O marxismo de István Mészáros

O filósofo húngaro discute a crise estrutural do capital e as possibilidades de emergência de uma sociedade alternativa

Por Maysa Rodrigues | Foto: Ana Yumi Kajiki | Adaptação web Isis Fonseca

istván mészáros

Considerado um dos principais pensadores marxistas da atualidade, István Mészáros esteve no Brasil em junho. Quatro capitais brasileiras (São Paulo, Salvador, Fortaleza e Rio de Janeiro) receberam o professor emérito de Filosofia da Universidade de Sussex, que apresentou a conferência Crise estrutural necessita de mudança estrutural. As palestras fizeram parte do evento de lançamento de dois novos livros do autor no País: István Mészáros e os desafios do tempo histórico e Estrutura social e formas de consciência.

Durante as conferências, o marxista húngaro defendeu que a crise econômica mundial iniciada em 2007, com a explosão da bolha imobiliária nos Estados Unidos, e que assolou o mundo em 2008, muito além de algo pontual, estaria associada a uma tensão estrutural do capitalismo, que necessita de respostas com a mesma abrangência, se a humanidade desejar superar as inúmeras ameaças à sua existência – como as armas de destruição em massa e o impacto destrutivo do capitalismo sobre a ecologia.

Na entrevista que segue, o filósofo desenvolve a sua crítica e argumenta que, apesar das experiências históricas negativas, o futuro da humanidade estaria no
socialismo. Porém, admite a dificuldade na transformação que exigiria uma erradicação completa daquilo que chama de sistema metabólico do capital.

Em para além do capital, o senhor propõe uma distinção entre capitalismo e capital, de forma que o segundo poderia se manter ainda que houvesse uma revolução que acabasse com o estado capitalista. Como compreender essa distinção? E como seria possível a criação de um modo de produção verdadeiramente livre do capital?

Marx chamou seu trabalho “capital” e não “capitalismo” por uma boa razão: “capital” é uma categoria histórica dinâmica e a força social a ela correspondente aparece vários séculos antes da formação social do “capitalismo”. Era de interesse de Marx aprender as especificidades históricas das várias formas do capital e suas transições de uma a outra, até chegar (e não se limitar) ao capital industrial que se tornaria a força dominante do metabolismo socioeconômico e definiria a fase clássica da formação capitalista.

Ir para além do capital significa superar o modo de controle do capital como sistema orgânico: uma tarefa só possível como empreendimento global. É impossível
simplesmente “abolir” o capital. O projeto socialista, porém, parte da premissa de que há uma alternativa ao capitalismo. Define as condições de criação dessa alternativa como uma forma de ação em que o momento de negação adquire seu significado pelos objetivos positivos que acarreta.

De modo que, citando Marx, os indivíduos associados ao projeto socialista podem mudar totalmente as condições de sua existência industrial e política e, consequentemente, toda a sua maneira de ser. Também a ofensiva socialista não pode ser levada à sua conclusão positiva, a menos que a política radical tenha êxito em prolongar seu momento e seja capaz de instaurar as políticas requeridas pela magnitude de suas tarefas.

O único caminho, entretanto, no qual o momento histórico da política radical pode ser prolongado e estendido – sem recorrer a soluções ditatoriais – é fundir o poder de tomada de decisão política com a base social da qual ele foi alienado durante tanto tempo, criando, por esse meio, um novo modo de ação política e uma nova estrutura – determinada genuinamente pela massa – de intercâmbios socioeconômicos e políticos.

Essa perspectiva traz problemas…

Sim, mas a transformação social prevista pela visão marxista deve ser capaz de avaliar as dificuldades inerentes à própria magnitude das tarefas a serem realizadas, como também enfrentar as contingências sócio-históricas mutáveis e inevitáveis, reexaminando as proposições básicas da teoria original e, se necessário, adaptando às novas circunstâncias.

No mesmo livro, o senhor exa­mina o capitalismo no contexto atual. Quais são as suas especi­ficidades em relação à socieda­de analisada por Marx?

Em várias ocasiões, argumentei, mas não realcei suficientemente, que o objeto da crítica de Marx não era o capitalismo, mas o capital. Ele não estava preocupado em demonstrar as deficiências da produção capitalista, mas imbuído da grande tarefa histórica de livrar a humanidade das condições sobre as quais a satisfação das necessidades humanas deve ser subordinada à “produção do capital”.

Ou seja, livrar a humanidade das condições desumanizadoras sobre as quais ganham legitimidade apenas aqueles valores de uso, não importa quão desesperadamente necessários, que possam caber na camisa de força dos valores de troca lucrativamente produzidos pelo sistema. Em termos históricos, podemos identificar conjuntos de determinações que permanecem incorporadas à constituição estrutural do sistema do capital, como se fossem “camadas geológicas” ou “arqueológicas”.

Cronologicamente, a mais recente pertence à fase capitalista do desenvolvimento, que se estendeu apenas pelos últimos 400 anos. Temos o capitalismo porque o capital se impôs, com sua força, o seu poder econômico. As especificidades de nosso tempo, citadas em meus livros, diferem das circunstâncias históricas em que Marx se encontrava, mas ambas se inscrevem no sistema do capital.

Por exemplo, o sistema pós-capitalista (o tipo soviético de reprodução social) não pode ser caracterizado como produção generalizada de mercadorias, que extrai o trabalho excedente e o regula por meios econômicos, por sua conversão em mais-valia e acumulação de capital. É por isso que Gorbachev e seus seguidores tiveram de restaurar o capitalismo a fim de instituir sua quimera de “socialismo de mercado”, o que obviamente não deu em nada.

Sob o sistema do capital pós-capitalista a dominação do capital sobre o trabalho continua sob a forma de extração do trabalho excedente pela via política, por meio de um órgão hierarquicamente distinto, e não por sua extração econômica e conversão em valor excedente a ser atribuída pelas “personificações do capital econômico” e do mercado (a famosa “mão invisível” de Adam Smith). Os países capitalistas avançados são os mais destrutivos e em muitos aspectos nos trazem de volta à condição da barbárie.

A tendência é sempre resolver os problemas com guerras e destruições. Na Primeira Guerra, os aliados saíram vitoriosos, mas criaram Hitler. Além disso, a tendência do “capitalismo avançado” é a metamorfose de sua fase do pós-guerra caracterizada pelo “Estado do bem-estar” (com sua ideologia de “benefícios universais de previdência” e a concomitante rejeição da “avaliação da rentabilidade”), em sua nova realidade de “previdência social dirigida”: a designação atual da avaliação da rentabilidade, com suas cínicas pretensões de “eficiência econômica” e “racionalidade”, adotadas até pelo antigo adversário social-democrata sob o slogan de “novo realismo”.

Adaptado de Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 36!