Marxismo acadêmico no Brasil

Formado em 1958, o grupo reuniu nomes de destaque do pensamento social brasileiro e se transformou em uma iniciativa importante na interpretação da obra de Marx no Brasil

Por Rafael Marchesan Tauil | Adaptação web Caroline Svitras

 

O Seminário do Capital foi formado no ano de 1958 na FFCL–USP e era composto por José Arthur Giannotti, Fernando Novais, Paul Singer, Octavio Ianni, Ruth Cardoso, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, entre outros. A ideia inicial de formação do grupo coube a Giannotti e a sugestão de leitura de O capital a Fernando Novais. Constitui capítulo importante na formação do marxismo no Brasil e substancialmente nos moldes que seriam traçados os rumos de interpretação da cadeira I de Sociologia uspiana, que tinha desde 1954 Florestan Fernandes como chefe interino quando da partida de Roger Bastide para a França. O Seminário viria alterar o modo como a obra de Marx havia sido interpretada até então no Brasil. Utilizada até 1958 substancialmente pelo Partido Comunista Brasileiro e pelo ISEB, a obra de Marx não tinha papel central nas universidades. Os trabalhos do autor eram tidos como referências de leitura ao lado de Durkheim, Weber e Mannheim e não tinham, até aquele momento, o estatuto “diferenciado”, como passaram a ter depois da experiência do Seminário.

A agenda da nova esquerda

 

O “movimento intelectual” denominado como Seminário do Capital exerceu grande influência sobre a produção intelectual uspiana. A partir desse seminário os intelectuais tomaram contato com a obra seminal de Marx e tiveram a oportunidade de estudá-la de forma sistemática. A participação nesse seminário de estudos sobre a obra alterou a perspectiva teórico-metodológica adotada pelos estudiosos uspianos. As correntes estruturais-funcionalistas – incentivadas à época por Florestan Fernandes – foram sendo deixadas de lado pouco a pouco. A dedicação à Sociologia aplicada e seus autores já não era mais a mesma, além disso os estudos empíricos aplicados passavam a figurar quase como páginas viradas nas abordagens elaboradas por alguns dos autores que se dedicaram aos estudos no grupo. Esse foi um processo lento e, apesar de podermos perceber a inserção no eixo de análise marxista na tese de doutorados de alguns dos diferentes participantes do seminário, podemos também enxergar os “fantasmas” deixados pelo estrutural-funcionalismo e pelas interpretações baseadas na Psicologia Social e na Sociologia Aplicada, defendida como corrente metodológica imprescindível aos intelectuais provenientes da Escola de Chicago e de outros segmentos da Sociologia dos anos 1940-1960.

 

Émile Durkheim

O surgimento do marxismo acadêmico se deu num momento bastante singular no Brasil e no mundo. Vinha a lume a realidade desvelada pelo “fracasso” do comunismo na União Soviética e, ao mesmo tempo, a morte de Stalin permitia naquele momento que ficasse registrada uma face diferente do comunismo soviético e de seus partidos. “Com a morte de Stalin, em 1953, a divulgação das realidades inaceitáveis da União Soviética e da vida interna dos partidos comunistas ganhou em amplitude, também entre adeptos e simpatizantes” (Schwarz, 1998, p. 3).

 

Nova tradução d’O Capital

Diante desses e de outros fatores, como as preocupações com o atraso do Brasil em relação aos países desenvolvidos, o surto nacional-desenvolvimentista industrial e a questão referente à viabilidade do avanço do capitalismo no Brasil, procurava-se um afastamento do marxismo ortodoxo do ponto de vista da práxis revolucionária que se fazia presente naquele momento em partidos e outros movimentos sociais. Outra preocupação com relação àquele momento era poder conferir maior estatuto científico e filosófico à obra de Marx, procurando utilizá-la não apenas como manual prático de intervenção da realidade, mas também como ferramenta metodológica capaz de fornecer instrumental efetivo para uma melhor interpretação e apreensão da realidade nacional brasileira e de outros países latino-americanos. “O objetivo mais evidente do grupo foi o de fazer, através da junção de várias áreas de atuação, um esforço teórico que lhe possibilitasse elaborar uma nova ‘interpretação do Brasil’, e de seu lugar no mundo (…)” (Lahuerta, 2005, p. 162). Buscava-se ao mesmo tempo que uma reinterpretação da obra marxista, uma nova leitura interpretativa do Brasil e seus percalços com relação ao desenvolvimento.

