O grande empreendedor brasileiro

A história do Barão de Mauá como fio condutor de compreensões históricas e sociológicas: personagem foi imprescindível para o surgimento da ideia de modernização das forças produtivas no país e sua trajetória é exemplo de luta contra as adversidades da vida e modelo de empreendedorismo

Por Yago Junho* | Fotos: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

É senso comum a afirmação de que o Brasil é um país que não tem memória. Convenhamos que é forçoso reconhecer que esta máxima tem lá o seu fundo de verdade. Há 200 anos, no dia 28 de dezembro de 1813, na estância de Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, nascia Irineu Evangelista de Souza. Filho de João Evangelista de Ávila e Souza e de Mariana Batista de Carvalho, o futuro Barão de Mauá. Um personagem ainda, e injustamente, periférico em nossas reflexões históricas e sociológicas. Sua história é fundamental para se compreender o desenvolvimento econômico e social do país. Foi imprescindível para o surgimento da ideia de modernização das forças produtivas de nossa grei. Sua trajetória é um exemplo de luta contra as adversidades da vida. Tornou-se, com sua perseverança, o primeiro e maior empreendedor brasileiro.

 

Os primeiros dissabores de sua existência começaram muito cedo. Quando tinha 6 anos, em 1819, seu pai é assassinado, vítima de ladrões de gado. Três anos depois, vê sua mãe casar-se novamente. Seu padrasto, João Jesus da Silva, não aceitou que o menino ficasse em casa por ser filho de outro homem. Aos 9 anos, Irineu Evangelista de Souza é expulso de seu próprio lar. Em 1823 deixa os pampas com um tio materno e vai para o Rio de Janeiro para trabalhar em uma casa comercial de João Rodrigues Pereira de Almeida. Aliás, o comércio era a única carreira com a qual podiam sonhar os jovens das camadas sociais mais baixas da sociedade carioca. O menino Irineu começa sua atividade profissional como caixeiro, o equivalente, atualmente, ao office-boy.

 

Mauá, em avançada idade: tentativas de conter o seu sucesso não impediram novas vitórias

Entretanto, Irineu Evangelista de Souza começa desde essa época a fazer diferença. Com uma inteligência fora do comum e dotado de uma força de vontade impressionante para uma criança, logo se familiariza com todas as atividades da firma em que trabalhava. Não demora muito e foi promovido a caixeiro de escritório – nessa nova função é responsável pela correspondência e escrituração de todas as compras e pagamentos efetuados. No novo posto, tinha de ter conhecimentos sólidos em contabilidade, em cálculo de juros, no mecanismo de funcionamento dos créditos e, não raro, conhecer outras línguas. Desenvolveu com isso uma sensibilidade apurada para perceber o valor dos estudos. Dada a eficiência demonstrada, foi promovido novamente, agora para guarda-livros, o chefe da tesouraria e da contabilidade.

 

O senhor Pereira, como era chamado pelos seus empregados, foi um comerciante de renome no Rio de Janeiro nos primeiros 30 anos do século XIX. Além de comerciante, era banqueiro, armador e possuía certa influência nos meios políticos da corte. Tanto é que, quando D. João VI decidiu fundar o Banco do Brasil, um dos nomes a quem recorreu para a capitalização foi o do senhor Pereira, que passou a ser um dos maiores acionistas daquela instituição. Mas sua principal atividade, a que lhe proporcionava maiores lucros, era o comércio de escravos. Justamente em razão de um monumental prejuízo, dada a apreensão de vários de seus navios com quantidade enorme de negros, entra em falência. Nesse momento difícil de negociação com os credores e de cobrança dos devedores, aparece pela primeira vez Irineu Evangelista de Souza, então com 15 anos.

