Música negra e racismo nos EUA

Dos primórdios da segregação aos dias de hoje

Por Davi da Rosa Ramos* | Adaptação web Caroline Svitras

Em junho de 2016, durante o intervalo da final do campeonato de futebol americano, chamado por lá de Super Bowl, a cantora negra Beyoncé apresentou um número em que fazia duras críticas ao racismo e à segregação racial nos Estados Unidos, com referências, inclusive, ao movimento Black Panthers (Panteras Negras). Em linhas gerais, Black Panthers foi um movimento surgido na década de 60 do último século, na cidade de Oakland, Califórnia, com o intuito de proteger o cidadão negro da violência policial.

 

No ano em que Beyoncé apresentou esse número na final do Super Bowl, diversos casos de violência policial contra os negros foram registrados nos Estados Unidos. O caso que gerou uma primeira onda de protesto contra o racismo e contra a violência policial ocorreu na cidade de Ferguson no estado de Missouri, dois anos antes, em 2014. O jovem negro Michael Brown foi assassinado à queima-roupa pela polícia de Ferguson. O caso gerou uma grande revolta na população negra e provocou uma série de protestos em todo o território americano, alguns desses protestos, inclusive, terminaram em mais mortes de jovens negros.

 

Para se ter uma ideia de como o racismo é um problema histórico nos Estados Unidos, já se vão 48 anos em que o guitarrista negro Jimi Hendrix apresentou-se no antológico festival de Woodstock, onde tocou uma “versão protesto” do hino norte-americano. Hendrix o executou com primazia em sua Fender Stratocaster e, no meio da melodia, fez o instrumento emitir o som das bombas caindo no Vietnã – o país era palco de uma guerra absolutamente impopular e que estava matando majoritariamente jovens negros e brancos pobres.

 

Um ano antes, em 1968, ocorreu outro fenômeno envolvendo o hino americano e a luta contra o racismo. Nas Olimpíadas do México, os atletas negros, medalhistas dos 200 metros rasos, Tommie Smith e John Carlos se recusaram a cantar o hino dos EUA e, no momento de sua execução, fizeram o gesto tradicional dos Black Panthers.

 

Desde Tommie Smith a Beyoncé, esses casos revelam aspectos fundamentais na compreensão da complexa trama que compõe o tecido social norte-americano dos últimos anos.

 

Pode se dizer que a eleição em 2016 do conservador republicano Donald Trump, por exemplo, seja um desdobramento disso. Uma das principais ideias defendidas em sua campanha presidencial foi a construção de um muro separando México e Estados Unidos. Nota-se que há um intervalo de 48-49 anos entre os sujeitos históricos: Tommie Smith, John Carlos, Hendrix, e Beyoncé e Donald Trump, ou seja, o racismo revela-se por lá como parte fundamental do nascimento, formação e desenvolvimento daquele país.

 

A música de raiz afro-americana, desde os primórdios até hoje, sempre atuou como expressão cultural de resistência dos negros vítimas do racismo. Apesar disso, se faz necessário lembrar que a música negra e suas vertentes são hoje um negócio multimilionário. Para se ter uma ideia das cifras que giram em torno da música e do entretenimento nos Estados Unidos: no Super Bowl, que é um dos eventos de maior audiência na TV, a empresa NBC, detentora dos direitos de transmissão dos jogos, cobrou 5 milhões de dólares por 30 segundos de propaganda no half time show de Beyoncé. O pesado tom crítico da apresentação da cantora nessa oportunidade prova que mesmo com números tão elevados ainda há espaço na indústria da música para uma arte engajada de tom altamente crítico. Vale ressaltar que na música negra dos Estados Unidos esse elemento contestatório nunca deixou de existir.

 

Levando-se em consideração os fatos apresentados, vamos abordar o nascimento da música negra nos Estados Unidos, sua importância para a afirmação da identidade dos negros na luta histórica contra o preconceito racial, bem como sua consolidação como um lucrativo negócio, sem, no entanto, perder o tom crítico ao domínio hegemônico do branco na chamada sociedade W.A.S.P. Para construir nossa análise, vamos recorrer a três importantes períodos da sociedade estadunidense: o histórico de escravidão, a Guerra de Secessão, e o posterior desenvolvimento do capitalismo naquele território. Vamos verificar qual foi o papel desempenhado pela música negra nesses três processos, visando também compreender, através desse panorama social-histórico, o papel da música negra como uma importante forma de protesto nos dias de hoje.

