Masculinidade hegemônica e representatividade

A representatividade importa? No poder público,a representação pode se refletir em dominação ou diversidade. E as decisões de governantes podem reproduzir ou romper com a hegemonia masculina, branca e hétero-normativa

Por Juliana Vinuto* | Imagem: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Em maio de 2016 o presidente interino Michel Temer nomeou para seu gabinete apenas homens brancos, revertendo a tendência dos últimos governos federais. Muitos analistas criticaram tal atitude, ao indicar problemas de representatividade nos ministérios, pois a ausência de diversidade dentre os ministros escolhidos indicaria que o presidente em exercício compreende as desigualdades de gênero, raça, classe, dentre outras, como algo natural, o que pode ter efeitos nas políticas públicas de enfrentamento a essas desigualdades. Assim, tal ministério não refletiria a diversidade social existente no Brasil.

O presidente interino Michel Temer compôs sua equipe ministerial com homens brancos ligados a setores conservadores da sociedade brasileira | Foto: Beto Barata/Fotos Públicas

Como contraponto, podemos pensar nos ministros escolhidos por Justin Trudeau, eleito primeiro- ministro do Canadá em 2015. Sua decisão despertou a atenção internacional. Uma das primeiras ações de Trudeau foi a nomeação de um governo igualitário no ponto de vista de gênero, tendo 30 ministérios divididos entre 15 homens e 15 mulheres. Mas a questão também foi além da representatividade de gênero, já que as 10 províncias estão representadas dentre os ministérios, além da existência de dois indígenas, uma deficiente visual, um gay, quatro ministros de origem Sikh, dez canadenses muçulmanos e dez canadenses oriundos das Primeiras Nações (etnias nativas que habitavam o território canadense antes da chegada dos europeus). Quando Trudeau foi questionado sobre as razões da escolha mista de seu governo, simplesmente respondeu: “Porque é 2015”. Ou seja, na visão do primeiro-ministro canadense, a representatividade de uma dada sociedade deve estar evidente a partir de seus governantes.

 

É esse o contexto que inspira este texto. Pensar como a inexistência de mulheres – que são maioria da população e do eleitorado – e outros segmentos da sociedade no governo interino de Michel Temer indica problemas de representatividade, o que pode ser um efeito das masculinidades hegemônicas existentes no Brasil.

 

Justin Trudeau, primeiro-ministro canadense, fez história ao fazer uma nomeação ministerial que levava em conta a diversidade de gênero e étnica | Foto: Wikipedia

 

REPRESENTATIVIDADE IMPORTA?

O termo “representatividade” normalmente é utilizado para indicar quando alguém de um determinado grupo social tem a possibilidade de enxergar outras pessoas parecidas consigo mesmo como referências em determinadas áreas. Um bom exemplo é a luta de alguns setores do movimento negro para colocar pessoas negras em locais de visibilidade. Isso se mostra necessário pois, apesar de mais de 50% da população brasileira se considerar parda ou preta, quando se analisa o conteúdo exposto na mídia negros só aparecem em espaços distantes de instâncias de poder e decisão, como a empregada, o favelado, a mulata do samba, o que reproduz um estereótipo racista. Isso faz com que muitas pessoas negras se sintam inferiores e incapazes de ocupar outro espaços senão os de dominação, já que tais modelos servem como um lembrete simbólico – mas que tem efeitos reais – de que o futuro da pessoa negra está fadado à vida indicada nesses estereótipos.

 

 

 

 

A inexistência de mulheres e representantes de grupos minoritários na política dificulta que as pautas dessas populações sejam ao menos ouvidas | Foto: Shutterstock

Infelizmente, todos os grupos sociais que não se adequam ao padrão dominante sofrem os mesmos constrangimentos nas informações veiculadas na mídia. Quantos filmes já tiveram um personagem gay num espaço de poder? Quantas novelas tiveram personagens indígenas numa situação  fora do espectro da dominação? Quantas revistas expõem informações úteis para a parcela mais pobre da população? Quantos personagens gordos tiveram um caso de amor sem nenhum tipo de piada de mau gosto envolvido? Quando você era criança, em quais heróis negros você se inspirou?