 

O adolescente traçou toda a estratégia de salvamento do comerciante. Começou a negociação com os credores, postergando ao máximo o prazo para pagamento. Com os devedores reduziu ao máximo o prazo para que liquidassem os débitos. Assim, o jovem foi conseguindo cumprir rigorosamente em dia a palavra empenhada com os credores. Entre esses credores estava um escocês chamado Richard Carruthers, que era proprietário de uma empresa especializada em importação e exportação. Irineu negociou com Carruthers um prazo de um ano para quitação das dívidas de seu patrão. E no dia estipulado levou todo o dinheiro. O escocês ficou impressionado com a responsabilidade do menino, ainda mais em um país onde os maiores devedores, sob a proteção do nome e dos títulos da realeza não se preocupavam muito em pagar suas dívidas.

 

Finda uma etapa de aprendizado, inicia-se outra e, em 1829, Irineu é contratado pela empresa de Richard Carruthers. Na nova firma só se falava inglês e os costumes e as regras eram todos europeus. Por essa razão, aprende a língua e se familiariza com a literatura da economia clássica. A partir daí adota o figurino inglês, nas roupas, no jeito de falar, nos hábitos, e adere de corpo e alma à filosofia utilitarista. Ou seja, torna-se um “desajustado” em sua própria sociedade. Dá ainda mais valor ao trabalho como meio de prosperar na vida e passa a entender a importância do crédito para fazer girar a economia. Adquire, ainda, aversão a qualquer tipo de intervenção estatal que cause empecilho ao livre comércio e ao fluxo de capitais e, em 1° de janeiro de 1836, entra para a maçonaria, que lhe abre as possibilidades de entendimento da estrutura e do funcionamento do poder.

 

Claro que essas concepções chocavam-se frontalmente com as idéias dominantes na sociedade brasileira. O Brasil era um país agroexportador cuja economia se assentava no tripé monocultura, latifúndio e trabalho escravo. As relações sociais baseavam-se nas trocas de favores e o trabalho era visto como algo extremamente degradante, coisa de negros. Em um mundo em que o status social conferido aos possuidores de títulos nobiliárquicos era o que realmente importava, a atividade nobre por excelência constituía-se no mando.

 

A estratificação da sociedade era relativamente simples: no topo, a elite agrária, com a consequente influência política, uma pequena “classe média” e a massa escrava. O grosso da riqueza ficava nas mãos dos comerciantes de escravos. Como consequência dessa estruturação econômica e social, o mercado interno brasileiro era reduzidíssimo. Pouquíssimas pessoas tinham poder de compra. Além disso, a mão de obra para outras atividades que não as agrícolas era mínima e sem nenhum preparo. Por fim, a elite dirigente do país se gabava de nossa vocação imutável para a agricultura. Portanto, idéias como livre comércio, créditos para a produção, pontualidade dos pagamentos, meritocracia, abolicionismo, busca de lucros através do trabalho eram heresias aos ouvidos dos “bem nascidos” de nossa pátria. Para que se envolver com coisas que não nos dizem respeito como a industrialização, por exemplo? Isso não é para o Brasil mas sim para os ingleses. Melhor aproveitar o que o país tinha de melhor. Nada de mudanças que pudessem desfazer os privilégios das camadas encasteladas no poder.

 

Em 1840, Irineu Evangelista de Souza já tinha deixado de ser funcionário de Richard Carruthers – era seu sócio. O escocês tinha regressado ao seu país e no final do mesmo ano Irineu fez sua primeira viagem à Inglaterra. Essa viagem deixa profundas marcas no jovem proprietário da firma de importação e exportação. Definitivamente converte-se num defensor indomável da industrialização como o verdadeiro motor do desenvolvimento econômico de um país.

 

Novos rumos
Casado com Maria Joaquina de Souza, Mauá construiu um império com base em inovações

Sob o impacto da Revolução Industrial, do desenvolvimento movido a carvão, ferro e máquina à vapor, Mauá regressa ao Brasil em 11 de abril de 1841. Casa-se com sua sobrinha Maria Joaquina, a quem por toda vida chama carinhosamente de May. Teve 18 filhos, porém só 6 chegaram à vida adulta. Mas os ventos das mudanças não sopraram apenas sobre sua condição civil. Decidiu mudar suas atividades, do comércio para a indústria. A oportunidade para a concretização dessa mudança veio em 1844, quando o ministro da fazenda Manuel Alvez Branco conseguiu aprovar uma lei que elevava as alíquotas dos impostos de importação do patamar de 15% para 30% e, dependendo da mercadoria, a taxação chegava a 60% (CALDEIRA, 1995). Com isso, ele elevou a arrecadação do Estado para fazer frente à grave crise de caixa que o governo então atravessava.

