O diabo do smartphone

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Ninguém mais – ou quase ninguém mais – consegue se separar de seus aparelhos multifuncionais de comunicação e acesso à internet. Eles são tão pequenos, úteis e versáteis que passaram a integrar a nossa lista de itens pessoais simplesmente indispensáveis. Numa só palavra, tornaram-se gênero de primeiríssima necessidade. Trata-se de um hábito que se cristalizou tão rapidamente, e com tão grande abrangência e penetração, que até mesmo os pretensos especialistas em cibercultura não conseguem acompanhar de perto e a contento todos os avanços que o campo de fato apresenta, já que todos os dias surgem novas aplicações e usos para eles.

 

O fato importante que vale ser destacado é que o uso massivo desses sistemas e serviços acabou alavancando um negócio multibilionário que movimenta cifras astronômicas e sempre crescentes. As empresas que estão à frente desses negócios em franca expansão são nossas velhas conhecidas, lideradas pelas grandes da informática e da computação mundial. Para esses grupos que controlam esse tão disputado setor, não importa realmente se o conteúdo de sua conversa é banal, supérfluo, ou se os sites que você visita habitualmente tratem de especificidades e curiosidades subjetivas e particulares, pois o que de fato importa – e, de certa maneira, já foi conseguido por essas megacorporações transnacionais – é que as pessoas sejam absorvidas por equipamentos cada vez mais poderosos e sofisticados, e que esses mesmos equipamentos sejam abastecidos continuamente com aplicativos cada vez mais versáteis e úteis, para que assim o usuário prossiga em sua imersividade absorvente, pois é ali, nesse espaço cibernético e virtualizado, que as coisas devem acontecer com fluidez para que os negócios continuem a crescer e os gordos faturamentos possam cada vez mais se consolidar. E esses aplicativos – ou mais simplesmente Apps – são justamente o que tornam tão atraentes e úteis tais aparelhos.

 

Ciberdependência?

 

Como muitos usuários afirmam textualmente, toda a sua vida – ou tudo que se precisa no cotidiano trivial do dia a dia – se encontra ali dentro, armazenada em seus sistemas e circuitos miniaturizados e nanotecnológicos, que, com efeito, cabem em nossas bolsas e bolsos e ainda possuem mil e uma utilidades. Agenda de contatos, compromissos, endereços, documentos, textos, músicas, vídeos, bilhetes de check-in para voos, mapas de cidades, estradas e ruas, GPS para rastreamento e navegação são apenas alguns dos confortos e benesses que eles podem nos proporcionar. Isso tudo sem mencionar jogos, filmes, acesso às redes sociais, e-mails e tudo mais que possa auxiliar, entreter e distrair seus usuários, provocando imersividade. Sem embargos, eles fazem tanto sucesso porque realmente são úteis e geram prazer, e o enorme e crescente número de usuários mundo afora está aí e não nos deixa mentir.

 

 

Uma febre viral

E é justamente por isso que esses aparatos multifuncionais conectados a nuvens de dados viraram uma verdadeira febre social. Comunicar-se, estar conectado, poder compartilhar conteúdos e articular-se socialmente via internet, por meio desses equipamentos e serviços, já fazem parte de nossa cultura extremamente tecnologizada, e as consequências disso são de todas as ordens, afetando desde a presidenta da República até os cidadãos comuns das ruas. Uma das mais interessantes consequências do ponto de vista antropotécnico e psicossocial é a capacidade que eles têm de competir com a própria realidade presencial, e, em muitas situações, tornarem-se até mais atraentes que essa. E é por isso – também – que alguns usuários podem perder a medida e o senso da vida comum, e de fato só se sentirem felizes e realizados plugados on-line na rede internacional de computadores e navegando no ciberespaço.

 

Outra faceta importante e notável dessas próteses pós-modernas é poder tirar fotos e compartilhá-las imediatamente on-line, e tudo isso em frações de segundo. E, numa sociedade que preza e valoriza profundamente as aparências – o olhar do outro, a afirmação pessoal perante os demais, como a nossa é –, para o sujeito que utiliza esses equipamentos, então, não basta apenas fazer tal e qual coisa, ir e vir de um determinado lugar extraordinário, uma viagem ou passeio, conquistar ou realizar sonhos, participar de uma festa ou namorar uma determinada pessoa em especial.

