Introdução ao positivismo

O Positivismo, uma doutrina filosófica, sociológica e política, no Brasil, ganhou espaço no meio intelectual e na literatura no mesmo período em que as ideias republicanas ganharam adeptos e se fortaleceram como antagonismo ao regime monárquico

Por Sérgio Sanandaj Mattos* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Este artigo oferece a seus leitores uma abordagem abreviada do Positivismo, primeira corrente de pensamento sociológico, reconhecido por reunir aspectos e princípios relativos ao homem e à sociedade, buscando explicá-los de modo científico. É para essa reflexão que a revista Sociologia convida à leitura seus leitores, professores, pesquisadores, alunos e profissionais vinculados aos grandes temas ou questões sociais. Essa consideração é de tal importância visto que “(…) o Positivismo derivou do cientificismo, isto é, da crença no poder exclusivo e absoluto da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob a forma de leis naturais”(COSTA, 1987, p. 42).

 

Essa abordagem não é absolutamente uma inovação recente, pois muitos aspectos aqui apresentados podem ser encontradas nas obras de Comte, entre outros pioneiros. Para os positivistas “a humanidade atingiria o ápice do progresso, afastando-se do misticismo, baseando-se na ciência, em termos políticos, culto à autoridade, a necessidade de ordem como condição básica do progresso e a república como o grande ideal”.

 

A Sociologia no Ensino Médio

 
Desenvolvido por Auguste Comte, o Positivismo, uma maneira de pensar a vida social, delimitou a área de estudo do pensamento social em relação aos demais campos do conhecimento. A Sociologia como ciência teve início no século XIX por influência tanto do desenvolvimento das outras ciências quanto das transformações sociais da época. Comte chamou inicialmente de Física Social, antes de criar o termo Sociologia, palavra hibrida do latim e do grego, socius-logos, estudo do grupo; a ciência que estuda os grupos. Ao fundamentar a nova ciência, mostrou-se contrário aos tipos de pensamento vago sobre o homem, as especulações da razão pura, ou seja, da Metafísica e da Teologia.

 

Auguste Comte | Foto: Wikimedia Commons

 

Ao considerarmos o Positivismo uma das primeiras formas de pensamento social, como um preposto de análise social, reafirma-se um importante marco da gênese e do desenvolvimento da sociologia. Este artigo nada de inédito contém em matéria sociológica, exceto a intenção de oferecer aos que se iniciam na matéria, estudantes e leitores, e a todos os que usam a leitura como instrumento pedagógico e cultural, reflexões sobre o Positivismo, sua influência, presença e implicações sociopolíticas e culturais no Brasil, resgatando aspectos desse importante campo de conhecimento sociológico.

 
Vale sublinhar, como observa Maria Cristina Costa que: “(…) Por mais evidentes que se tornem hoje os limites, interesses, ideologias e preconceitos inscritos nos estudos positivistas da sociedade, por mais que eles tenham servido como temas de ação politica conservadora, como justificativa para as relações desiguais entre sociedades, é preciso lembrar que eles representaram o primeiro esforço relevante de análise científica da sociedade” (COSTA, 1987, p. 46).

 
Apesar de a palavra “sociologia”, cunhada por Auguste Comte, ser de origem relativamente recente, as observações e as generalizações assistemáticas de caráter sociológico são tão antigas como as de qualquer outra ciência. Foram expostas em grande número de obras da Antiguidade.

 

A história da Sociologia tem sido contextualizada e caracterizada por diversos pensadores. A recepção do Positivismo no Brasil foi de fato de suma importância para a construção da sociedade brasileira. Alfredo Poviña, em um esquema de periodização para toda a América Latina, considera (1) um período positivista correspondente ao nascimento da Sociologia; (2) uma fase pré-universitária, em que se elabora uma Sociologia acadêmica, teórica e geral; (3) uma etapa de aplicação, com uma Sociologia concreta, especifica e prática, que estuda os problemas situados no campo da realidade (POVIÑA, 1955, p. 121).