 

O nascimento do jazz e do blues

O jazz e o blues podem ser apontados como sendo a matriz musical mais influente na música popular dos séculos XX e XXI. Isso significa dizer que alguns dos principais ritmos musicais que se ouvem, e que, portanto, se vendem hoje, tais como rap, rock, R&B, soul, gospel, só para citar alguns poucos, sofreram influência ou do jazz ou do blues, ou de ambos. Estamos falando de dois ritmos populares de origem negra e escrava e que se desenvolveram basicamente no final do século XIX. Aliás, podemos nos perguntar: o jazz e o blues não existiam antes de 1890? Provavelmente sim, mas nunca saberemos ao certo. Isso se explica por duas razões: não há gravações registradas antes de 1876 nem tampouco há partituras do jazz que era tocado nos cabarés nesse período, mesmo porque os primeiros músicos de jazz eram autodidatas, logo não sabiam ler partituras.

 

O inglês Eric Hobsbawm foi um dos primeiro intelectuais a estudar, com afinco e profundidade, o nascimento e o desenvolvimento do jazz nos Estados Unidos em seu livro de 1959: A história social do jazz. Nessa obra, Hobsbawn constrói uma análise sobre o jazz sob o ponto de vista de seu desenvolvimento social. Para isso ele dividiu o jazz em três grandes períodos: 1900-1917, 1917-1929, 1929-1941. Essa divisão nos ajudará a entender um pouco mais sobre o início da música de tradição afro-americana. Logo, vamos nesse momento centrar nossa análise na chamada primeira fase do jazz (1900-1917), que “é quando o jazz se tornou a linguagem musical da música popular em toda a América do Norte”.

 

Os Estados Unidos, do ponto de vista histórico e social, vivenciavam os anos posteriores à problemática inserção do negro na sociedade de classes. Isso se deu depois de uma guerra sangrenta que dividiu o país e que culminou efetivamente no fim da escravidão em todo o território. O início do jazz e do blues, portanto, remete a esse período. É importante ressaltar que o fim da escravidão fez nascer um novo nicho de mercado no universo do entretenimento, visto que os negros, agora na condição de assalariados, passavam a ter poder aquisitivo para consumir. Em outras palavras, o negro estava livre para fazer e consumir o seu próprio entretenimento.

 

Imagem da “Original Dixieland Jazz Band”, que entrou para a história como a primeira banda a fazer uma gravação desse ritmo musical

 

A emancipação dos escravos e a imigração para o norte produziram um proletariado negro, tecnicamente livre para escolher seu próprio entretenimento. Basta uma olhada nos números indicativos da população urbana negra em 1900 – 87 mil em Washington D.C., 78 mil em Nova Orleans, 61 mil em Nova York e Filadélfia, 79 mil em Baltimore e de 30-50 mil em várias outras cidades – para concluir que eles já compunham um público modesto.

 

Todavia, é importante lembrar que os elementos estilísticos do jazz no início do século XX haviam sido estabelecidos durante o longo período de escravidão dos negros no sul, principalmente nos estados de Alabama, Carolina do Sul, Flórida, Geórgia, Mississipi e Luisiana. Dessa época, não apenas o jazz, mas também o blues se desenvolveu, em parte, a partir das chamadas work songs (canções de trabalho), que são efetivamente vocalizações melódicas trazidas da África e cantadas com frequência no duríssimo trabalho de colheita do algodão, bem como os cantos de lamento conhecidos como hollers (chamado ou grito), um tipo de canto comum no blues conhecido como “canto de pergunta e resposta”; ambos eram entoados pelos escravos durante os intermináveis e tortuosos dias na colheita.

 

 

A música africana razoavelmente pura sobreviveu, nos Estados Unidos, em parte como música ritual, pagã e mais ou menos cristianizada, e em expressões como canções de trabalho (works songs) e hollers. No estado de Luisiana, essa música era até certo ponto oficialmente engajada, como uma espécie de válvula de escape para os escravos, talvez na mesma medida em que as danças tribais são hoje incentivadas pelas autoridades africanas.

 

Nesse trecho, Hobsbawn nos ajuda a confirmar algumas conclusões importantes sobre as origens da música negra em território americano. Primeiro: o jazz e o blues têm suas origens no tráfico de escravos e no trabalho escravo (work songs e hollers). Segundo: o fim da escravidão fez nascer um incipiente e promissor mercado de entretenimentos voltado agora aos negros e aos brancos pobres. Terceiro: a música afro-americana nasceu efetivamente como música de protesto.

 

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*Davi da Rosa Ramos é bacharel e licenciado em História pela PUC-SP e especialista em História, Cinema e Audiovisual também pela PUC-SP. Autor do livro didático Caminhos da Sociologia, pela Editora Escala. Atua como professor de História e Sociologia na rede particular e cursinho pré-vestibular desde 2007. É responsável pelo conteúdo do site de ciências humana.  fazendohistoriasite.wordpress.com

Fotos retiradas da revista.