 

Com sua excepcional capacidade de enxergar oportunidades, Irineu Evangelista de Souza percebeu que era o momento certo de trocar os rumos de sua vida. Liquidou a firma de importação e exportação em um momento em que os lucros não paravam de crescer. Para os medianos isso representava uma loucura. Mas com o dinheiro que levantou em 1846 comprou o Estaleiro Ponta de Areia. Nessa fundição, a avó da CSN, passa a produzir tubos metálicos que serviram para a canalização do Rio Maracanã; pontes, navios, pregos, peças para engenhos de cana-de-açúcar, sinos etc. (CALDEIRA, 1987). Mas a montagem da empresa não foi fácil. Primeiro, pela falta de mão de obra, segundo, pelo reduzido mercado interno e, terceiro, pela dificuldade de encontrar créditos para financiar a produção. Aos poucos o neófito industrial foi obtendo sucesso e vislumbrando outras possibilidades de investimento.

 

Sem escravos

Outro acontecimento histórico que veio a favorecer o espírito empreendedor de Irineu foi a proibição, em 1850, do tráfico de escravos. Ele, mais uma vez, viu uma brecha para abrir mais um negócio onde a maioria das pessoas se preparava para o fim do mundo. Com a abundância de capital, que não tinha mais na compra de escravos o seu destino, o industrial teve a brilhante ideia de reuni-lo e abrir um banco, que teria como uma de suas funções, e a mais importante, fornecer créditos à produção. Em 2 de março de 1851 funda o Banco do Commercio e da Industria no Brasil. Segundo Caldeira (1995, p. 227), “[…] o banco seria o centro de uma operação de progresso: juntar capital de terceiros, financiar a formação de grandes empresas, desenvolver o país […]”.

 

No ano seguinte, atendendo a um pedido do governo brasileiro, funda mais uma empresa: a Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas. Essa companhia foi aberta para impedir que a cobiça dos norte-americanos pela Amazônia se concretizasse. Uma fundição, um banco e uma companhia de navegação. Irineu já era um dos homens mais ricos do Império. Poderia ter parado aí, mas seu espírito inquieto queria mais e se preparou para um de seus feitos mais notáveis. Numa época em que nem se ventilava a necessidade de fazer plano de negócio para verificação da viabilidade de um empreendimento, esses estudos já eram uma prática corriqueira para o industrial. Preparou com muito cuidado seus estudos, articulou politicamente e conseguiu uma concessão para construir uma ferrovia no Brasil. No dia em que os trabalhos iniciaram, Dom Pedro II bateu o primeiro prego da estrada. Não deixa de ser irônico: pela primeira e única vez na vida o imperador pegou no pesado.

 

D. Pedro II: imperador esteve presente no início dos trabalhos para construir uma estrada férrea no Brasil

Depois de muitas lutas, muitos problemas, no dia 30 de abril de 1854 foi inaugurada a estrada férrea no Brasil. A linha ligava uma unidade produtora do café Serra da Estrela ao porto de Mauá, na baía de Guanabara. Por conta desse feito, Irineu Evangelista de Souza se transforma em Barão de Mauá. Não satisfeito, três meses depois, exatamente em 31 de julho de 1854, consegue atrair 182 investidores para criar a Mauá, Mac Gregor & Companhia, uma firma de captação de capitais estrangeiros para investimento na produção. Pouco depois traz a iluminação à capital do Brasil com a Companhia de Iluminação a Gás do Rio de Janeiro. E ainda funda o Banco Mauá e leva um braço dessa instituição à Inglaterra, depois à França, Argentina e, principalmente, ao Uruguai.

