O papel das religiões na atualidade

A modernidade, ao mesmo tempo em que seculariza a religião, deixando-a completamente sem prestígio e sem status para controlar as coisas mundanas, cria determinadas vias de acesso para que essa mesma religião recrie novas formas de religiosidade

Por Aron Barbosa* | Foto: Shutterstock| Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Na sociedade moderna, de forma geral, nos deparamos por um crescente surgimento de novas religiões e denominações. Atrelado diretamente a isso está também o fluxo corrente de pessoas entre essas novas religiões. De acordo com as observações feitas durante o período de pesquisa, verificamos que a Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD) é uma das muitas igrejas que estão nesse caminho por onde as pessoas passam. Essa igreja surge da cissiparidade com a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), resultado de um possível conflito entre Valdemiro Santiago (fundador da IMPD) e Edir Macedo (fundador da IURD).

 

Essas igrejas possuem traços que são comuns a todas as igrejas neopentecostais, sendo mais visada pela população e mais divulgada pelas igrejas a tríade cura/exorcismo/ prosperidade. No caso da IMPD, existe uma ênfase na cura divina. Programas de TV e de rádio, jornal e livros enfatizam os testemunhos dos fiéis que foram curados após receberem a oração de Valdemiro Santiago e de seus pastores.

 

O exorcismo tem uma importância fundamental no neopentecostalismo. Ele é o responsável pela libertação das pessoas daquilo que lhes causa mal, e também é a chave para que as portas da prosperidade sejam abertas. Ou seja, se as pessoas têm doenças, estão desempregadas, desmotivadas, têm dependência química, é porque, possivelmente, estão possuídas pelo demônio. Todos os males biológicos, psicológicos, sociais, entre outros, são causados pelas forças do mal, por aqueles que adoram o demônio e não têm uma vida regrada nos ensinamentos de Deus e da Igreja. Essa ideia vem acompanhando a evolução do cristianismo ao longo dos anos. O demônio existe, é causador do mal, qualquer pessoa está sujeita às suas ações, e se a pessoa não consegue nada próspero na sua vida, é por causa dele.

 

 

Libertação do mal

Na IMPD, o exorcismo é tratado de forma diferente, e é chamado de “libertação”, assim como na Renovação Carismática Católica. A libertação pode ser individual ou coletiva. A forma individual se dá por meio de orações entre o pastor e o fiel. O pastor profere máximas, pedindo a Deus que afaste todos os males da vida daquele fiel, entre eles maldição e macumbaria. A libertação coletiva acontece nos cultos dedicados à cura divina, e o pastor ou bispo ora por todos que estão ali. O dirigente do culto chama à frente as pessoas que desejam algum milagre, faz um momento de oração pedindo a Deus que intervenha na vida daquelas pessoas, e logo depois inicia o ritual de libertação. De acordo com Almeida (1982), as religiões neopentecostais, de forma geral, tendem a demonizar elementos das religiões afro-brasileiras e espíritas. Durante as décadas de 1970 e 1980, as denominações pentecostais ganharam maior visibilidade no campo religioso brasileiro, e como estas tinham grande ênfase na batalha espiritual contra as outras denominações religiosas, as afro-brasileiras e espíritas se tornaram os inimigos número 1 das igrejas neopentecostais. A libertação (ou exorcismo) é peça central da dinâmica dos cultos, uma vez que os males da vida encontram sua origem em Satanás e seus demônios, que estão travestidos pelos exus e pelos espíritos. O desemprego, a miséria, a crise familiar são, quase sempre, de origem maligna. O exorcismo, sob intervenção do pastor, expele as forças satânicas do corpo do crente restituindo a saúde mental e corporal. A IMPD não tem um discurso claro que atribua exus e entidades  à ação demoníaca. Contudo, fala-se em trabalhos de macumbaria no momento das orações individuais e coletivas.

 

As religiões neopentecostais, de forma geral, tendem a demonizar elementos das religiões afro-brasileiras e espíritas: os males da vida encontram sua origem em Satanás e seus demônios, que estão travestidos pelos exus e pelos espíritos

 

As igrejas neopentecostais dão uma identidade ao diabo, retirando-o da subjetividade do universo pentecostal e colocando- o em um plano objetivo. Assim, o diabo se faz presente não só na pessoa, como também no ambiente, e todos podem vê-lo, pois o possuído deixa de agir por conta própria e passa a ser controlado pelo diabo. Não é a pessoa quem age, suas palavras e seus atos são do próprio diabo. De certa forma, podemos dizer que o diabo é peça-chave para a existência do neopentecostalismo. Uma vez que a sua proposta é o combate sistêmico a Satanás e seus demônios, ele próprio não existiria sem a presença dos demônios na vida das pessoas.

