Juventude e a sexualidade

A questão da sexualidade, sobretudo no tocante ao prazer, ainda é um tabu para o cristianismo. Como, então, os jovens religiosos lidam com essa temática diante de tanta exposição do erotismo e da pornografia na internet e em mídias de massa, como a televisão?

Por Leandro Ortunes*| Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Atualmente, o dia 6 de setembro é considerado o Dia do Sexo, fruto de um trocadilho sobre a data 6/9, e, com o apoio de uma famosa marca de preservativos, passou a receber destaque na mídia depois de sua aparição nas redes sociais, gerando grande repercussão positiva, promovendo debates e ilustrações cômicas sobre o assunto. No entanto, mesmo diante dessa aparente liberdade ao se falar de sexo, é preciso destacar que, para muitos, o sexo ainda é um tabu. Partindo de uma hipótese freudiana, o sexo pode ser algo extremamente estranho e inconcebível desde a infância: “O aspecto dessas descobertas que afeta mais profundamente a criança recém-instruída é a maneira como se aplicam aos seus próprios pais. Essa aplicação é, muitas vezes, francamente rejeitada por ela, mais ou menos nestas palavras: ‘Seus pais e outras pessoas podem fazer coisas como esta entre si, mas meus pais, certamente, não podem fazê-las’” (Freud, 2003, p. 72).

 

Sigmund Freud, em Cinco lições de psicanálise; contribuições à psicologia do amor e na obra Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, fornece reflexões sobre o funcionamento da psique humana e sua relação com sexualidade, demonstrando o quanto é complexo esse tema e quais são suas implicações na vida adulta. Além da psicologia, que examina a sexualidade e seus reflexos no indivíduo, a Sociologia se preocupa com a mesma temática, porém com enfoque em seu impacto na vida em sociedade. São diversos trabalhos da Sociologia que buscaram identificar a construção social sobre a sexualidade e sobre o gênero, somados aos fatos sociais que permeiam nossa sociedade. Da mesma forma, este artigo irá apresentar alguns elementos que contribuíram para que a sexualidade se tornasse um tabu na sociedade, principalmente dentro do cristianismo. Por meio de uma pesquisa realizada com 403 jovens, este artigo demonstrará como o religioso cristão sobre o sexo é assimilado atualmente.

 

Em uma análise sobre o aspecto religioso, é importante destacar que nem todas as religiões consideram o sexo como algo degenerativo. Nem mesmo a religião hebraica, em sua origem, concebia o sexo desta forma. Essa mudança na maneira como a religião e a sociedade ocidental concebem a sexualidade como algo negativo teve sua origem no processo de helenização na religião judaica. Na filosofia grega, principalmente no movimento estoico, escola filosófica do século III a.C.,  se propagava a visão negativa e redutora do sexo. Para estes, o homem deve buscar a virtude, se afastando dos prazeres de Afrodite. De todas as filosofias gregas, o estoicismo foi a mais presente na formação do pensamento cristão.

 

 

Além disso, a filosofia grega também impactou na própria religião hebraica e na interpretação cristã sobre ela. A dualidade do corpo (corpo e alma ou matéria e espírito) presente no cristianismo é ausente nos textos do Antigo Testamento, demonstrando que para os hebreus a relação com o corpo, incluindo a sexualidade, era harmoniosa.

 

O próprio mito bíblico sobre a criação da mulher foi interpretado de uma forma diferente do contexto semita. O relato em que Eva foi criada a partir da costela de Adão forneceu subsídios para uma visão negativa sobre a mulher, principalmente ao atribuir a ela o pecado original. Diante destes elementos, a relação entre homem e mulher, incluindo a sexualidade, passou a ser duplamente negativa para a religião cristã. No entanto, uma tradução mais apropriada para essa passagem bíblica revela que a palavra tsela traduzida comumente por costela, na verdade também pode ser traduzida por “um lado” e, nisso, se iguala a outros mitos do Oriente Próximo, em que a divisão de um corpo ao meio é a base de uma dualidade harmoniosa.

 

Por outro lado, os gregos desenvolveram outro tipo de dualidade do corpo influenciando a teologia judaica e cristã. Platão ao propor a divisão da alma em três partes (cabeça, peito e baixo ventre) coloca o corpo humano em dois extremos, sendo que a cabeça é responsável pela razão e o baixo ventre pela concupiscência. Nesse sentido, a razão deve buscar o equilíbrio de todo o corpo e o controle da busca ao prazer. Essa mesma lógica determinou os conceitos de superior como bem e inferior como mal. Vale destacar que a palavra inferno do latim inferus significa lugares baixos. Uma vez que os órgãos sexuais estão localizados na região inferior do corpo, uma associação negativa é praticamente inevitável.