 

Um dado interessante, a região do Rio da Prata sempre foi um lugar de muita instabilidade política nos idos do século XIX. Mauá sempre esteve presente em Montevidéu, primeiro em razão de outro pedido do governo brasileiro, para que financiasse o governo de André Lamas na defesa de Montevidéu, contra as investidas do ditador argentino Juan Manuel Rosas. Segundo porque acreditava que através do desenvolvimento econômico da região era possível acabar com as disputas políticas e promover a paz. Nessa altura, o Barão de Mauá já era o homem mais rico do país. E isso despertou a inveja e a ira dos grandes proprietários de fazendas, que tinham muita influência na política nacional. Dois dos mais terríveis inimigos do industrial foram o senador Itaboraí e Zacarias de Góes. Quando estavam à frente do Gabinete fizeram de tudo para frear o desenvolvimento das atividades do Barão de Mauá. Promulgaram leis que limitavam o poder das indústrias e permitiam até mesmo que o governo interviesse nelas, se achasse necessário. Promoveram a Quebradeira de bancos particulares com boatos, inclusive um dos bancos de Mauá. Estatizaram os créditos e limitaram a liberação deles via Banco do Brasil. E, ao mesmo tempo em que dificultavam a vida do Barão de Mauá, facilitavam para os bancos e empresas inglesas. O que era negado para Mauá era concedido aos ingleses.

 

Crise

Os problemas do Barão de Mauá começaram com a crise bancária no Uruguai no ano de 1868, que quase levou à liquidação do seu banco. A liquidação não veio, entretanto as finanças ficaram comprometidas. Ao mesmo tempo, outra crise de dimensões consideráveis abalou os negócios do Barão de Mauá. Na construção da estrada férrea Santos-Jundiaí, associou-se a empresários e banqueiros ingleses, mas financiou praticamente sozinho o empreendimento. Quando cobrou a parte que cabia aos ingleses, eles se recusaram a pagar. A disputa judicial se arrastou por anos, até que a justiça brasileira, em uma decisão absurda, alegou que o caso não poderia ser julgado no Brasil. Ora, uma obra no Brasil, um brasileiro arcou com os investimentos e o caso não poderia ser julgado aqui? Falou mais alto a pressão dos ingleses e a subserviência dos governantes locais.

 

Primeira ferrovia brasileira, construída no Estado do Rio de Janeiro, ganhou o nome de Estrada de Ferro Mauá

 

Mesmo o abalo não o impediu de fundar no Uruguai a Companhia Agrícola Pastoril. Empresa agrícola para fornecer carnes conservadas. Aliás, muito interessante essa história. Mauá tinha o hábito de premiar pessoas que desenvolvessem invenções que pudessem contribuir para o desenvolvimento da indústria. Um desses prêmios foi justamente para uma pessoa que criou uma maneira de conservar carnes, o que, até aquele momento, era um problema, pois não havia nenhuma técnica que viável comercialmente. Por essa época também viabilizou junto a investidores a construção de um cabo telegráfico submarino que ligou o Brasil ao resto do mundo, o que lhe garantiu o título de Visconde, concedido por D. Pedro II.

 

O tiro de misericórdia veio em 1874 com outra crise bancária no Uruguai que fez com que se desencadeasse uma torrente de saída de capitais das empresas do Barão de Mauá. Sem condição de pagar todos os credores, ele decretou falência. Mas, dado ao seu mandamento número um, de que todas as dívidas devem ser pagas, pagou uma a uma. Levou quase cinco anos e de novo teve seu nome restituído. Mauá tornou a ser um dos homens mais ricos do Brasil. Ao todo, foram 17 empresas espalhadas pelo mundo; dono de uma infinidade de terras; mais de 100 mil cabeças de gado; uma fortuna que equivalia a 60 bilhões de dólares; lutou contra os governantes de mente estreita, junto a inúmeros partidos, em jornais e no parlamento, como deputado – venceu, perdeu e tornou a vencer. Morreu em 21 de outubro de 1889.

 

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Sociologia Ciência & Vida Ed. 45

*Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora, professor de Sociologia, Antropologia e Metodologia de Pesquisa na FAI – Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação em Santa Rita do Sapucaí – MG