 

Sexualidade e política

Um caso empírico que ajuda a pensar como a representatividade específica no mundo político pode influenciar a vida prática de todos os cidadãos e cidadãs pode ser visto na obrigatoriedade do uso de saia ou vestido em alguns espaços jurídicos, como o Supremo Tribunal Federal (STF). Até o ano 2000, todos os ministros do STF eram homens, e, provavelmente porconta dessa composição, as mulheres que ocupavam esse espaço tinham uma posição mais vulnerável, por exemplo, ao não poder nem ao menos escolher sua própria roupa, já que havia a proibição da entrada de mulheres usando calças. A primeira ministra foi Ellen Gracie. Em seguida, outra ministra do STF, Carmen Lúcia, quebrou esta tradição em uma sessão no ano de 2007.

A ministra Carmen Lúcia quebrou uma tradição do judiciário brasileiro ao entrar no plenário de calças | Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Assim, a inexistência de mulheres, negros, pessoas com deficiência, população LGBT, dentre outros, dificulta que as pautas dessas populações sejam ao menos ouvidas, já que estes têm experiências específicas que não são vivenciadas por outros grupos e, portanto, muitas vezes não as consideram importantes. Assim, a falta de representatividade indica, infelizmente, vulnerabilidade.

 

EFEITOS

 

A falta de representatividade se mantém devido aos vários constrangimentos, e gostaria de discutir um deles em específico, que pode ser uma consequência das masculinidades hegemônicas existentes no Brasil. Acredito que masculinidade hegemônica tem efeitos na falta de representatividade femininanos espaços políticos decisórios, acarretando, por exemplo, no baixo percentual de 28,62% de candidaturas femininas nas eleições de 2014.

 

Masculinidade hegemônica é um conceito pensado por Connel e Messerschmidt, (2013) para analisar as estruturas sociais internas às instituições que fomentam valores reconhecidos como masculinos como forma dominante de pensar o mundo. As autoras não querem dizer que as diferenciações entre o “feminino” e o “masculino” sejam naturais ou fixas, mas que há saberes práticos construídos pelas pessoas que podem determinar o que é “normal” para homens e mulheres, que poderão ser até contraditórios, mas nem por isso menos potentes para a compreensão desse grupo profissional.

 

As relações de gênero são sempre arenas de tensão, mas a existência de um padrão de masculinidade hegemônico fornece, ainda que situacionalmente, uma solução a essas tensões. Assim, não se trata de pensar o conceito como explicativo de uma suposta reprodução social, mas utilizá-lo para evidenciar lutas nas quais as masculinidades não hegemônicas e as diversas formas de feminilidades transitam no espaço na qual o apelo à masculinidade é hegemônico como forma explicativa do mundo.

 

Isso posto, falar de masculinidade não é falar exclusivamente de ações de homens, mas descrever como a dimensão do dever de ser “masculino” afeta e é afetada por práticas dos agentes, homens e mulheres, e garante a contínua subordinação das últimas pelos primeiros: “A masculinidade hegemônica não se assumiu normal num sentido estatístico; apenas uma minoria dos homens talvez a adote. Mas certamente ela é normativa. Ela incorpora a forma mais honrada de ser um homem, ela exige que todos os outros homens se posicionem em relação a ela e legitima ideologicamente a subordinação globalindidas mulheres aos homens” (Connel e Messerschmidt, 2013, p. 245).
Desse modo, a pluralidade de masculinidades hegemônicas devem ser compreendidas contextualmente, ou seja, elas variam histórica, espacial e socialmente, e, mesmo que não correspondam à vida concreta de nenhum homem real, expressam valores, ideais e desejos difundidos socialmente, e aos quais qualquer homem deve se posicionar.

 

Mas gostaria de chamar a atenção para algumas características específicas do que parece ser a masculinidade hegemônica brasileira no âmbito político atualmente, que estaria relacionada à capacidade de controle de si e controle dos outros. Nesse sentido,há um certo consenso em nossa sociedade de que os homens conseguem manipular seus sentimentos de forma mais controlada do que a mulher, que por sua vez seria mais emocional. Assim, reproduz-se o argumento – sem base empírica alguma, nem é necessário lembrar – de que as mulheres são sentimentais, e os homens, racionais.

