O descaso com a pobreza no Brasil

País não oferece condições mínimas de dignidade a seus cidadãos e propicia a existência de verdadeiros bolsões de pobreza na maioria de suas cidades, incluindo os grandes centros, como São Paulo

Por José Luiz Zanzini* | Foto:  Shutterstock| Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Se tenho algo a escrever sobre a visão do descaso social com o qual me deparo todos os dias dentro da cidade de São Paulo é: O país que não oferece o mínimo de dignidade a seus cidadãos e condições básicas como ser humano para sua sobrevivência não apenas deixou uma gestão a desejar, mas esqueceu completamente o que é administrar para uma nação e seu povo.

 

Quando inicio o texto, com o título de Condomínios da miséria, pode-se imaginar algum edifício ou prédio, ou uma vila de casas ou sobrados, com uma portaria e funcionários uniformizados, controlando a entrada e saída dos visitantes e de seus moradores. Triste engano. Dentro das várias definições que a ciência sociológica recebe, acredito usar todas para escrever e descrever as imagens do descaso e da pobreza miserável e visível de um universo de seres humanos, se é que assim podemos classificá-los, visto o completo abandono físico, moral e indiscriminado que essas pessoas se submetem. Isso acontece por completa falta de oportunidades dentro de uma sociedade em que a ineficiência do poder público na área social é precária, principalmente nas áreas urbanas das grandes metrópoles como São Paulo.

 

É possível observar, diariamente, andando a pé, automóvel, condução pública e até de bicicleta, nas muitas praças, jardins, ilhas de avenidas e ruas, bueiros, respiros de metrô, calçadas, embaixo de viadutos, marquises, um número gigantesco, diríamos, de “mini barraquinhos”, colados um ao lado do outro, e, no seu interior, embaixo de coberturas de lonas plásticas pretas, caixas de papelão, madeiramentos e restos de tábuas de construção, encontramos pessoas na mais extrema pobreza.

 

Mulheres grávidas, drogadas, embriagadas, com soltura provisória da cadeia, clandestinas vivendo no Brasil, ou com sérios problemas mentais advindos do excesso de álcool ingerido e drogas, com deficiência etc. Tirando a gravidez, na mesma situação estão os homens,  suas crianças e as minorias étnicas vindas de todos os lugares, onde muitos, com suas famílias, apelam à mendicância diária para sobreviver.

 


É preciso re etir sobre as pessoas que vivem no meio dessa miséria urbana, em que buscam em moedinhas o nosso auxílio, sempre limitado e insuficiente

 

Numa situação de risco de vida pessoal e da família, essas pessoas recorrem a cidades onde o capital gera bilhões em bens e riquezas, onde existem os cérebros eletrônicos mais modernos do mundo. E, quando chegam, descobrem que  essas megalópoles não conseguem ver e solucionar o problema da miséria extrema a que essas vidas chegaram. É como se fossem invisíveis à sociedade, continuam a tomar espaço em todos os lugares, sem que nada aconteça de bom a essas pessoas, como se houvesse um completo esquecimento de todos os direitos sociais básicos, em que os direitos humanos são esquecidos e a vida ignorada.

 

Perguntamos, muitas vezes, o que leva as pessoas e essas famílias a esse “fundo de poço da miséria”. Para justificarmos socialmente, buscamos análises de estruturas genéricas, dentro de modalidades de pobreza intertextualizadas. Além disso, criamos as pressuposições, fazendo avaliações, que acabam nos levando a sociedades contemporâneas e a miséria existente nestas. E, como um relatório hegemônico, vê como se a miséria e a pobreza fossem uma doença sem cura, que caminha há décadas, séculos e entrando milênio sem a solução desejada para um mundo de coletividade racional.