 

Sociologia e produção cultural

 
A despeito desses primórdios, entretanto, é a Sociologia, essencialmente, uma disciplina do século XX. Historicamente, podemos dizer que a Sociologia enquanto Ciência foi concebida pelo criador do Positivismo francês, Auguste Comte (1798-1857), que se serviu de modelo da Física e da Física Social para estruturar a Sociologia.

 

Comte dividiu a Sociologia em duas grandes áreas, a Estática Social, que estudaria a ordem da sociedade, e a Dinâmica Social, que estudaria a estrutura do progresso. O dinâmico é o progresso. A estática social concebe a sociedade como um organismo pelo “consensus ideológico” e pela tentativa e tendência de atuar congenitamente. Portanto, como um consensus espiritual. Nessa perspectiva de pensamento, é condição, para que uma sociedade se mantenha, o consensus ideológico. E vai além desse esforço Comte, que concebe a Sociologia como a Ciência da crise.

 
Comte pensa a ordem da sociedade, a partir de um momento histórico em que havia a desordem. A partir da desordem dessa sociedade, pensa a motivação para atingir a ordem. A tentativa de fazer da análise da sociedade uma sociedade é um dos aspectos mais interessantes desse pensador positivista. Rejeita as ideias religiosas e as ideias iluministas. Pensa um sistema de valores comuns a todos os homens. Ao pensar valores, Comte pensa a própria ideologia, e, ao pensar um sistema de crenças comuns numa sociedade dividida, estava pensando na própria sociedade capitalista.

 

Conheça a Sociologia do Conhecimento

 
Comte quer conhecer os fenômenos concretos mediante a experimentação e a observação, num estado positivo. O fundamental é a maneira de conhecer a realidade. Para Comte, a linha evolutiva do homem é dada pelo progresso e desenvolvimento do conhecimento. Não são as ideias que movem o mundo, dirá Comte, e sim os conhecimentos, e mais precisamente os modos de produção do conhecimento. Segundo Comte, ideias não significam conhecimento, ideias são necessárias para se chegar ao conhecimento. Eu posso ter ideias e não ter conhecimento. Ideias são a realidade que não significa explicações científicas sobre a realidade. Ideias são representações da realidade social, são senso comum. Mas o conhecimento da realidade social, segundo o próprio Comte, é o conhecimento científico. Como se observa, Comte têm uma fé inabalável na “racionalidade”. Comte é o resultado de uma sociedade e de uma situação caótica. Quer construir uma nova sociedade através de uma nova ordem, para que possamos viver os princípios revolucionários da Revolução Francesa, que objetivava implantar uma sociedade livre, fraterna e igualitária. O fundamental para Comte é a maneira de conhecer a realidade.

 

 
O conhecimento para Comte seria fruto da observação, da experimentação e da comparação. Para Comte as repetitivas constantes corresponderiam à estática social, e portanto à ordem social. Já as adequações desses fatos repetitivos no transcorrer da história seriam a dinâmica social e daí o progresso. O progresso humano para Comte se verifica numa ordem social, daí o lema positivista ordem e progresso. As relações humanas são no campo da produtividade social. Essa ordem para Comte é a sociedade positivista.

 
Poderíamos nos perguntar por que Comte pensa a ordem da sociedade a partir da desordem? Porque o momento histórico de Comte era de conflitos sociais, ou seja, a desorganização da sociedade moderna. E a forma de resolução da desorganização seria através da Ciência, do pensamento científico, através da Ciência moderna. Isto porque a Sociologia de Comte surge no bojo do pensamento liberal. As ideias de Comte são produto direto de sua época.
Comte tem uma preocupação constante com a não realização dos princípios da revolução francesa. Os princípios igualdade, fraternidade e liberdade se fazem presentes inegavelmente em Comte. Comte faz a crítica de sua sociedade. Esse é um grande mérito da sua obra. Para Comte, é chegado o momento de sair das reflexões filosóficas. “Chega de reflexões filosóficas. Chegou o momento de conhecer a realidade social, intervindo e resolvendo os problemas fundamentais, que impedem a realização das ideias fundamentais – liberdade, igualdade e fraternidade.”O sentido de Positivismo da obra de Comte (1798-1857) está em que conhecendo positivamente a realidade social passarei a encontrar a solução de todos os problemas.