 

 

A influência grega sobre a teologia cristã também é encontrada nos discursos teológicos primitivos, como os do apóstolo Paulo, e séculos depois em Santo Agostinho. Ambos partiram dessa visão negativa sobre as paixões e o sexo. Paulo aconselha que os jovens, homens, fujam das tentações e que seria bom se nunca tocassem em uma mulher. Da mesma forma, para Agostinho o desejo sexual, despertado na adolescência, entre amigos do sexo oposto, era visto como algo extremamente negativo a ponto de ser chamado de fumo infernal. O resultado desses discursos foi  uma busca por parte da sociedade pela abstinência sexual em favor de um desenvolvimento espiritual, e o surgimento de uma série de novos fatos sociais. Durante todo o período medieval, o sexo foi aceito pela Igreja Católica somente dentro do laço matrimonial e para fins de procriação.

 

Após a reforma protestante com Lutero e João Calvino, abriu-se nova perspectiva sobre o sexo, pois passou a ser aceito como fonte de prazer, mas mesmo assim ainda estava reservado ao casamento. De qualquer forma, mesmo com a reforma protestante e até mesmo com o processo de secularização da sociedade, a sexualidade humana não se libertou totalmente dos fatos sociais que regem sua conduta. Para verificar se estes laços coercitivos se fazem presentes na sociedade contemporânea, apresentaremos uma análise com base em dados obtidos através de uma pesquisa.

 

 

Os dados da pesquisa

A pesquisa contou com 403 jovens, entre 18 e 28 anos, que participaram anonimamente. A intenção principal era identificar se a religião cristã ainda impacta na vida sexual de seus fiéis. Nesta pesquisa foram separados católicos e evangélicos das demais religiões dos participantes.

 

 

A primeira questão buscou identificar a frequência das relações sexuais entre solteiros, uma vez que essas confissões religiosas defendem que a atividade sexual deve ocorrer somente no matrimônio. As opções de respostas fornecidas foram: ativo sexualmente para aqueles que mantêm relações sexuais frequentemente; raras para os que o sexo acontece em atos isolados; e nunca para os que se declaram virgens. Observamos os seguintes dados:

 

 

Nas duas vertentes religiosas, percebe-se que o número de pessoas que tiveram ou que mantêm relações sexuais é superior aos que se declararam virgens. Nitidamente percebemos que dentro do catolicismo as relações sexuais antes do casamento (87,1%) são mais frequentes que dos evangélicos (66,96%). Por outro lado, um número maior de evangélicos declarou ter momentos raros (21,74% entre evangélicos contra 6,45% entre católicos). Esse fato fornece indícios de que, no contexto evangélico, ainda que possua maior apelo contra o sexo antes do casamento, o discurso não consegue inibir totalmente a prática, tornando-a mais rara entre os fiéis, porém existente.

 

Para os que declararam possuir relações sexuais antes do casamento, duas possibilidades podem ocorrer na coexistência entre a religião e a sexualidade: o indivíduo pode construir sua própria religiosidade e não encarar esse fato como a religião institucional prega, ou o indivíduo pode desenvolver um sentimento de culpa por ter cometido uma falha, a qual a religião define como pecado. Nesse sentido, Clarissa de Franco, psicóloga e doutora em Ciências da Religião pela PUC-SP, comenta sobre essas possibilidades de reação, mediante ao ato sexual fora dos padrões estabelecidos pela religião: “Tratando -se de ser humano, há muitas possibilidades de ‘consequências futuras’. É importante lembrar que a religião institucional e oficial prega preceitos que são atualizados e adaptados às vidas práticas das pessoas. Por isso, a religião oficial é diferente da religião popular, aquela vivenciada. Nesse sentido, tanto pode ocorrer desse jovem questionar a sua fé ou a sua prática sexual, como se houvesse uma batalha moral entre esses campos, quanto também pode haver saídas mais flexíveis com justificativas sólidas e saudáveis que levem o jovem a perceber essa distinção à qual me referi entre a religião oficial e a popular. Caso ocorra a primeira alternativa, a da culpa e do conflito, o jovem pode atribuir à sexualidade um caráter de sujeira, por exemplo. Pode, ainda, se sentir uma fraude, uma pessoa incoerente e falsa que não consegue sustentar discurso e a prática, pode sentir vergonha de si mesmo. Em longo prazo, essas questões podem trazer consequências, como dificuldades de relacionamento, traumas sexuais, angústia, insônia, reclusão. Mas são, na verdade,pressões que levam a pessoa a reformulações sobre o que ela acredita” (Franco, 2015). Além das relações sexuais antes do casamento, a pesquisa demonstra o número de pessoas que tiveram ou ainda mantêm contato com materiais pornográficos (vídeos e revistas etc.):

 

 