 

Linha extrema

No censo demográfico do IBGE de 2010, foi colocada uma linha extrema como análise de pobreza e, por que não dizermos, de miséria única, que classificou as famílias com renda per capita até R$ 70,00 (setenta reais). Essa classificação foi baseada em padrões internacionais, objetivando o desenvolvimento para o milênio, em que, nos padrões brasileiros, um ser humano consome diariamente R$ 2,50 (dois reais e cinquenta centavos) per capita, números esses que foram definidos pela ONU – Organização das Nações Unidas, dentro de seu PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, um valor em dólar de U$ 1,25 (um dólar e vinte e cinco cents) dia, per capita, número esse que veio desequilibrar os centros de pesquisa em pobreza e miséria extrema no Brasil, visto que o critério usado pela ONU se tornou muito maior. Ou seja, como 8,5% de nossa população vive abaixo dessa linha de pobreza extrema, o que representa um total de 16,3 milhões de vidas miseráveis socialmente, distribuídas pelo país nas metrópoles e cidades abastadas financeiramente.

Um espectro do trabalhismo ronda o Brasil

 

Desse montante de pessoas vivendo na pobreza extrema e na miséria absoluta da rua, o censo mostrou que, em relação ao sexo, as mulheres são maioria,com 50,5%, e os homens 49,5%, existindo uma complexidade na classificação dessas pessoas dentro da área de educação, onde muitos são analfabetos, outros mal sabem escrever, aqueles com pouca escolaridade e até alguns com alto nível de escolaridade, o que demonstra o grau e a dificuldade para criar projetos de inclusão social dessa população em risco de rua, o que, inclusive, dificulta a transferência de renda das conhecidas bolsas governamentais, que têm sido um paliativo para diminuir essa população extremamente carente, em que inúmeros beneficiários veem os recursos como valores muito baixos para sua subsistência ou de sua família.

 

A sensação que temos, passados anos e mais anos, gestão e mais gestão pública, informações e mais informações de que o momento econômico é favorável à eliminação desses condomínios de miseráveis, principalmente na cidade de São Paulo e muitas outras cidades afortunadas do país, é que nossos governantes continuam proclamando que já têm projetos e leis com procedimentos definidos, para que sejam cumpridos, na prática, todos nossos deveres institucionais em relação à miséria e à pobreza máxima.

 

Contudo, a realidade fica exposta, apenas, aos meios de comunicação e acabam não atingindo os verdadeiros interessados, que são mulheres, homens, crianças que dormem e acordam nesse mundo de miséria e pobreza e sem o mínimo de dignidade. Devemos lembrar, sempre, que a exclusão social e a miséria violam os maiores preceitos da vida humana, a dignidade existente dentro de cada um de nós, na vulnerabilidade extrema, principalmente, da falta de políticas públicas, onde esse mundo esquecido por todos na cidade tem seus olhares de pedido de socorro acomodados na esperança de um amanhã sempre melhor.

 


Essas pessoas habitam um mundo esquecido por todos na cidade, têm seus olhares de edido de socorro acomodados na esperança de um amanhã melhor

 

Não adianta desviar nossos olhares como cidadãos. Devemos, sim, cobrar do poder público que cumpra a obrigação de administrar os altíssimos impostos que pagamos. Isso se deve com uma gestão eficiente na assistência social objetiva, saúde, habitação popular, educação, transporte público, direcionando, principalmente, aos menos favorecidos, que estão a conviver, diariamente, no mesmo espaço público que ocupamos na cidade. Esses aspectos nos fazem refletir sobre as pessoas que vivem no meio dessa miséria urbana, em que buscam em moedinhas o nosso auxílio, sempre limitado e insuficiente dentro de um sistema de sobrevivência.

 

Buscamos um olhar para dentro das instituições de uma sociedade dinâmica e voltada a um mundo globalizado, com suas indústrias de transformações  e um complexo sistema de distribuição de riquezas entre essas instituições, sejam da sociedade civil ou do poder público. Devemos olhar o problema com engajamento e sabermos que ele faz parte do presente em nosso cotidiano, provocando e acarretando conflitos sociais, motivo de nossas preocupações, na linha que incomoda uma população na contemporaneidade de seus julgamentos.

