao problema.

 

A defesa da internação compulsória vem, geralmente, associada ao discurso de que os usuários frequentadores daquela região não têm interesse na recuperação. Entretanto, Steffen rebate este argumento com o dado de que “estudos nacionais mostram que a maioria (cerca de 80%) dos usuários de crack buscam tratamento.[…]  Apesar disso, apenas a oferta do tratamento não é a solução total do problema. Embora as atividades policiais sejam necessárias para ajudar a reduzir a oferta de drogas, essa redução deve acompanhar programas de prevenção e recuperação”.

 

Além disso, Veras conta que, devido aos efeitos da própria droga no organismo da pessoa após anos de uso, o tratamento pode se tornar dificultoso. Para ela, “o prejuízo psíquico pode interferir no tratamento, pois ele [o dependente] pode não conseguir criar estratégias para enfrentar o problema”. O crack promove a contração dos vasos sanguíneos do cérebro, promovendo dificuldade de memória, de compreensão e na resolução e problemas.

 

Diante de tanto debate e discussões, a psicóloga Cláudia Melo afirma que a melhor estratégia para evitar o surgimento de novas cracolândias é a “reeducação popular para os cidadãos de São Paulo. Pois é reeducando que acabamos com o preconceito”. Veras também oferece uma alternativa ao aprisionamento de dependentes químicos contra sua vontade: “o mais importante no tratamento é pensar que não se trata de um problema com causa única e que por isso temos que tratar todos os usuários de forma igual. O que leva um sujeito a usar drogas geralmente é uma incapacidade de lidar com uma questão que é só sua. Incapacidade essa que pode estar relacionada à sua saúde mental, física ou até mesmo a sua vida familiar ou social. O tratamento ideal é aquele que leva em consideração a historia dessa pessoa, tudo que está envolvido e que provavelmente é a base do vicio”. Por fim, ela completa: “temos como herança o modelo asilar manicomial, que nos faz ter certeza que a solução é excluir. Enquanto pensarmos assim, qualquer tentativa de ressocialização é inviável. Como reintegrar alguém em uma sociedade que exclui? A origem do vício em crack e da formação da Cracolândia está na sociedade, o efeito não pode ser simplesmente escondido atrás dos muros. Tudo volta, cada vez mais quando a causa não é tratada.”