Da mesma forma que o gráfico sobre relações sexuais entre solteiros, a maior parte dos entrevistados também acessa materiais pornográficos. É interessante observar que os evangélicos possuem taxa maior de abandono do uso, pois 24,37% declararam que tiveram contato com a pornografia, mas deixaram de acessar esse conteúdo, contra 11,29% dos católicos que fizeram o mesmo. Em relação à pornografia, a pesquisa contemplou o uso entre homens e mulheres, uma vez que o desenvolvimento sexual de cada grupo possui suas particularidades. Por exemplo, as mulheres em várias sociedades possuem uma educação mais rigorosa e punitiva sobre questões sexuais: “Todos concordam em educá-las na maior ignorância sexual possível de tudo o que diz respeito às questões eróticas” (Nietzsche, 2003, p. 77). Esse rigor poderia promover uma rejeição da pornografia, no entanto, percebemos que a diferença entre o número de homens e mulheres que acessam este material é mínima, sendo que, entre católicos, é maior o grupo de mulheres que usam pornografia.

 

 

Condenação à pornografia?

Para evangélicos e para católicos, o discurso religioso predominante é de condenação à pornografia. Isso independente se o fiel é solteiro ou casado. Até mesmo o uso de pornografia entre casais, com consentimento entre aspartes, já em matrimônio não é recomendado. Embora o discurso seja este, o gráfico a seguir demonstra que essa condenação não é assimilada uniformemente pelos fiéis. O próximo gráfico demonstra se católicos e evangélicos (solteiros e casados) encaram a pornografia como pecado:

 

 

Entre os católicos 56,57% acreditam que o acesso à pornografia não é um pecado e 43,43% acreditam que seja. Neste questionário, apenas 10% dos católicos declararam não ser frequente na instituição religiosa, o que contribuiu para essa total inversão entre o discurso religioso e a prática. Entre os evangélicos, todos declaram ser frequentes na instituição religiosa, e também há uma ligeira inversão entre discurso religioso e percepção prática. Ao todo 33,53% dos evangélicos não consideram pornografia um pecado, contra 67,06% que acreditam ser. Esse fato indica que a igreja evangélica mesmo que carregada de um discurso moral constante, nas lideranças e na literatura disseminada nas igrejas, não é capaz de uniformizar o pensamento dos membros sobre esse assunto.

 

Dentre os que acreditam ser pecado, mas que mantêm relações sexuais antes do casamento ou mantêm contato com a pornografia, alguns conflitos podem ocorrer devido ao posicionamento ambíguo que deve ter. No ambiente religioso, por exemplo, deve negar tais atos para não ser punido, por outro lado, no ambiente secular, mesmo que não tenha vida sexual ativa, por muitas vezes assume possuir, isso para ser aceito em um determinado grupo social. Diante desse dilema, a doutora Clarissa de Franco comenta que o jovem também pode buscar  novas saídas saudáveis para solucionar esse conflito: “O objetivo da pessoa diante de qualquer conflito deve ser sempre buscar uma saída integradora, na qual a integridade do ser ganhe, ou seja, na qual ele consiga estar em paz com o que faz e acredita, de forma autônoma  sem a necessidade de se justificar socialmente” (2015, entrevista para o autor). Todos esses dados que foram analisados também corroboram o conceito atual de espiritualidade que se difere do conceito religião. Ainda para Franco, “portanto, a ideia corrente hoje em termos de espiritualidade é a de que ela está vinculada a uma busca pessoal de sentido, com ênfase no aperfeiçoamento humano. E isso pode envolver ou não valores religiosos, mas de toda forma envolve concepções de sentido ligadas ao exercício da fé”.(Franco, 2013, p. 41).

 

Além disso, é possível identificar uma nítida alteração na percepção e na vida prática entre os indivíduos em relação ao sexo. Indivíduos mesmo frequentes nas instituições religiosas vivenciam experiências sexuais fora dos parâmetros estabelecidos pela religião oficial. Evidentemente, esse fato, por muitas vezes, não é externalizado pelos fiéis, mas possuir dados como estes promove novas reflexões em diversas áreas do saber. Para a Sociologia, compete o trabalho de identificar se essa mudança no comportamento em relação ao sexo trouxe uma nova forma de pensamento sobre o sexo na sociedade ou, pelo contrário, se novas formas de repressão surgiram. Com isso, será possível até mesmo subsidiar novos estudos em Psicologia e até mesmo em Educação. Por enquanto, compreendemos que, de fato, hoje vivemos um novo conceito sobre o sexo, aparentemente livre dos preceitos religiosos e morais da sociedade, mas ainda carregado de dúvidas sobre a melhor forma de exercer nossa sexualidade.

 

*Leandro Ortunes é doutorando e mestre em Ciências Sociais (PUC-SP), especialista em Ciências da Religião (PUC-SP), membro do grupo de pesquisa sobre Mídia e Religião (MIRE) da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP.

Adaptado do texto “Entre o pecado e o prazer”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 61