O fenômeno da cibercultura

Nessas relações cibernéticas, cada usuário atua como uma espécie de neurônio interligado numa gigantesca rede de conexões neurais transpessoais

Por Alexandre Quaresma* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Os cibercircuitos oniscientes do virtual estão em todos os lugares, em toda parte. Pois vivemos em meio a um turbilhão informacional de proporções realmente extraordinárias. Afirmamos isso, já que geramos e compartilhamos todos os dias quantidades monumentais de informações on-line, e, de certa maneira, nossa vida e nosso mundo também fluem e refluem juntamente com elas a altíssimas velocidades pelos sistemas e suportes informacionais, de modo que a vida cotidiana humana possa acontecer de forma mais eficiente, prática, rápida, agradável e economicamente viável.

 

São aproximadamente 322 exabytes por ano, o que dá quase 1 exabyte por dia de informações e dados a circular por aí, fluidamente, nutrindo e alimentando tudo. Para tanto, como uma seiva viva a irrigar o sistema informacional global, elas (informações) cruzam terras, oceanos e ares, entrecortando o ciberespaço e o mundo virtual, percorrendo as veias e canais sintéticos de fibra ótica digital que compõem a parte sólida de seu corpo etéreo-eletrotécnico. Ainda assim – frise-se –, elas são também e substancialmente imateriais, pois são transcrições de dados binários em constante fluxo, capazes de traduzir tudo, e podem viajar também através do ar sob a forma de frequências de ondas de rádio, o que vai entrelaçando cotidianamente o espaço etéreo ao nosso redor, através das difundidas redes sem fio, presentes atualmente em quase todos os lugares públicos urbanizados, e isso, essa enormidade de informação em-fluxo de fato não se pode tocar. E basta um clique e em frações de segundo elas circundam a Terra, conectam pessoas, viabilizam negócios e vão hiperconectando cada usuário do planeta em sua incomensurável teia digital viva, uma grande e única inteligência, unindo a comunidade humana em estreitas relações ciberespaciais não presenciais, virtuais, gerando uma condição de sensibilidade onisciente e onipresente para a própria humanidade que se instrumentaliza através dela. Numa só palavra, há vida na rede, e a rede, de igual maneira, potencializa ainda mais a vida e as interações humanas. Pierre Lévy (1996:20) reforça esta nossa afirmação ao escrever que “apesar de não-presente, essa comunidade está repleta de paixões e de projetos, de conflitos e de amizades”.

 

A Febre da Conectividade

Estar conectado não é mais um desejo aleatório e secundário, e sim uma necessidade premente dos seres humanos pós-modernos que tem que ser saciada em todos os lugares possíveis através de próteses eletroeletrônicas de toda ordem e utilidade como TVs, i-phones, tablets, notebooks, palmtops, laptops, desktops, GPS, roteadores, redes wi-fi, telefones móveis, por satélite, globais, e a lista de aparelhos que propiciam conectividade de fato não tem fim. Com que finalidade? A principal delas é ter acesso instantâneo a esse tipo de onisciência informacional que permeia nossa cultura, ou, sendo mais exato, acesso a partes e parcelas deste extraordinário conhecimento, que vai sendo armazenado no que chamamos atualmente de computação em nuvem. Grosso modo, podemos especular que estamos construindo uma espécie de aura cibernética inteligente em torno de nós mesmos e do próprio planeta que habitamos, e este manancial de dados se expande e se complexifica exponencialmente à medida que mais e mais pessoas se conectam a ele, alimentando-o com novas complexidades. Junte-se a isso os softwares de busca inteligentes e a mineração de grandes dados, e teremos um gigantesco manancial informacional ativo, disponível instantaneamente, e utilizável para diversos fins. Neste contexto, como nos informa também Pierre Lévy (1996:46), “o computador como suporte de mensagens potenciais já se integrou e quase se dissolveu no ciberespaço, essa turbulenta zona de trânsito para signos vetorizados”. Há, neste contexto, uma espécie de ânsia por conectividade, pois não basta apenas viver tal e qual situação cotidiana – seja ela boa, ou má – mas parece ser necessário também – principalmente no ciberespaço, mas não só nele – compartilhar aquela determinada experiência vivida com os demais indivíduos conectados ou conectáveis na rede social virtual, para que ela (experiência) se torne socialmente válida, reciprocamente reconhecida, em termos de verdade e valor, pois é a reciprocidade, os espelhamentos e as diferenças, e principalmente o intercâmbio dinâmico destes elementos simbólicos que vão conformar a realidade social assim como ela fundamentalmente é. A conectividade propicia este tipo de interface, e também a reestruturação profunda das relações interpessoais convencionais estabelecidas até então. Neste sentido, há uma enorme transformação em curso.

 

Revista Sociologia Ed. 47

Adaptado do texto “Os cibercircuitos oniscientes do virtual”

*Alexandre Quaresma é escritor, ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais. Autor dos livros Nanocaos e a responsabilidade global, Humano-Pós-Humano – Bioética, dilemas e conflitos da Pós-modernidade e Nanotecnologias: Zênite ou nadir? É membro ativista da RENANOSOMA (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente) e vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). a-quaresma@hotmail.com