 

 

Cura divina

O fiel que quer receber a cura divina precisa se submeter a um ritual de libertação, que é o exorcismo descrito acima. A partir dessa libertação, o fiel está pronto para que Deus opere nele um milagre. De acordo com Csordas (2008), a cura pode ser dividida em três aspectos principais: o procedimento, o processo e a conclusão. O procedimento diz respeito aos sujeitos envolvidos no ritual da cura e os objetos ou orações ou até medicamentos que são usados. Portanto, o procedimento do ritual de cura na IMPD envolve a ação sacra dos pastores (ou demais partícipes hierarquizados da igreja), que invocam a ação divina para que os demônios que residem em cada pessoa que está ali para ser curada possam ser expulsos; para isso, utilizam de orações e dizeres espontâneos parecidos com o ritual de exorcismo iurdiano, e também utilizam-se do toque com as mãos na cabeça das pessoas, simulando um gesto que se caracteriza pela retirada de alguma coisa da cabeça dos fiéis. A partir daí, algumas pessoas alteram o seu estado de consciência, o que caracteriza que o demônio está se manifestando nela; algumas pessoas desmaiam, outras gritam e conversam de modo agressivo com os pastores, e com outras nada acontece.

 

O segundo aspecto do ritual de cura é o processo. Entendemos essa característica como sendo o estado da pessoa, seja ele físico ou psicológico, durante o ritual. O que ocorre, na verdade, é um misto de emoções, que vão de um simples lacrimejar de olhos até os gritos mais desesperados de dor e sofrimento. Quando o ritual de libertação acaba, podemos perceber nas pessoas um semblante calmo, tranquilo, totalmente diferente das manifestações agitadas que acabaram de acontecer ali. Me parece, à primeira vista, uma espécie de transe coletivo, que se encerra ao comando do dirigente do culto, quando convida todos os presentes a soltarem um grito bem alto, caracterizando, de fato, que a ordem é para que o demônio saia das pessoas. Os gritos diziam: Sai… Sai… Sai.

 

O exorcismo vem acompanhando a evolução do pentecostalismo ao longo dos anos. Ele é o responsável pela libertação das pessoas causadoras de males e também é a chave para que as portas da prosperidade sejam abertas

 

O terceiro aspecto, que é a conclusão, é para nós o mais importante. Esse aspecto diz respeito à disposição final dos participantes em relação ao seu nível declarado de satisfação com a cura, ou seja, é o momento em que o fiel se manifesta em relação ao seu objetivo em estar ali, vai declarar (ou não) se recebeu a cura de Deus, se alguma dor ou doença que ele sentia foi sanada a partir da intervenção divina. Quando acaba o ritual de libertação, o pastor convida as pessoas que quiserem a dar o seu testemunho de fé, que nada mais é do que o discurso dos crentes que receberam o milagre. Várias pessoas se voluntariam, sendo que algumas delas receberam a cura naquela hora, e outras receberam em outros momentos, como em orações pelo rádio e televisão. Nessa hora, as pessoas se manifestam em relação à dor que estavam sentindo e que não sentem mais, àquela doença que se extinguiu sem explicações médicas, o emprego que não aparecia e que agora foi conseguido, enfim, muitas outras necessidades que os crentes buscavam através de Deus e que, quando conseguem, atribuem à ação divina.

 

 

Ritual sagrado

O que nos interessa aqui não são explicações comprovadas cientificamente acerca dos milagres. O que importa para nós é a eficácia simbólica da cura, e o que ela representa para o fiel. De acordo com Lévi-Strauss (1975), “a cura consistiria, pois, em tornar pensável uma situação dada inicialmente em termos afetivos, e aceitáveis para o espírito das dores que o corpo se recusa a tolerar. Que a mitologia do xamã não corresponda a uma realidade objetiva, não tem importância: a doente acredita nela, e ela é membro de uma sociedade que acredita. Os espíritos protetores e os espíritos malfazejos, os monstros sobrenaturais e os animais mágicos fazem parte de um sistema coerente que fundamenta a concepção indígena do universo. A doente os aceita, ou, mais exatamente, ela não os pôs jamais em dúvida. O que ela não aceita são dores incoerentes e arbitrárias, que constituem um elemento estranho a seu sistema, mas que, por apelo ao mito, o xamã vai reintegrar num conjunto onde todos os elementos se apoiam mutuamente”.

