Nietzsche em Oswald de Andrade

Os pontos de contato e discordância entre as concepções de Friedrich Nietzsche e Oswald de Andrade sobre o papel ideológico que o cristianismo/messianismo desempenhou na história

Por Yago Eusébio Junho* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Gilberto Felisberto Vasconcellos referiu-se certa vez a Luís da Câmara Cascudo como filósofo do povo. Não é descabido utilizar o mesmo epíteto para Oswald de Andrade. Principalmente se levarmos em conta os brilhantes ensaios A Crise da Filosofia Messiânica e A Marcha das Utopias. O ponto central da obra de Oswald reside na busca pela autonomia do pensamento brasileiro. Oswald tinha paixão pelo Brasil. O nacionalismo estava embutido nas reflexões teóricas que realizou. Pau-Brasil e Antropofagia são conceitos fundamentais para o entendimento do processo de formação e desenvolvimento cultural e sentimental do nosso país. Ao contrário da maioria da fortuna crítica, Oswald de Andrade não foi um chutador, um ensaísta superficial ou meramente um piadista. Pelo contrário, a construção filosófica que empreende é extremamente apurada e profunda. Em sua visão, a história da humanidade pode ser dividida em dois hemisférios culturais: o Matriarcado e o Patriarcado. O Matriarcado corresponde ao sistema cultural dos povos primitivos e está assentado sob uma base tripla: propriedade comum do solo, filho de direito materno e Estado sem classe. O Patriarcado, representando uma ruptura histórica, aparece quando uma classe passa a dominar as demais. Instaura-se o direito de herança patrilinear, surge a propriedade privada e o Estado como representação de uma classe.

 

Do esquema citado deriva a dialética fundamental do homem brasileiro para o escritor modernista: 1º termo: tese – o homem natural; 2º termo: antítese – o homem civilizado; 3º termo: síntese – o homem natural tecnizado.

 

Enfocando o segundo termo da equação dialética, Oswald de Andrade destaca o nosso estado de negatividade, pois o homem civilizado é cristão, servo de uma ideologia que renega a vida. A passagem do Matriarcado para o Patriarcado corresponde a um período de escravização do homem. É uma época de avanços técnicos incríveis e consequentemente de desenvolvimento econômico. Porém, para um sistema se manter, é necessário todo um aparato ideológico que o justifique. E o justificador do Patriarcado foi o cristianismo e sua filosofia messiânica, cujo artífice é o sacerdote. Na proposição de que o homem deve temer a Deus, pois só assim atingirá o reino do céu, a Igreja deslocou a luta do homem no aqui e agora para o além. É o espírito da servidão. “A história do sacerdócio caracteriza-se como fonte do que Friedrich Nietzsche havia de chamar a ‘Moral de Escravos’” (ANDRADE, 1972, p. 81).

 

O ponto central da obra de Oswald de Andrade enfoca, segundo termo da equação dialética, uma ideologia que renega a vida

Oswald assinala a importância do messianismo para a história do Patriarcado. “Sem a ideia de uma vida futura, seria difícil ao homem suportar a sua condição de escravo” (ANDRADE, 1972, p.81). A partir de então, o sacerdote apresenta-se como o juiz dos destinos humanos. A vida passa a ser contenção, comedimento. Se não podemos realizar os desejos neste mundo, pelo nosso comportamento e obediência, dentro da moral cristã, atingiremos o reino do céu. A transcendência libertadora. O homem vive e se realiza no trabalho.

 

O cristianismo, para o antropófago modernista, com suas cartilhas – os Evangelhos – nada mais é do que um manual de como se viver no e para o trabalho. Irônico, diz que: “Cristo é o primeiro deus trabalhador” (ANDRADE, 1972, p.83). A filosofia cristã surge ante o maior conglomerado proletário da antiguidade: Roma. “Sem Roma, Cristo não teria ocupado por 20 séculos os cimos messiânicos do Patriarcado” (ANDRADE, 1972, p.84).

 

Com relação ao trabalho nietzschiano, podemos defini-lo como uma profunda reflexão sobre como tornar o homem livre, humano, com vontade inabalável de viver. Na sua Genealogia da Moral essa investigação é levada a cabo pela história dos nossos valores morais, tais como: bom, ruim, bem e mal. Além disso, analisa uma das instituições mais poderosas surgidas na face da terra: o sacerdócio.

 

Aristocracia X plebe

Os valores “bom” e “ruim” são produtos das concepções sociais da aristocracia. Daí essa elite se apropriar de tudo à sua volta, de modo que aquilo que se relaciona com o modo de vida aristocrático era determinado como bom. Festas, jogos e guerras eram coisas boas, afirmadoras da vida. Nasce assim uma moral ativa, realizadora, dando vazão à força, ao poder, à dominação.