 

Tal situação tem até um nome conceitual, gaslightling, que se refere à tentativa, normalmente por parte dos homens, de desqualificar a credibilidade das mulheres, ao alegar que suas reclamações e desconfianças são indícios de psicose, descontrole emocional ou falta de senso de realidade. Essa suposta falta de controle emocional indicaria que a forte sensibilidade feminina obstruiria naturalmente a realização de um trabalho eficiente no âmbito político, lócus eminentemente racional. Tal descontrole teria na tensão pré-menstrual (TPM) sua explicação “biológica”, sendo uma forma de desqualificação do trabalho feminino.

Gaslightling se refere à tentativa, normalmente por parte dos homens, de desqualificar a credibilidade das mulheres, ao alegar que suas reclamações e desconfianças são indícios de psicose, descontrole emocional ou falta de senso de realidade. | Foto: Shutterstock

Assim, os discursos alinhados à masculinidade hegemônica no âmbito político se constroem na maior parte das vezes se colocando como racionais, em detrimento dos discursos emocionais das mulheres. Haveria, portanto, uma manipulação das emoções mais eficientes por parte dos homens. Por isso é importante compreender esse suposto controle emocional atribuído aos homens.

 

A partir de uma análise sócio-histórica de longo prazo, Norbert Elias (1993; 1994; 2001) argumenta que houve um movimento de organização das sociedades ocidentais sob a forma de Estados, concomitantemente ao adestramento dos modos de conduta e expressão de sentimentos. O autor revela ligações entre a mudança a longo prazo nas estruturas da personalidade, com a consolidação e diferenciação dos controles emocionais, e as mudanças na estrutura política e social de um dado território.

 

Assim, alinhando-se à tese de formação do Estado a partir de sua busca pelo monopólio da violência considerada legítima, Elias argumenta que tal processo serve como ponto de intersecção de grande número de conexões sociais, acarretando tanto em mudanças radicais nas instituições quanto nas relações que modelam o indivíduo, a partir do modo de operação de novas exigências e proibições sobre as emoções que devem ser reveladas ou, ao contrário, suprimidas (Elias, 1994). Assim,o processo crescente de centralização da sociedade encontrou sua primeira expressão visível na forma absolutista de governo, que por sua vez acarretou em regras, latentes e manifestas, sobre formas de expressão de sentimentos e de características pessoais consideradas adequadas.

 

Como afirma Elias: “A estabilidade peculiar do aparato de autocontrole mental que emerge como traço decisivo, embutido nos hábitos de todo o ser humano ‘civilizado’, mantém a relação mais estreita possível com a monopolização da força física e a crescente estabilidade dos órgãos centrais da sociedade. Só com a formação desse tipo relativamente estável de monopólios é que as sociedades adquirem realmente essas características, em decorrência das quais os indivíduos que as compõem sintonizam-se, desde a infância, com um padrão altamente regulado e diferenciado de autocontrole” (Elias, 1993, p.197).
Assim, mostra-se relevante considerar que emoções não são apenas estados internos ao indivíduo, mas trata-se de um fenômeno social que é relativo a outro, causadas por interações em determinados contextos e situações, sendo marcadas “como manifestações não espontâneas e da mais perfeita obrigação” (Mauss, 1979, p. 147). Nesse sentido, as emoções podem articular diferentes instâncias, como por exemplo experiências de sofrimento e engajamentos políticos (Álvarez, 2011; Araújo, 2014; Araújo,
2015; Farias, 2014).