 

Fernando Henrique Cardoso

 

 

 

Releitura

Assim, uma parte da esquerda intelectual que se encontrava entre os muros da academia se voltou para questões consideradas de primeira ordem naquele momento. Essas questões não se referiam apenas a uma nova leitura do fenômeno do “atraso brasileiro”, mas também a uma releitura de alguns trabalhos de Karl Marx como forma de adoção de uma observação diferenciada tanto sobre sua obra quanto sobre os fenômenos sociais, políticos e econômicos que se davam em âmbito mundial com a derrocada do regime comunista na União Soviética. “O movimento que estes intelectuais (…) estavam fazendo em direção ao marxismo visava um enfoque que levasse em conta a especificidade dos países ‘em situação de subdesenvolvimento’, sem desconsiderar, porém, a análise do processo capitalista em geral” (Lahuerta, 2005, p. 169). Tratava-se de uma nova interpretação sobre o Brasil, porém de uma perspectiva que pudesse compreender sua posição em relação aos outros países do mundo.

 

Confira a entrevista com um sociólogo sobre o marxismo

O foco das análises ia em direção aos descompassos do modo de desenvolvimento capitalista nacional e seu percurso. O percurso brasileiro de desenvolvimento era visto sob a perspectiva do atraso e suas raízes sempre relacionadas à herança do regime colonial e ao passado escravocrata. Através do marxismo acadêmico, pretendia-se a inserção da dialética na análise sobre as questões nacionais, de modo que pudessem ser levados em consideração os antagonismos presentes nas diferentes sociedades subdesenvolvidas e, além disso, as peculiaridades relativas às diferentes sociedades nacionais e seus atores. Aqueles atores intelectuais buscavam se afastar das análises que levavam em conta a perspectiva da totalidade – categoria conceitual explicativa tão cara à época – apenas a partir de um eixo metodológico estrutural funcionalista, que inseria a dinâmica do movimento dialético em uma estrutura estacionária sem possibilidade de poder explicativo a partir dos antagonismos e paradoxos da realidade nacional.
Fugia-se de análises de cunho estrutural-funcionalista, muito utilizadas enquanto linhas metodológicas através de teorias como as de Parsons e Merton. Tratava-se de uma revisão sobre “as formas de utilização” das obras de Marx.

 

O renomado sociólogo e político brasileiro Florestan Fernandes era o chefe interino da cadeira I de Sociologia da Universidade de São Paulo

 

Antes do Seminário, Marx havia sido interpretado de forma diferente no Brasil. Tratava-se mais de teoria como forma de aprendizado para a ação prática do que de reflexões teórico-filosóficas utilizadas como instrumental de interpretação da realidade. Tratava-se de outra etapa do marxismo aqui. O grupo iniciou uma nova fase de interpretação da obra, influenciada inclusive pelo método de leitura que se fazia. “Esse marxismo acadêmico (…) foi atravessado por diversas linhas interpretativas, como a sociologia compreensiva. Em outras palavras, uma abordagem analítica dos fenômenos sociais, tendo como parâmetro um referencial histórico-estrutural ao lado de uma referência sobre a subjetividade (consciência social)” (Silva, 2003, p. 109).
Este artigo foi publicado com algumas alterações na Revista Florestan – UFSCar e nos Anais do V Colóquio Internacional Marx e os Marxismos, promovido em 2013 pelo Lemarx – Cenedic – USP. O trabalho é parte das investigações que vêm sendo desenvolvidas com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), processo nº 2014/10284-9.

 

 

Adaptado do texto “O Seminário do Capital: marxismo e ciência”

Fotos: Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 63