Novas tecnologias e mudanças do trabalho

O surgimento de tecnologias da informação, da informática e da telemática provocou uma verdadeira revolução nos processos produtivos e organizacionais das empresas

Por Cleito Pereira dos Santos* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Nas últimas décadas, o mundo do trabalho passou por transformações significativas. Desde a década de 1970, o capitalismo mundial desenvolveu de forma intensa os mecanismos tecnológicos aplicados pelas empresas, visando à racionalização dos processos produtivos e à redução dos custos das mercadorias produzidas pela força de trabalho assalariada.

 

A introdução de tecnologia de base microeletrônica tem como objetivo a adaptação do aparelho produtivo à realidade dos mercados, cada vez mais instáveis e competitivos. Estas tecnologias vêm sendo introduzidas paulatinamente na indústria e nos serviços como uma das expressões da reestruturação produtiva e industrial que ocorre em escala mundial.

 

As inovações tecnológicas e os meios informáticos utilizados no trabalho configuram um novo quadro na história do capitalismo. As funções, antes desenvolvidas manualmente, são objetivadas e incorporadas pela máquina, essencialmente o computador. Embora desde a primeira revolução industrial ocorra o processo de utilização das tecnologias e das técnicas produtivas, no estágio atual tal processo é radicalizado. Parte das funções reflexivas, abstratas do trabalhador é executada pelos novos mecanismos tecnológicos, inaugurando aquilo que o sociólogo Jean Lojkine (2002) define como revolução informacional.

 

Para o cientista social Dan Schiller (2002), um amplo movimento de mudanças nas telecomunicações passou a ser liderado pelos Estados Unidos a partir dos anos 1960. A existência de um projeto neoliberal nas telecomunicações está relacionada à produção transnacionalizada. O capitalismo digital rompeu as barreiras e os constrangimentos impostos à formação da rede econômica apoiada nas grandes corporações empresariais.

 

Paulatinamente, forma-se uma arquitetura tecnológica baseada na rede de computadores, colocando à disposição das empresas um amplo e variado leque de informações – engenharia de produtos, programas de produção, contabilidade, publicidade, finanças, formação, controles sobre o trabalho e gestão do processo de trabalho – que interligou as empresas em tempo real e em escala global. É nesse sentido que devemos compreender a afirmação de Schiller (2002, p. 34) ao analisar as tecnologias de informação e da comunicação e a expansão ocorrida nos anos 1980: “As maiores empresas de todos os ramos de actividade económica procuravam construir redes integradas de computadores para gestão das actividades nucleares de produção, distribuição, marketing e administração”.

 

 

Como consequência deste processo, o uso da tecnologia passa a ser orientado por princípios neoliberais focados na integração das empresas transnacionais por meio da construção e consolidação de uma estrutura produtiva assentada na rede mundial de computadores, da comunicação e informação integradas à realização da produção e do comércio internacional. Os impactos fizeram-se sentir rapidamente. A reconfiguração dos espaços produtivos, a gestão empresarial, os controles eletrônicos da produção e dos trabalhadores são estabelecidos de maneira sem precedentes na história do capitalismo.

 

A acumulação de capitais, desde então, passa a contar com amplo e variado espectro de mecanismos tecnológicos integrados à produção de mercadorias. A formação de redes transnacionalizadas e a consolidação do neoliberalismo são duas faces do mesmo processo. O capitalismo contemporâneo pós-1970 associou tecnologias de informação e da comunicação – a rede de computadores é sua face mais espetacular – transnacionalização do capital e neoliberalismo.

 

As novas formas de trabalho

 

 

Na busca por mais lucro

Segundo a socióloga Márcia Leite (1994), a automação microeletrônica está acompanhada da tentativa de substituir o modelo fordista por outro modelo capaz de garantir a lucratividade das empresas. O esgotamento do fordismo como padrão de acumulação hegemônico implica a procura de formas alternativas de garantir as taxas de lucro. A flexibilização produtiva procura adaptar a produção de mercadorias em um mercado instável e competitivo. As novas tecnologias servem ao propósito de expansão capitalista. Portanto, segundo Leite: “a introdução da nova tecnologia microeletrônica, pela difusão de uma grande variedade de equipamentos ligados não só à fabricação de produtos, mas também à transferência de peças e materiais no interior do processo produtivo e à elaboração de projetos, bem como as transformações que vêm ocorrendo na organização do processo de trabalho, testemunham a busca que o capital vem instaurando, no sentido de substituir o modelo fordista de desenvolvimento por outro modelo que dê conta da necessidade de garantir as taxas de lucratividade das empresas. Procura-se, nesse sentido, responder ao conjunto de desafios colocados à acumulação e à lucratividade do capital a partir do final dos anos 1960: diminuição dos ganhos de produtividade, redução do poder de compra dos mercados, elitização do consumo e incremento da competição intercapitalista mundial”. (Leite, 1994, p. 82-3).

 

Revista Sociologia Ed. 35

Adaptado do texto “Novas tecnologias e mudanças do trabalho”

*Cleito Pereira dos Santos é doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiânia (UFG). sociopereira@yahoo.com.br