O corpo na cibercultura

Como um enorme cardume humano a rodopiar nesse incomensurável oceano cibernético, traçamos com leveza e velocidade as nossas rotas de informação, bem como grafamos os nossos próprios traços indeléveis de mais legítima humanidade no gigantesco livro da história do sapiens-sapiens

Por Alexandre Quaresma* | Foto: 123 REF | Adaptação web Caroline Svitras

O corpo humano no interior da cibercultura – e da própria tecnociência – é visto por muitos, contraditoriamente, como um estorvo. Dizemos contraditoriamente, pois se é pretensamente um estorvo – para os que acreditam na transmigração da consciência para o meio cibernético-informacional, upload e download de mentes, e posterior descarte dos corpos –, ainda assim tratar-se-ia de um “estorvo”, mas um que seria, também, o modelo perfeito. Se para os humanistas o ser humano é a medida de tudo, ou como querem os que creem em deuses e deusas, uma criação viva desses, que deve ser protegida e resguardada, para outros é uma “coisa” frágil, incompleta, um objeto – como todos os outros objetos do mundo fenomênico –, que – por isso mesmo – é passível de melhoramento técnico performativo contínuo, pode ser incrementado, potencializado, fazendo com que o corpo em si – assim como o conhecíamos – de certo modo “suma”, seja absorvido e até mesmo – no extremo – superado pelas próprias tecnologias que esse mesmo corpo-cérebro cria e usa indiscriminadamente. Ao passo que os computadores e robôs imitam o cérebro humano, como se esse fosse seccionável da integralidade do todo organísmico, o restante do corpo passa então a significar o resíduo descartável dessas mesmas operações mecanicistas e reducionistas, que – frise-se – pretendem extirpar dele apenas a consciência.

 

Le Breton [apud Quaresma] nos explica que ‘ao desenvolver-se, a tecnociência não cessou de rejeitar a esfera propriamente corporal da condição humana. […] A história do corpo no interior do mundo ocidental escreve-se desde o Renascimento como um empreendimento sempre crescente no espelho tecnocientífico que o distinguiu do homem e o reduziu a uma versão insólita do mecanismo. Quando a dimensão simbólica retira-se do corpo, dele resta apenas um conjunto de engrenagens, um agenciamento técnico de funções substituíveis. O que estrutura então a existência do corpo não é mais a irredutibilidade do sentido, mas a permutabilidade dos elementos e das funções que asseguram seu ordenamento”.

 

O ser cibernético

 

Para David Le Breton, “o mecanicismo dá paradoxalmente ao corpo seus duvidosos títulos de nobreza, sinal incontestável da proveniência dos valores para a modernidade”. “Essa tradição que se estabelece através dos tempos, de pensar os organismos e o próprio universo como meros artefatos matematizáveis, está ligada também [como nos informa Quintanilla apud Quaresma] às influências do pensamento cristão na própria civilização contemporânea, já que ‘a natureza cristã não é a phisys dos gregos, nem a deusa Natura dos romanos senão a criação; e a criação é, de pronto, um enorme artefato’.” Concordamos plenamente também com David Le Breton (2003, p. 103), quando esse escreve que “essa dissolução [simbólica] do sujeito tem graves consequências no plano prático ou moral, porque elimina o humano concreto. A noção de informação (no campo da biologia ou da informática) rompe a fronteira entre o homem [ser humano] e a máquina e autoriza a humanização da inteligência artificial ou a mecanização do homem e sua instituição médica no contexto das procriações assistidas pela medicina ou das intervenções gênicas. Rompe as ontologias clássicas e, com isso, destrói as distinções de valor entre o homem e seus instrumentos e introduz uma mudança moral considerável”. O próprio David Le Breton, em entrevista concedida a nós e à revista Sociologia, na edição de número 57, sustenta textualmente que “as teorias mecanicistas ou informacionais, para fazer uso da versão mais em voga, implicam sempre uma fantasia de domínio sobre o humano, de aniquilação de toda ontologia”. Aqui vemos novamente relações que tendem para a categoria tipo (ii), ou seja, máquina/máquina. Apenas a título de registro, o futuro das IA parece estar fadado a ser constituído assim: máquinas desenhando e construindo outras máquinas, mais complexas e potentes que elas mesmas.

 

Humano-pós-humano

O fato é – sustentamos – que estamos construindo um universo extraordinário com nossas tecnologias, e com elas vamos estabelecendo novos laços e relações com a realidade e com aquilo que significa ser humano. Concebendo estruturas técnicas rebuscadas, doando-lhes sentido e utilidade, e é isso que nos diferencia das demais espécies de seres. Ser humano – nesse sentido – significa, necessariamente, ser tecnológico.

 

Hibridação ciborgue

 

“Há, pairando sobre nossas cabeças [escrevemos em Cumulonimbus-informaticos, de 2016], gigantescas nuvens informacionais, ameaçando-nos com seus raios, trovões e ventanias. As tormentas já iniciam suas precipitações e começam a cair sobre nós. Nós somos o seu elemento. A faísca que produz o ribombar do trovão e a própria tempestade.” E na mesma fonte ainda podemos ler: “Amo todos aqueles que são como gotas pesadas caindo uma a uma da nuvem escura que pende sobre os homens: eles anunciam [escreve Nietzsche apud Quaresma] que o relâmpago vem, e vão ao fundo como anunciadores. Vede, eu sou um anunciador do relâmpago, e uma gota pesada da nuvem: mas esse relâmpago se chama o além-do-homem”. “Esse notável filósofo [sintetizamos na referida coluna] foi um dos primeiros a anunciar esse futuro que hoje experimentamos. Inspirado, ele faz diversas vezes referência a essa possibilidade de o ser humano não ser um fim em si mesmo, mas simplesmente uma ponte ou um meio para que emirja uma nova conjuntura, bem menos antropocêntrica do que a que estamos acostumados a imaginar como sendo verdadeira.” Referimo-nos ao fenômeno do humano-pós-humano, ou ainda, como alguns teóricos vanguardistas menos antropocêntricos nominam, sistemas inorgânicos e não biológicos.

 

Leia o artigo na íntegra na revista Sociologia Ed. 70. Garanta a sua aqui!

Adaptado do texto “Ciber-relações societais”

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta autodidata, graduado em Filosofia, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia. É membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente) e vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). Autor dos livros Humano-pós-humano – bioética, conflitos e dilemas da pós-modernidade (2014); Engenharia genética e suas implicações (Org.), (2014); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir? (2011). Atualmente pesquisa as controversas relações entre as inteligências artificiais complexas e as sociedades contemporâneas, tendo publicado diversos artigos  sobre a referida temática: Determinados por nosso próprio determinismo (2012); Revolução robótica (2013); Auto-organização de quarto grau (2014); O tecnomito da caverna (2014); Hibridação ciborgue (2014); Deuses ou presas (2014); Corpo-máquina? (2014); Sistemas complexos e emergência: como se originam a inteligência e a vida (2015); Redes autoconscientes: as novas mentes cibernéticas globais (2015); Homo tecnológico (2015); Cumulonimbus-informaticos (2016); Rivais de silício (2017), Rivais de silício II (2017) e Jogos egoístas (2017).