 

EMOÇÕES GENERIFICADAS

 

Se as emoções são construídas a partir de interações, é possível dizer que elas não são completamente fluidas e descontroladas. Arlie Hochschild (2003) argumenta que as emoções são governadas por regras sociais que determinam a intensidade com que ela deve ser sentida, a situação a que deve ser dirigida e a duração do sentimento. Assim, segundo a autora: “Nós ativamente tentamos administrar o que sentimos de acordo com regras latentes” (Hochschild, 1979, p. 571).
A partir desse pressuposto Hochschild constrói o conceito de trabalho das emoções, afirmando que se trata de um processo que ocorre principalmente no ambiente de trabalho, no qual as pessoas administram suas emoções a partir do que consideram ser adequado numa determinada situação, a partir de referências de um padrão de sentimento ideal construído na interação social, e as manuseiam
para adequá-las a essa expectativa.

 

Hochschild afirma que o trabalho emocional usualmente ocorre em funções que dependem de um contato com o público, sendo que o trabalhador se vê obrigado a produzir um estado emocional tanto em si mesmo como em terceiros. Isso indica que o empregador pode exercer algum controle sobre a atividade emocional do empregado, principalmente a partir de treinamento e supervisão. Assim, não se trata apenas dos sentimentos que o indivíduo se vê obrigado a mostrar aos outros, mas também de sentimentos que esse indivíduo julga importante sentir, e se organiza para sentir determinados afetos ou, ao contrário, suprimi-los. É por isso que Hochschild afirma que a administração institucional das emoções é uma expropriação do indivíduo no contexto capitalista, já que um dos principais objetivos do trabalho emocional é aumentar os lucros do empregador.

 

Nesse contexto, Hochschild discorre que as regras latentes de sentimentos vinculam-se aos papéis sociais, ou seja, aos comportamentos esperados para os diferentes tipos de indivíduos na sociedade. Por isso, o trabalho das emoções mostra-se mais evidente entre dominados do que entre os dominantes e, portanto, em uma perspectiva de gênero, o trabalho das emoções é mais intenso entre as mulheres do que entre os homens. Evidentemente, tais regras latentes de sentimentos variam em diferentes épocas e locais. Inclusive, a autora afirma que mudanças nas regras de sentimentos, ou seja, no que é considerado adequado sentir em uma determinada época, podem indicar mudanças estruturais na sociedade. Assim, a avaliação sobre as convenções de qual sentimento sentir em cada contexto da vida leva em conta a situação, mas também considera o que a pessoa sente, o que ela pensa estar sentindo e o que faz sobre o que sente.

 

Anna Bárbara Araujo (2015) realiza uma discussão com Hochschild e, apesar de concordar com seus achados, opta por utilizar a categoria “demandas morais e emocionais do trabalho” por acreditar que este destaca mais adequadamente o caráter simultâneo de imposição e de prescrição pelo qual emoções e moralidades são organizadas e tornadas parte do trabalho. Em sua pesquisa de campo, que aborda o trabalho das cuidadoras de idosos que têm seus serviços agenciados por uma empresa, a autora discute como o amor e o cuidado aparecem enquanto demanda moral e emocional no trabalho das cuidadoras, o que é informado pela naturalização das diferenças entre os gêneros e seus papéis sociais.

As mulheres lutam para que efetivamente exerçam seus direitos individuais e políticos | Foto: Shutterstock

Em suma, o que Hochschild afirma é que, ao contrário do que é difundido no senso comum, as mulheres se sentem na obrigação de controlar seus sentimentos de forma muito mais potente do que os homens e, portanto, têm total capacidade de se alinhar aos discursos da racionalidade, que usualmente é pensada apenas como atributo masculino.

 

Mas então permanece uma pergunta: por que as mulheres permanecem tendo a imagem de descontroladas e sentimentais? Aqui é importante lembrar que, segundo Connell e Messerschmidt (2013), a masculinidade hegemônica não produz apenas violência, agressão e egocentrismo, dentre outros malefícios, já que isso não implicaria em hegemonia, mas apenas dominação. Nesse sentido, me parece que a masculinidade hegemônica nos espaços políticos produz, como consequência vista como positiva pelos atores inseridos nessa esfera, a segregação desse espaço às mulheres. Assim, as mulheres continuam enfrentando inúmeros desafios para se candidatar a um cargo público, mas aparentemente por decorrência de sua inabilidade natural a se colocar nesse espaço.

 

 

Juliana Vinuto é graduada em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).