 

A nova forma de desigualdade

 

Em contraposição, do lado plebeu surge o ressentimento. Não podendo participar das práticas aristocráticas, os plebeus desenvolvem uma moral contrária àqueles valores. Tudo o que é nobre passa a ser sinônimo de ruim. Essa moral não tem como ponto de partida a ação e, sim, a reação. Reação às festas, aos jogos e às guerras. Moral negativa. Impotente. Regada a ódio.

 

Justamente dessa moral de escravo que o sacerdócio vai rebanhar a sua fundamentação. A consequência do predomínio político por parte dos sacerdotes é o domínio espiritual. “A rebelião escrava da moral começa quando o próprio ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação” (NIETZSCHE, 1987, p.34). O nascimento dessa moral exige um mundo exterior no qual reage.

 

Nietzsche faz uma investigação dos nossos valores morais, tais como: bom, ruim, bem e mal que, segundo ele, são produtos das concepções sociais da aristocracia. Festas, jogos e guerras eram coisas boas

 

À afirmação da vida sobrepõe-se a impotência. A negação da existência. A fraqueza domina o ser humano. Na luta Roma versus Judeia, esta última levou vantagem. “De Sócrates sai o esquema do perfeito boneco humano, longamente exaltado pelas classes dominadoras, a fim de conservar, domado e satisfeito, o escravo. É o ‘piedoso’, o ‘justo’, o ‘continente’, o ‘prudente’. Nele, refulgem as virtudes do rebanho, como definiu Friedrich Nietzsche. Nele, reside o fundo catequista de todas as covardias sociais e humanas” (ANDRADE, 1972, p.93).

 

Após o apogeu da dominação sacerdotal na Idade Média, o messianismo sofre o primeiro abalo em suas bases com a Renascença. O homem descobre que tem um corpo e uma razão. Com Lutero, o messianismo é secularizado. Cai a máscara sagrada do sacerdócio com o questionamento do celibato. Agora, para se chegar a Deus, não é necessário um mediador. O ócio dá lugar ao negócio. “É no fiado que o mundo se transforma. O crédito baixa à terra, descido das promessas de uma sobrevivência inútil como um bocejo eterno” (ANDRADE, 1972, p. 108).

 

Condições de trabalho no Brasil

 

O que está em jogo, nesse momento, é a eleição divina, cujo sinal é a prosperidade. O homem estabelece um contrato com Deus. E Oswald salienta que a exploração do proletariado é mascarada, pois acumular é sinal de benção divina. A preocupação com a vida futura não é abolida, mas redimensionada.

 

Dialética e moral cristã
Sem poder participar das práticas aristocráticas, os plebeus desenvolvem uma moral contrária regada de ódio às festas, aos jogos e às guerras

Outro ponto fundamental em Nietzsche é sua concepção sobre a dialética. “Em Nietzsche, a relação essencial de uma força com outra nunca é concebida como um elemento negativo na essência. Em sua relação com outra, a força que se faz obedecer não nega à outra ou aquilo que ela não é, ela afirma sua própria diferença e se regozija com esta diferença” (DELEUZE, 1976, p.7). Não é a negatividade que extrai sua força no momento de agir sobre alguma coisa – o que vale dizer que, para o filósofo alemão, a dialética equivale à moral cristã, ou seja, ao ressentimento.

 

Oswald distancia-se de Nietzsche com relação à concepção dialética. Dialética no Brasil é antropofágica, ou seja, um movimento que revoluciona o nosso meio social. Só a antropofagia é capaz de nos unificar social, econômica e filosoficamente. Não deixa de ser esquisito a um autor marxista fundamentar sua visão de mundo em um ritual espiritual indígena.

 

A questão central da antropofagia é a travessia do tabu ao totem. A utopia da autonomia cultural e política de nosso país passa pela devoração. O destino do Brasil é o Matriarcado. É a síntese da equação dialética de Oswald, onde surgirá o homem natural tecnizado, talvez a única possibilidade de nos mantermos como povo e como nação. A floresta aqui não é apenas portadora de doenças tropicais. Entre nós assume função gnosiológica no entendimento da totalidade cultural brasileira.

 

O camarote e realidade social

 

Da Contrarreforma, o escritor de Miramar quer o aspecto plástico. Não escapa à sua arguta percepção o fato de que nosso patriarcalismo advém da combinação do traço messiânico dos jesuítas somado ao burocratismo das ordenações portuguesas. Daí o caráter machista, reacionário e conservador que norteia a cultura brasileira, cujo corolário é o ódio de classe e o desprezo de nossas elites pelo povo. Essa concepção dialética da Contrarreforma, que ao mesmo tempo gera dominação e a possibilidade de transformação social, é a base da visão filosófica oswaldiana. No Brasil, política e religiosidade se misturam. Aliás, é impensável qualquer transformação social por essas paragens sem essas duas vertentes. Daí a dialética antropofágica oswaldiana incorporar o caráter sociomístico da cultura brasileira.

