Loucura desbravada por Foucault

Filósofo francês foi um autor célebre e controvertido, reconhecido, em âmbito internacional, por seus estudos sobre história da Psiquiatria, das Ciências Humanas, das práticas de punição e da experiência da sexualidade

Por Marcos Cesar Alvarez* e Eduardo Altheman Camargo Santos** | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quando Michel Foucault morreu, em junho de 1984, já era um autor célebre e controvertido, reconhecido, em âmbito internacional, por seus estudos acerca da história da Psiquiatria, das Ciências Humanas, das práticas de punição e da experiência da sexualidade, entre muitos outros temas abordados em seus principais livros. Em anos recentes, a publicação de muitas de suas aulas, bem como do impressionante conjunto de artigos, de entrevistas e de outras intervenções realizadas ao longo de sua vida, só fez estimular o interesse de novos leitores por seus escritos e, também, as polêmicas acadêmicas e políticas em torno de suas ideias.

 

Foucault foi um crítico rigoroso e ácido das relações entre formas de conhecimento e formas de poder, dos mecanismos sociais e simbólicos de divisão e de estigmatização que condenam indivíduos e grupos ao submundo da anormalidade, aos porões das instituições de sequestro e de vigilância, ao aprisionamento existencial em identidades subordinadas ou desviantes. Um combatente, enfim, contra as dinâmicas históricas mais opacas e perversas, que, no interior da sociedade moderna, reproduzem formas de opressão e de dominação inscritas nos hábitos cotidianos, nas instituições hegemônicas e nos saberes consagrados.

 

No campo das Ciências Humanas, tal postura permitiu que temas inéditos de investigação e de reflexão fossem desbravados, que novas pautas de discussão ganhassem força, mas, também, despertou desconfianças e resistências. Sobretudo, a partir da publicação do livro As palavras e as coisas, em 1966, em que, de forma provocativa, afirmava que a figura do “homem” era uma invenção histórica, muitos se ressentiram e tomaram o filósofo francês como um inimigo das formas de conhecimento, voltadas para compreender o indivíduo e a sociedade.

 

Michel Foucault | Foto: Wikimedia

A Sociologia não se manteve alheia a esses debates. Se a muitos sociólogos desagradava a forma como Foucault desenvolvia suas investigações, sem se preocupar, por exemplo, em estabelecer diálogos explícitos com os autores considerados clássicos da disciplina – como Émile Durkheim ou Max Weber – e, por vezes, polemizando com as posturas do marxismo, logo o potencial de suas análises, para inúmeros temas explorados pelos estudos sociológicos, prevaleceu diante das posturas mais depreciativas. Desse modo, mesmo uma rápida caracterização do percurso intelectual do filósofo francês pode indicar o potencial de suas análises, quer para as Ciências Humanas, em geral, quer para áreas mais específicas, como a Sociologia.

 

Michel Foucault nasceu em Poitiers, na França, em 1926. Seu pai era cirurgião e professor de Anatomia na Escola de Medicina. Foucault não seguirá, no entanto, a carreira paterna. Embora, com frequência, se recusasse a discutir seu percurso biográfico, a experiência da homossexualidade foi, sem dúvida, algo marcante em sua trajetória, inclusive na recusa de seu destino de classe. A Medicina, por sua vez, o interessará, permanentemente, como tema de estudos, mas num campo diverso, o da análise histórica e crítica. Sua formação se fará, assim, em Filosofia e Psicologia, em Paris. Em rápida passagem pelo Partido Comunista Francês, Foucault vai se decepcionar com a militância e a esquerda tradicional e voltar-se-á, sobretudo, para o aprimoramento de sua formação intelectual.

 

Seu primeiro livro de maior destaque, intitulado História da loucura, publicado em 1961, demonstra, claramente, como Foucault buscou canalizar as incertezas e desafios de sua própria trajetória pessoal para a construção de uma original abordagem filosófica e histórica das formas institucionalizadas de dominação, peculiares à sociedade moderna. Baseado em extensa análise documental, Foucault estudou como ocorreu, do Renascimento ao século XIX, a construção da loucura como objeto de conhecimento, até culminar na Psiquiatria. No entanto, ao contrário da maior parte dos estudos tradicionais, que narravam uma história da simples evolução da ciência psiquiátrica, Foucault apresentava uma leitura não evolucionista, uma história do contexto social, moral e imaginário, em que a Psiquiatria se desenvolveu. Longe da afirmação ingênua e relativista de que a loucura não existiria, o livro pretendia demonstrar como diferentes épocas históricas vivenciaram, de formas variadas, a experiência do desatino, da quebra da razão, do mergulho na loucura.

 

A perspectiva psiquiátrica, de acordo com a análise de Foucault, implicou numa ruptura dessas experiências anteriores e num silenciamento das vozes múltiplas, que as manifestavam em prol da transformação da loucura em doença mental, em objeto da Psiquiatria. E tal transformação estava associada tanto à história das instituições de internamento – como os hospitais psiquiátricos – quanto à constituição de uma nova sociedade burguesa, urbana e industrial.

 

Doença mental ou exclusão?

 

Desse modo, em História da loucura, Foucault, de fato, discutia como saberes, práticas e instituições demarcaram fronteiras fundamentais da sociedade moderna, ao circunscrever indivíduos no espaço da rejeição, da anormalidade e, ao mesmo tempo, da curiosidade científica e da tutela estatal.

 

 

Nos livros que se seguiram, O nascimento da clínica, publicado em 1963, e o já citado As palavras e as coisas, de 1966, Foucault realizou uma história da clínica moderna e das Ciências Humanas, respectivamente. Mas será a partir de Vigiar e punir, que veio a público em 1975, que sua discussão sobre as relações entre saber e poder ganharão maior repercussão.

 

 

Foucault sempre se recusou a fazer teoria, no sentido tradicional da expressão. Seus estudos ficaram, geralmente, circunscritos a períodos determinados e questões precisas. Mas não se furtou a construir conceitos analíticos – como o de poder –, que muito contribuíram para o debate contemporâneo da Sociologia. A ideia de que as relações de poder não se restringem ao aparelho estatal, mas que estão disseminadas na sociedade, nos espaços íntimos e nas relações de gênero, nas instituições punitivas e de controle social, nas tecnologias de governo dos homens as mais diversas, é um ganho incontornável, também, para a Sociologia.

 

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*Marcos Cesar Alvarez é professor de Sociologia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

**Eduardo Altheman Camargo Santos é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da mesma universidade e bolsista do CNPq.

Sociologia Ciência & Vida Ed. 56

Adaptado do texto “Michel Foucault e a Sociologia”