 

Não estamos tratando aqui de um ritual indígena. Portanto, podemos transpor para o universo em estudo a estrutura do trecho acima, transformando a figura do xamã no pastor, a concepção indígena do universo em teologia neopentecostal e todos os demais traços míticos de monstros e espíritos em demônios.

 

É possível transpor a concepção indígena do universo para a teologia neopentecostal e todos os demais traços míticos de monstros e espíritos em demônios. Dessa forma, podemos dizer que cura depende, exclusivamente, de quem a procura

 

Dessa forma, podemos dizer que a cura depende, exclusivamente, de quem a procura. Ou seja, não adianta querer a intervenção divina se não se aceita a mesma, ou não acredita no que será feito. O ritual de cura, atrelado diretamente à libertação, faz parte do universo religioso da IMPD e reúne os fiéis numa igual perspectiva de crenças, o que facilita a conclusão positiva dos milagres. Dessa forma, podemos dizer que a cura acontece a partir do emaranhado de significados que são colocados na vida do crente, e para tal ele deve acreditar no ritual, na possessão por demônios e no exorcismo deles, como forma de libertação, de limpeza do organismo para que aconteça a ação de Deus.

 

O último tópico da tríade – que é a prosperidade – deve ser visto como um ato conclusivo. Ou seja, o crente busca a cura, busca uma melhora porque quer que sua vida seja próspera. A teologia da prosperidade é propagada de forma intensa no universo neopentecostal. A IMPD, por exemplo, possui cultos exclusivos voltados para a prosperidade. São eles: Segunda-Feira do Crescimento Financeiro e o Sábado de Clamor das Portas Abertas.

 

 

Religião e modernidade

Juntando esses três aspectos, podemos dizer que eles estão intrinsecamente ligados. O crente quer a cura de Deus; para isso, ele deve primeiro se libertar daquilo que o prende, e assim se submeter à libertação; após ter sido liberto, Deus opera nele um milagre, seja ele a cura de alguma doença, ou outra benesse que ele almeje. Dessa forma, Deus ajuda o fiel, para que ele possa ter uma vida próspera, como mandam as escrituras.

 

Na verdade, as pessoas estão em busca do que lhes é conveniente e eficaz. Nesses casos, as pessoas buscam soluções divinas para os seus problemas, e a maioria dos entrevistados encontrou essa solução na IMPD. A cura divina, ou a solução divina para os problemas, faz com que as pessoas transitem mesmo de uma igreja para outra, até encontrarem o que de fato almejam. De certa forma, o pentecostalismo resgata a ideia de cura divina, pois a Igreja Católica tratou de delegar a cura apenas aos santos canonizados pelo Vaticano. No pentecostalismo, não é necessário ser santo para “praticar” milagres.

 

O pastor utiliza de orações e dizeres próprios de rituais de exorcismo, além do toque com as mãos na cabeça das pessoas, como parte do ritual de cura. Quando o ritual acaba, as pessoas ficam com um semblante calmo, muito diferente das manifestações anteriores

 

O trânsito religioso é caracterizado por esse fluxo de fiéis que transitam entre as igrejas, sempre buscando novos bens religiosos que lhes são oferecidos. E esse fluxo é ditado pela eficácia simbólica que cada bem carrega.

 

De acordo com Hervieu-Leger (2008), existe um paradoxo religioso nas sociedades seculares. O que seria esse paradoxo? A modernidade, ao mesmo tempo em que seculariza a religião, deixando-a completamente sem prestígio e sem status para controlar as coisas mundanas – como era feito nos séculos anteriores –, cria determinadas vias de acesso para que essa mesma religião recrie novas formas de religiosidade. Isso significa que a religião, de certa forma, esfarela-se em tradições, e passa a configurar novas tradições. E o avanço das igrejas neopentecostais pode ser atrelado a isso.

 

A modernidade, de acordo com Giddens (2005), nos passa a ideia de que o mundo não é regido mais pelo progresso ou pela história de grandes instituições. A sociedade pós-moderna é totalmente pluralista e diversificada, e seu histórico é formado não pelos ditames de coisas antigas, e sim pelo seu próprio desenvolvimento, unido às características e oportunidades que são oferecidas. De certa forma, houve uma ruptura com a tradição, e, após isso, a própria modernidade recria canais de formação de novas crenças, e é esse o cenário do avanço neopentecostal. Existem igrejas que são determinadas a um tipo de público, como as surgidas dentro de presídios e as recentes igrejas voltadas para fiéis homossexuais. Nunca que em tempos anteriores isso seria possível, dadas as circunstâncias da hegemonia Católica Apostólica.

