O cuidado como questão social

Tarefa que até então era essencialmente das mulheres, cuidar dos doentes, filhos e idosos da família requer o apoio de políticas públicas afinadas às novas configurações familiares e aos novos papéis femininos

Por Anna Bárbara Araujo* | Foto: 123REF | Adaptação web Caroline Svitras

Historicamente, o trabalho reprodutivo, isto é, aquele que assegura a continuidade da vida, tem sido atribuído às mulheres. Não obstante, a redução no tamanho das famílias, os sucessivos casamentos e principalmente a entrada das mulheres no mercado de trabalho tornaram mais rara a possibilidade da prática do mesmo, e, em especial, do cuidado, enquanto trabalho não pago, realizado dentro da unidade familiar pelas mulheres e direcionado aos idosos, crianças e doentes, conforme será melhor explicitado a seguir.

 

Mas o que é o cuidado, afinal? Trata-se de um termo bastante polissêmico e de difícil definição. Os usos cotidianos do termo dizem respeito a uma infinidade de práticas, como cuidar dos filhos, cuidar da casa, cuidar dos pais e dos doentes, entre outros. Na Sociologia, também há um amplo debate sobre o tema, mas entende-se, para os fins deste texto, que o cuidado pode ser compreendido como o conjunto de atividades em que as necessidades de uma pessoa são satisfeitas por outra, numa relação face a face, visando a saúde e o bem-estar do outro, e inclui atividades como dar banho, alimentar e vestir. Neste sentido, o cuidado refere-se a um conjunto de atividades que contribui para manter ou preservar a vida (Molinier, 2005).

 

Dito isso, convém considerar que o modelo familiar no qual o homem é o provedor e a mulher se responsabiliza pelas tarefas domésticas e de cuidado dos filhos e parentes está em declínio, embora ainda opere como modelo ou imagem culturalmente aceita de família. Hoje, mais da metade das mulheres brasileiras está inserida no mercado de trabalho, de modo que elas dispõem de menos tempo para se ocupar do cuidado de outros familiares. Enquanto isso, as pesquisas sobre uso do tempo indicam que a participação dos homens nas tarefas domésticas e de cuidado cresceu muito pouco ao longo dos anos e permanece significativamente menor que a das mulheres.

 

A ovelha negra das relações de gênero

 

Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população humana é uma tendência que – embora esteja afetando os diferentes países e regiões dentro dos países, com graus e velocidades variados – tem escala global (Hirata; Guimarães, 2011). Dentro desse grupo, aumenta a proporção das pessoas mais idosas (com 80 anos ou mais), aquelas que precisam, via de regra, de mais atenção e cuidado em virtude do deterioro físico e mental (Camarano, 1999). Essas mudanças demográficas alteraram significativamente a demanda por cuidado – isto é, não apenas aumenta-se a necessidade de cuidadores, como também cresce o período de tempo durante o qual os idosos necessitarão de cuidados.

 

No Brasil, o aumento da expectativa de vida acontece em velocidade acelerada por causa da melhoria das condições sociais (como acesso a saneamento básico e serviços de saúde) ocorrida nos últimos anos. Estima-se que em 2050 o número de pessoas idosas alcançará 30% da população. Desse modo, é urgente pensar estratégias de provimento de cuidados para esse segmento crescente da população.

 

Assim, as mudanças demográficas e socioculturais ocorridas nas últimas décadas impactaram significativamente os modos e modelos de realização do cuidado e especialmente do cuidado de dependentes, produzindo novas configurações das atividades tradicionais do cuidado (Hirata; Guimarães, 2011, p. 152).

 

A identificação feminina para com o cuidado, antes garantida pela maior permanência da mulher no espaço doméstico, começa a ser posta em xeque, na mesma medida em que as mulheres começam a entrar mais intensamente no mercado de trabalho e que ganham força as reivindicações feministas, especialmente após a década de 1960. Esses dois fenômenos foram de fundamental importância para lançar luz sobre o trabalho reprodutivo, até então experimentado enquanto proteção naturalizada, construída na intimidade familiar e atribuição feminina. A entrada das mulheres na esfera pública por si só questiona sua alegada pertença natural, irrevogável e inegociável ao mundo doméstico. As políticas públicas de assistência social relacionadas ao care (termo de origem inglesa que designa cuidado e que se consagrou nos estudos sobre o tema) têm papel fundamental nesse processo, conforme argumentam Hirata e Guimarães (2011):

 

O care remete à questão de gênero, na medida em que essa atividade está profundamente naturalizada, como se fosse inerente à posição e à disposição (habitus) femininas. Mas, na medida em que o care se manifesta como ocupação ou profissão exercida em troca de uma remuneração, o peso e a eficiência crescentes das políticas públicas tornam-se verdadeiras bombas de efeito retardado, visto que questionam a gratuidade do trabalho doméstico e a sua circunscrição ao grupo social das mulheres, e desafiam a ideia de “servidão voluntária” inerente a esse serviço quando realizado no espaço privado do domus. Vale dizer, a emergência do care como profissão implica o reconhecimento e a valorização do trabalho doméstico e do trabalho familiar como “trabalho”; em outras palavras, a associação do trabalho de care com uma profissão feminina deixa de ser natural (p. 156).

 

Assim, o novo cenário social, já com a expressiva presença das mulheres no mercado de trabalho, torna patente a necessidade de repensar a distribuição do cuidado realizado nas e pelas famílias. Parte da nova demanda por cuidado será suprida pelo mercado de trabalho, através da realização do cuidado pago (England, 2005). Além disso, o cuidado se consolida, gradativamente, e, a depender do contexto social, em diferentes ritmos, como uma questão da esfera pública, ou seja, que prevê certa regulação, mediação ou interesse do Estado (Sorj; Fontes, 2012), de modo que é fundamental pensar políticas públicas que o favoreçam.

 

 

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Adaptado do texto “O cuidado como questão social”

*Anna Bárbara Araujo é doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA-UFRJ) e dedica-se ao estudo do trabalho de cuidado. E-mail: annabarbaraaraujo@gmail.com