 

Sob o signo da utopia que Oswald concebe o Matriarcado de Pindorama. O homem natural tecnizado é a realização plena das potencialidades do homem tropical. No Brasil, a dialética é antropofágica. Pela devoração do desenvolvimento técnico da Era Patriarcal, e das premissas societárias do homem natural, o brasileiro tomará sua história em suas próprias mãos. O bárbaro tecnizado representa a oposição ao homem vestido, dominador, especialista em apropriação de mais-valia. É o fim de todas as repressões que infelicitam o homem. “Numa sociedade, onde a figura do pai se tenha substituído pela da sociedade, tudo tende a mudar. Desaparece a hostilidade contra o pai individual que traz em si a marca natural do arbítrio. No Matriarcado é o senso do superego tribal que se instala na formação da adolescência”. (ANDRADE, 1972, p.125).

 

 

Cabe assinalar também o seguinte: com este esquema, Oswald supera a dicotomia entre natureza e cultura. Ambas andam juntas no roteiro “terceiro-mundista” da descolonização. Ao pai castrador e careta segue a mãe terna e lúdica, pois potencializará ao máximo a plasticidade sincrética da cultura brasileira. A afirmação da vida, a ação ativa, no Brasil, será obra da passagem dialética ao Matriarcado, onde o negócio será substituído pelo ócio.

 

Conservadorismo no Brasil

 

No seu livro de orfandade Um homem sem profissão – sob as ordens de mamãe, Oswald de Andrade confessa que foi criado dentro de uma atmosfera onde a vida humana na Terra nada mais era do que uma passagem. Quando Deus quisesse, iria associar a corte dos anjos e santos. E ainda relembra que, mesmo tendo da Igreja a pior impressão, sempre cultivou um enorme sentimento religioso. A isso deu o nome de sentimento órfico. “Penso que é uma dimensão do homem. Que ninguém foge e não se conhece tribo indígena ou povo civilizado que não pague este tributo ao mundo subterrâneo em que mergulha” (ANDRADE, 1990, p.56).

 

Religião e libertação

Régis Debray, em Manifestos Midiológicos, perguntava se a religião era o ópio do povo ou vitamina para o fraco. O oswaldiano cineasta Glauber Rocha em A Idade da Terra mostrou que a única coisa que o imperialismo teme é Cristo. O mito fundamental no Brasil é Cristo. “O que ele fez foi tirar o povo brasileiro da cruz masoquista. Se a imaginação é verdadeira, então a imagem da libertação política está em Cristo. Um Cristo Terceiro Mundo que não morre na cruz” (VASCONCELLOS, 2001, p. 16).

 

Complicado no Brasil é levar a ferro e fogo a interpretação nietzschiana sobre o caráter de rebanho inerente à manifestação religiosa e seu consequente messianismo. Oswald captou de uma forma muito arguta esse dado. O Brasil é impensável sem levar em conta o sentimento órfico.

 

A combinação do traço messiânico dos jesuítas somado ao burocratismo das ordenações portuguesas justi caria o caráter machista, reacionário e conservador que norteia a cultura brasileira

 

No idílico O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro argumenta que o grande desafio que nosso país enfrenta é justamente organizar as energias dos marginalizados pelo nosso processo histórico e orientá-las politicamente com o objetivo de alcançarmos nossa libertação. A argamassa que poderá soldar esses imensos Brasis para tal fim é o sentimento órfico. Exemplo dessa potencialidade foi Canudos, um dos movimentos mais revolucionários de nossa história. Antônio Conselheiro soube como ninguém canalizar esse sentimento na luta social contra a miséria do sertanejo.

 

Oswald de Andrade desceu até as profundezas psicológicas do povo brasileiro. Não é fortuito o aparecimento entre nós de um livro como Geografia dos Mitos Brasileiros de Luís da Câmara Cascudo. Como também não é por acaso que o Movimento Modernista de 1922 produziu um pai de santo – Raul Bopp, cujo folclore, em sua manifestação mística, assume o primeiro plano de sua obra. Nela recolhemos o seguinte poema: Geografia do mal-assombrado – “Somos um Brasil fora das medidas, /de contornos fortes, com alma compósita, sem demarcações étnicas / com um largo quadro de solecismos sociais. / Temos uma geografia do mal-assombrado, de mandinga e mato, / com puçangas e banhos de cheiro. / De noite na fazenda / ouvem-se as queixas do monjolo: batepilão…” (MASSI, 1998, p. 310).

 

Desconhecer essas características é desconhecer a sociedade brasileira. No Brasil, a Genealogia do Matriarcado de Oswald de Andrade é mais revolucionária que a de Nietzsche.

 

*Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora e professor de Sociologia, Antropologia e Metodologia de Pesquisa da FAI – Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação em Santa Rita do Sapucaí (MG).

Adaptado do texto “Genealogia do Matriarcado de Pindorama”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 36