O apartheid contemporâneo

O período aberto com o fim do apartheid nos ensina que uma autêntica revolução política pode não significar grande coisa para a maioria da população

Por Ruy Braga* | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

As imagens correram o mundo. Uma linha de policiais, muitos deles negros e fortemente armados com submetralhadoras, recua alguns passos e, repentinamente, começa a atirar nos grevistas da empresa Lonmim, cujos corpos tombam às dezenas uns sobre os outros. As imagens da pequena colina em Marikana – um acampamento localizado a uma centena de quilômetros a noroeste de Johannesburg – são absolutamente chocantes e, em sua crueza, revelam uma realidade igualmente escandalosa: mesmo dezoito anos após o fim do odioso regime do Apartheid, a África do Sul ainda vive sob a sombra do assassinato e da prisão de trabalhadores negros.

 

O mais cruel e bizarro dessa situação é que, após massacrar 34 trabalhadores, ferindo gravemente outras tantas dezenas, a polícia prendeu 259 mineiros que foram – pasmem! – acusados pelas mortes de seus próprios companheiros. (Acreditem ou não, uma lei do período do Apartheid ainda permite ao Estado sul-africano processar por assassinato os ativistas que tomarem parte de protestos onde eventualmente aconteçam mortes.)

 

Imediatamente, autoridades governamentais apressaram-se em afirmar que o principal responsável pelo massacre não teria sido nem a polícia nem o governo, mas a Associação dos Trabalhadores Mineiros e da Construção Civil (AMCU), que foi convidada pelos grevistas para participar do processo de negociação como seus representantes sindicais. Formada por dissidentes do todo-poderoso – e governista – Sindicato Nacional dos Trabalhadores Mineiros (NUM), o mais importante sindicato do Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (COSATU), a AMCTU representa um sindicalismo alternativo enraizado nas bases e crítico do governo do Congresso Nacional Africano (ANC), o partido de Nelson Mandela e do atual presidente,  Jacob Zuma.

 

Ao contrário do NUM, que utiliza exclusivamente o inglês em suas publicações e assembleias, a AMCU emprega uma linguagem que mistura vários dialetos sul-africanos, facilitando a comunicação com os trabalhadores iletrados. Além disso, esse sindicato tem denunciado as precárias condições de vida dos mineiros, em especial os trabalhadores imigrantes, cujos alojamentos em nada se diferenciam daqueles encontrados nas áreas mais pobres de Soweto. Aqui, cabe uma observação adicional: basicamente, os grevistas rechaçaram o NUM durante o processo de organização da atual onda grevista por considerarem que este sindicato não representava mais seus interesses.

 

Na realidade, desde o fim do regime do Apartheid, as relações de inúmeros dirigentes do NUM com as empresas mineradoras aprofundaram-se a ponto de, em 1995, o sindicato criar seu próprio fundo de investimento, a Mineworker’s Investment Trust, a fim de aplicar recursos, em especial na outrora lucrativa extração de platina. Dispensável dizer que, desde então, muitos de seus dirigentes e ex-dirigentes, caso de Matamela Cyril Ramaphosa, por exemplo, enriqueceram a ponto de se tornarem acionistas da empresa Lonmim – a mesma empresa onde trabalhava a maioria dos grevistas assassinados em Marikana –, além de altos executivos do Shanduka Group.

 

Autoridades governamentais se empenharam em afirmar que o massacre de Marikana foi um incidente isolado. Para o ministro da Educação, por exemplo, o ex-secretário geral do Partido Comunista Sul-Africano, Blade Nzimande, a escalada de violência nas minas de platina não passa de um confronto motivado pela competição entre duas facções sindicais em situação de litígio permanente. No entanto, esse tipo de interpretação esbarra nos dados reunidos por vários sociólogos, que têm se empenhado em estudar aquilo que na África do Sul já é conhecido como a “Rebelião dos Pobres”. No final de 2011, entre diversos estudos, a equipe do centro de pesquisa Sociedade, Trabalho e Desenvolvimento (SWOP), ligado à Universidade de Witwatersrand, publicou um relatório que mostra diferentes protestos em comunidades de trabalhadores pobres em luta por moradia e contra a violência xenofóbica (Karl von Holdt et al., TheSmoke That Calls: Insurgent Citizenship,  Collective Violence and the Struggle for a Place in the New South Africa, University of Witwatersrand, 2011). Se o Apartheid não está sendo reinventado na África do Sul, como compreender que a desigualdade social medida pelo coeficiente de Gini tenha saltado de 0,66 (1994) para 0,70 (2012) desde 1994?

 

Em síntese, nem toda a propaganda em torno do multiculturalismo sul-africano é capaz de mascarar o fato de que o flagelo do massacre de Sharpeville está presente em Marikana. Ainda que a cor dos policiais que puxaram o gatilho tenha mudado…

 

 

 

*Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP)

Adaptado do texto “A reivindicação do Apartheid”

Foto: Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 43