 

 

Faz-se necessário – como uma premência compulsiva e verdadeiramente incontrolável – postar, compartilhar, expor e publicar tais ações para os outros membros da rede a qual se pertence, para que eles vejam, curtam e também compartilhem, pois só assim os gozos de tais acontecimentos podem ser realmente completos (vistos, curtidos e compartilhados), e é justamente com o reconhecimento do outro que o ciclo psicossociocultural subjetivo de realização pode, mesmo que apenas momentaneamente, se completar.

 

Não que essa necessidade de parecer forte, potente, bem-sucedido, rico, jovem, bonito e saudável seja uma novidade, ou mesmo uma consequência exclusiva dessa cibercultura e cibergeração, já que ela acompanha a estruturação da psique humana desde os primórdios mais primitivos. Mas é indubitável que com a facilidade que essas pequenas máquinas eletrônicas nos proporcionam, isso passou a ser uma coisa muito mais habitual, difundida, capilarizada, intensiva e praticada socialmente. E o preço que se paga – além do financeiro, é claro – por vezes pode ser bem alto, pois o ciberespaço pode em muitos momentos parecer mais aprazível que a própria realidade mundana das interfaces presenciais. E isso acontece por diversas razões.

 

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Uma delas – um tanto quanto óbvia – é que a realidade mundana circundante dos usuários pode ser árida, entediante e até mesmo desumana, e nesse sentido o ciberespaço acaba sendo um refúgio seguro onde eles vão se abrigar e construir sua rede social de relações interpessoais, com a vantagem de poderem parecer aquilo que não são, se assim o quiserem, ou poderem filtrar o que desejam deixar ser visto e conhecido de si pelos demais usuários de seu círculo de relações, livrando-se assim, por exemplo, de eventuais limitações e privações que sua condição social – por desventura ou acaso – tenham lhes imposto. Mas seria ingenuidade pensar que tudo se resume simplesmente a isso, pois essa “febre” viral e de fato avassaladora – como um enorme tsunami – afeta todas as camadas da sociedade, dos mais abastados e privilegiados aos mais desfavorecidos e carentes. Todos são igualmente sugados e absorvidos pelo próprio sistema informacional.

 

 

Aliado e espião
O linguista e ativista norte-americano Noam Chomsky descreveu dez tópicos de manipulação das massas no mundo contemporâneo | Foto: Wikipedia

Se por um lado essas tecnologias facilitam as nossas vidas, servindo-nos de diversas maneiras, elas também podem nos causar enormes transtornos. O diabo do smartphone, por exemplo, tornou-se um companheiro inseparável tão presente da grande maioria da população que quando, por alguma razão, os respectivos usuários se veem privados do seu uso, sentem-se totalmente desamparados, como se estivessem “nus”, ou como se estivesse faltando alguma coisa muito importante em suas vidas. E essa abstinência pode se revelar bastante sofrida e até dolorosa, principalmente para aqueles que se habituaram a interagir o tempo todo. Como uma das qualidades desses equipamentos é justamente tirar fotos e filmar, e como quase todo mundo os usa para esses fins, na maioria esmagadora dos espaços públicos e sociais quase nada mais pode ser feito em sigilo, pois sempre há uma câmera ligada para registrar o que está acontecendo. Sem mencionar que, enquanto estamos usando essas tecnologias, os provedores e grupos que exploram esses serviços, por seu turno – além de agências de inteligência e espionagem –, têm acesso livre a todos esses dados e informações de foro íntimo que geramos e compartilhamos o tempo todo, objetivando, é claro, obter novos lucros e negócios, não só cibernéticos. Você já se perguntou por que todos esses serviços tão interessantes (como e-mail, chats, GPS, teleconferência, apps, entre outros) nos são oferecidos gratuitamente, se é que podemos adjetivar assim?