 

 

Confira a entrevista com um sociólogo sobre o marxismo

 

Positivamente a construção de uma realidade social melhor implica em encontrar soluções para os problemas. Positivamente, no sentido de que se pretenda ser objetivo e neutro do conhecimento científico dentro da realidade. O Positivismo de Comte significa a investigação científica com o método das ciências físicas e naturais. Descobrir a ordem significa descobrir as leis estabelecendo relações causais entre elas. Para Comte, que o homem com espírito objetivo e neutro explique estabelecendo relações causais, como causa e efeito (violência urbana/miséria). Comte acredita num conhecimento positivo da realidade. Se para Kant a realidade é construída a partir da experiência que é fruto do sujeito, então somente os “a prioris” estão no bojo do conhecimento científico. O homem é uma coisa em si e eu não conheço. Eu conheço o fenômeno homem. Portanto, o conhecimento deriva da experiência.

 
A recepção do Positivismo esteve ligada a muitos fatores, de acordo com o contexto, personagens, e a apropriação das ideias. São abundantes em Porto Alegre os registros iconográficos alusivos ao Positivismo. Um dos aspectos mais visíveis do Positivismo no Rio Grande do Sul é a sua influência na arquitetura, em prédios históricos, monumentos. O monumento a Júlio de Castilhos erguido na Praça da Matriz impressiona por sua beleza plástica e a harmonia da construção assim como, especialmente, sua riqueza simbólica. A influência exercida pelo Positivismo sobre a sociedade brasileira, especialmente a gaúcha, entre as décadas finais do século XIX e as iniciais do século XX, é dos traços mais característicos da história e da cultura do Brasil. Vale lembrar, ainda, que movido pelo ideal republicano, Benjamin Constant, ao assumir o Ministério da Instrução Pública, procurou implementar o ensino da disciplina Sociologia no início da República brasileira e sob influência do Positivismo, e Júlio de Castilhos, durante a revolta federalista, elaborou uma Constituição estadual baseada em ideias positivistas.

 

Monumento a Júlio de Castilhos, personagem histórico do Positivismo no Rio Grande do Sul. O monumento foi desenvolvido por Décio Villares, autor que também fez o desenho da atual bandeira do Brasil, contendo a inscrição positivista “Ordem e Progresso”. Em torno do monumento várias estátuas que simbolizam valores ou emoções importantes para o Positivismo. | Foto: Wikimedia Commons

 
Inúmeros historiadores, sociólogos, filósofos assinalam que no Brasil houve dois tipos de positivismos: “um “positivismo ortodoxo”, mais conhecido, ligado à Religião da Humanidade e apoiado por Pierre Laffitte, discípulo de Comte, e um “positivismo heterodoxo”, que se aproximava mais dos estudos primeiros de Augusto Comte, que criaram a disciplina da Sociologia, apoiado por outro discípulo de Comte, Émile Littré. Ainda, segundo estudiosos e pesquisadores dedicados ao tema, podemos classificar os positivistas brasileiros, no final do século XIX, em três grupos: “(…) os partidários da Doutrina Comtista – intelectuais que apenas seguem a Filosofia positivista; os políticos interessados na aplicação prática da Política positivista; e os ortodoxos, aderentes completos que seguem a doutrina, a Religião e a Filosofia e que se dispunham a pregar e difundir o Positivismo”.

 
Simplificando, pode-se considerar que há várias formas de abordar as contribuições e influências do Positivismo para a reflexão social e politica. Vale dizer: o Positivismo é uma parte importante da história das Ciências Sociais no Brasil. Certamente, o Positivismo contribuiu não apenas para o desenvolvimento da Sociologia, mas fundamentalmente para a compreensão de muitos problemas que inquietam o homem, a existência e a sociedade.

 

 

*Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp). É coautor do livro Sociólogos & Sociologia. Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo (ss.mattos@uol.com.br).

Adaptado do texto “O Positivismo, primeira corrente do pensamento sociológico”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 57