 

Outra vida é possível

 

É fundamental nesse processo, para eliminar a pobreza e a miséria coletivas, implantar programas de qualificação profissional, dentro de inclusões produtivas, benefícios e serviços, gerando empregos e apoios familiares, na garantia da sustentabilidade do sistema, até que as pessoas comecem a caminhar sem o auxílio do poder público. É primordial e urgente que se faça um estudo social desses condomínios de miséria em todas as cidades, e na cidade de São Paulo como exemplo para o mundo, de maneira séria e rigorosa. Além disso, que sejam tomadas decisões, não apenas para esconder ou devolver essas pessoas a sua origem, mas como solução definitiva no combate à miséria e à pobreza.

 

 

Infraestrutura

Portanto, é necessário instituir projetos de infraestrutura coletiva em criação de bairros urbanos na periferia, colocando a cidade dentro dos padrões do  PNUD, da ONU, como agregadores para a eliminação desses problemas sociais e não como expulsadores, visto os mesmos serem originados nas crises estruturais dentro do próprio país, o que leva  as estruturas familiares a se tornarem vítimas dessa descapitalização e caírem na miséria e na opressão social e financeira do sistema. Esse conjunto de fatores eleva o nível do desemprego e o custo de vida, tirando o poder aquisitivo da classe “C” e “D”, com os aumentos de juros e deixando-os a um passo dos condomínios da miséria.

 

Temos plena consciência de que existe na sociedade moderna um desequilíbrio social, onde as desigualdades não são observadas e a miséria, a fome e os sérios problemas sociais que abatem as famílias, não apenas em São Paulo mas em todo o Brasil, afetam, diariamente, mais de dois milhões e meio de seres humanos, que buscam viver com menos de dois reais e cinquenta centavos, ou um dólar e vinte e cinco cents, estipulado pelo nível de miséria da ONU.

 

O apartheid contemporâneo

 

Enquanto isso, a filosofia política institucional vai tentando calar todos os meios de comunicação, mascarando resultados,  escondendo aquilo que vemos, diariamente, em todos os lugares em nossas cidades, com a má governança de nossos impostos, corroídos, muitas vezes, pela corrupção desconhecida da administração pública.

 

Amanhã, quando estiver indo para o trabalho no meu automóvel, passarei por vários condomínios da miséria em São Paulo, verei seus habitantes, suas crianças, seus cachorros, gatos e até periquitos, muitos escovando os dentes, lavando o rosto e se preparando para esmolar ou vender seus produtos no farol. Outros preparando o café coletivo, alguns já embriagados, tendo ao lado sua garrafa pet de dois litros de pinga (cachaça) pela metade, o cadeirante, o cego e o homem de muleta pedindo as moedinhas no farol fechado.

 

Passarei direto por eles, tenho hora para chegar ao meu emprego. A minha consciência está tranquila, já trabalhei quatro meses e 28 dias no ano, pagando meus impostos ao governo. Preciso cuidar agora de minha família, até para não correr o risco de fazer parte de um desses condomínios da miséria. E se tem alguém culpado em tudo isso, são nossos governantes, que, infelizmente, não sabem administrar aquilo que, com sacrifício, pagamos: nossos impostos.

 

 

*José Luiz Zanzini (Zezinho) é pós-graduado em Sociologia e Ensino Sociológico e licenciado em Filoso a pela Universidade Claretiano de Batatais – São Paulo. Gestão de Serviços Públicos pela Fundação Getulio Vargas – São Paulo, com estudos de especialização nos Maus-tratos na Infância pela OABSP. Membro da ONE – Ordem Nacional dos Escritores, cadeira 462 – SP – Capital. Acadêmico na Academia Ipuense de Letras, cadeira 61 – Ipu – CE.

E-mail:jzanzini@yahoo.com.br

 

Adaptado do texto “Condomínios da Miséria”

Revista Sociologia Ed. 50