 

A resposta é bastante simples: para baixar um aplicativo qualquer, para liberar a utilização de um software, ou mesmo para usar serviços cibernéticos em geral, o usuário tem de aceitar uma porção de regras de uso – aquelas imensas, fatigantes, grafadas com letras minúsculas e propositalmente extensas e herméticas –, que quase ninguém lê, que incluem justamente essa geração de dados cibernéticos individuais de usuários do mundo inteiro, que servem como indicadores de consumo e tendências coletivas de uma forma geral. E é justamente através da mineração de dados que essas imensidões de informações podem ser finalmente filtradas, classificadas e exploradas comercialmente. Numa só palavra: saber o que você faz, o que você usa, o que você quer, onde mora, com quem se relaciona, que sites visita, pelo que se interessa, o que compra, o que vende, para onde viaja ou quer viajar e, em última instância, o que você pensa e deseja, da vida e de si mesmo, é absolutamente o mesmo que o controlar e explorar sem que você saiba disso. E eles ganham muito dinheiro com essas nossas informações e dados – dos quais não somos informados –, pois vendem caro para outras empresas ávidas, que vão vender os produtos e serviços para os públicos específicos classificados por segmento, ou seja, para nós.

 

 

As empresas que têm acesso a essas informações faturam alto justamente no campo da manipulação das massas, na antecipação do desejo de consumo e na predição do gozo das pessoas e grupos sociais, e, principalmente, das tendências que o mercado vai adotar, sempre a partir desses medidores cibernético-informacionais obtidos de maneira sub-reptícia e dissimulada. Referimo-nos àqueles infames anúncios muito específicos e relativos ao nosso contexto pessoal singular, que surgem nas páginas em que navegamos, que são um exemplo muito rudimentar do que essas espionagens e manipulações de dados e informações podem de fato proporcionar.

 

 

Escândalo e desmoralização
O  lósofo Jose Ortega y Gasset escreveu o clássico livro A rebelião das massas, publicado em 1930| Foto: Wikipedia

Além disso, o diabo do smartphone também pode ser capaz de criar “saias justas” inimagináveis, já que está em todos os lugares, em todas as partes, podendo assim registrar coisas e acontecimentos que talvez os protagonistas preferissem que permanecessem desconhecidas dos demais ou no total anonimato do esquecimento. E quando essas fotos e vídeos comprometedores caem na rede, não há mais como controlá-los, exceto, é claro, em raras exceções, sempre a posteriori, e unicamente por força de determinação judicial. Mas, na maioria dos casos de exposição de intimidades, as determinações judiciais chegam de fato tarde demais, pois elas (intimidades) já foram compartilhadas centenas, milhares, milhões de vezes, por usuários mundo afora, e à vítima restará apenas se conformar e aceitar a desfavorável situação, e, o mais importante, arcar com as consequências e desdobramentos das revelações.

 

E esses pequenos aparelhos multifuncionais podem, de fato, acabar arruinando a vida de seus usuários, ou de terceiros, que são flagrados por eles fazendo coisas que jamais fariam publicamente. Esse foi o caso, por exemplo, do lorde inglês que resolveu cair na farra e na gandaia com algumas garotas de programa, numa festinha muito animada, regada a bebidas, conversas comprometedoras, uso explícito de cocaína e imagens ridicularizantes, pois, em sua inversão catártica recreativa, o senhorzinho – que é (ou era) casado, político conservador, um dos mais importantes e respeitados nobres da corte inglesa e do parlamento britânico –, além de tudo, ainda vestiu um sutianzinho vermelho das moças, compondo com um casaquinho de couro rude e vulgar delas, e com uma cara de prazer “dos diabos” se refestelava faceiro, “que nem pinto no lixo”! É totalmente desnecessário dizer o que aconteceu com o pobre. O infortunado simplesmente foi desmoralizado, ou melhor dizendo, se autodesmoralizou. As meninas devem ter gravado tudo em detalhes com o smartphone, premeditadamente – como fizeram –, a mando de algum inimigo político, ou ainda para fins de chantagem, o que acaba dando no mesmo, e a coisa toda foi parar no ciberespaço, na televisão, nos jornais e principalmente nos tabloides ingleses, que – frise-se – já têm vasta experiência em fofocas, bafafás e escândalos – de novo –, justamente porque as pessoas gostam desse tipo de conteúdo, e as empresas de comunicação, por seu turno, sabem disso. E elas sabem, meus caros leitores, porque nós, é claro – para poder gozar das benesses tecnológicas de última geração que elas tão gentilmente nos oferecem –, deixamos em suas mãos o que temos de mais precioso e caro, e o pior, sem ganhar nada com isso: os dados e informações de nossa vida privada.

 

 

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera).  É membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common Ground Publishing. É autor dos livros Humano-pós-humano – Bioética, conflitos e dilemas da pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (Org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir?

E-mail: a-quaresma@hotmail.com

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 61