 

As práticas religiosas se misturam e permitem que os frequentadores façam essa mistura também. Há pessoas que vão em uma missa e depois vão para uma sessão espírita ou para algum terreiro. A este ponto cabem algumas considerações: a busca pela eficácia dos bens religiosos faz com que exista esse trânsito, e este, por sua vez, pode ser fixo ou não, possibilitando ao fiel que continue trafegando à procura de respostas positivas ou que ele se fixe em alguma igreja; a visão de religião das pessoas está bem alterada também, pois é inaceitável para a Igreja Católica que um fiel frequente mais de uma religião, uma vez que a própria Igreja Católica prega que ela é a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Contudo, os fiéis não têm essa visão e continuam buscando resultados.

 

De acordo com Hervieu-Leger (apud MARTELLI, 1995), esses efeitos da modernidade foram combatidos pelo Vaticano sob a liderança carismática de João Paulo II. Foi traçada uma estratégia mais complexa do que a enorme crítica que fazia a Igreja Católica se opor à modernidade. A crítica passa a ser em favor dos direitos do homem, e não mais em favor do tradicionalismo. O resultado foi previsível: a estratégia encontra limites insuperáveis e certamente vai falir. Esta foi a conclusão que Hervieu-Leger chegou em sua análise, e esta se consumou. A estratégia católica não deu certo, a mesma perde o espaço hegemônico que tinha para os neopentecostais. O Censo de 2000 já mostrava que o número de católicos vinha diminuindo consideravelmente, concomitante ao crescimento de neopentecostais e dos sem religião, e o Censo 2010 consuma esse abismo nos números.

 

Os efeitos da modernidade foram combatidos pelo Vaticano sob a liderança carismática de João Paulo II, a partir de uma estratégia que favoreceu os direitos do homem, e não mais o tradicionalismo, e que não deu certo

 

Ainda, segundo Pace (1999), a religião é influenciada pelos efeitos da globalização. De acordo com o autor, a globalização  é um processo de decomposição e recomposição da identidade individual e coletiva que fragiliza os limites simbólicos dos sistemas de crença e pertencimento. Observando a religião a partir desse ponto de vista, ela está em crise como fonte de imagens, estáveis e distribuídas no tempo, do mundo em que uma autoridade religiosa reconhecida enquanto tal entrega de geração em geração os mecanismos de reprodução do capital simbólico, que são protegidos por uma religião graças ao trabalho incessante de seus pensadores.

 

Ao falar de globalização, Pace (1999) faz um confronto entre a religião e a modernização das sociedades. Essa modernização reflete no interior da religião faz com que ela modifique seu discurso, amenize suas assertivas e passe a fazer uma comunicação mais simples com objetivo de conquistar um público maior, que desconhece a teologia e que está mais preocupado com as questões relacionadas com o dia a dia.

 

A globalização é um processo de decomposição e recomposição da identidade individual e coletiva que fragiliza os limites simbólicos dos sistemas de crença e pertencimento

 

Em suma, os efeitos da pós-modernidade (ou da globalização) atuam na expansão do neopentecostalismo, e em especial na IMPD, que é uma produtora de bens religiosos diversos, uma espécie de empresa, que tem sua clientela própria. E como é próprio de qualquer empresa, não é possível fidelizar os seus clientes.

 

As novas igrejas que são criadas a todo o momento produzem o que chamamos de trânsito religioso, que é essa “andança” dos fiéis entre mais de uma igreja ou religião, em busca de determinados bens religiosos. Os autores pesquisados julgam como trânsito religioso o tráfego de fiéis entre todas as religiões de forma geral. No entanto, o entendimento desse trânsito religioso não deve ser tão generalizado. O universo neopentecostal é, de certa forma, comum a todas as igrejas que se enquadram no mesmo segmento. Se o fiel trafega por igrejas dentro de um mesmo universo, esse trânsito se limita a ser apenas institucional ou interdenominacional, e não inter-religioso.

 

**Aron Édson Nogueira Giffoni Barbosa é bacharel (Antropologia), licenciado em Ciências Sociais e mestrando em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. E-mail: arongiffoni@hotmail.com

Adaptado do texto “As traquinagens da modernidade na religião”

Fotos: Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 43