O marxismo no Brasil

Apesar de ter nascido em uma família poderosa, o intelectual Caio Prado Jr. adotou uma postura autêntica e desenvolveu uma nova forma de pensar a formação da nação brasileira

Por Carlos Eduardo tauil* | Foto: Agência Brasil | Adaptação web Caroline Svitras

A história do marxismo no Brasil é correlata à vida de Caio Prado Jr. (1907-1990). Além de ter sido um dos primeiros intelectuais a revolucionar a interpretação da história brasileira, o autor, em questão, a fez sob um ponto de vista ideológico e metodológico, extremamente inovador para seu tempo. Caio Prado Jr., ao lado de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, pertenceu ao seleto grupo que foi chamado de os intelectuais da geração de 30. Porém, o que nos chama a atenção foi sob qual influência e com quais métodos o autor desenvolveu seus estudos, inserindo a história brasileira dentro do contexto de acontecimentos internacionais – conforme veremos adiante, levando em conta que as obras de Marx no Brasil, do início do século XX, eram praticamente inexistentes.

 

Caio Prado Jr. nasceu no seio de uma família muito poderosa no cenário brasileiro do século XIX. Seu avô paterno, Martinho da Silva Prado Jr., foi um dos maiores exportadores de café do Brasil no final do século XIX. Em sua infância, o autor foi beneficiado com a educação que se dava aos membros da oligarquia nacional. Gozava de todos os privilégios da elite paulistana. Morava em bairro nobre da cidade de São Paulo, passava férias nas fazendas da família no interior do estado e, por vezes, fazia viagens à Europa. Em 1922, formou-se no tradicional Colégio São Luiz, localizado na famosa avenida Paulista. Na adolescência, assistiu à polêmica Semana de Arte Moderna de 1922 – evento financiado, em parte, por um primo de seu pai. Entre os anos de 1924 e 1928, estudou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, que, futuramente, seria incorporada à Universidade de São Paulo (USP).

 

No entanto, nenhum desses fatos seria decisivo para evidenciar a transformação que o jovem herdeiro de uma das maiores fortunas brasileiras do início do século XX iria enfrentar. Seu interesse pela política e desejo por compreender o Brasil surgiu de forma quase natural (Secco, 2008, p. 27)

 

Foto: Shutterstock

A única característica, que levaria a suspeitar de qualquer relação de estudo/militância que o autor admitiria para sua vida, é a de que Caio Prado Jr. era um viajante por natureza. Ao longo de sua vida, conheceu diversos países e fez questão de conhecer o Brasil in loco. Essa vontade natural de tomar contato com os alicerces da formação
nacional brasileira conduziu o autor a um ambicioso projeto de interpretá-la, sob uma perspectiva, até então, inédita. Já em 1926, o autor participou do I Congresso de Estudantes de Direito e expôs sua tese sobre as influências da economia política na realidade do país. O intelectual teve seu primeiro contato com a obra O capital, de Marx, apenas em 1932 e, no ano seguinte, publicou sua primeira obra, Evolução política do Brasil, revelando a influência do materialismo histórico de Marx em suas análises. É valioso salientar que, até os anos 60, o marxismo brasileiro obedecia, via Partido Comunista, basicamente, a produção teórica autorizada pela URSS. Caio Prado Jr. foi uma exceção no cenário marxista dos anos 30. Sua condição social lhe dava acesso a textos pouco propagados de Marx e Engels, além dos documentos oficiais oriundos da URSS.

 

Até o início do século XX, havia poucas reflexões históricas com influências do método científico de Marx. Portanto, as análises reguladas, por meio de documentos autorizados pela URSS, eram o que se podia aspirar de intelectuais com orientação marxista (Iumatti, 2007, p. 18).

 

A infindável busca pela compreensão da formação nacional brasileira conduziu Caio Prado Jr. a aderir ao Partido Comunista (PC) em 1931. Com a militância no PC e sua proximidade com a política de fato, a produção do autor começou a ganhar prestígio com a intelectualidade daquele período. Em 1942, Caio Prado Jr. publicou sua obra de maior reconhecimento, A formação do Brasil contemporâneo, e se tornou, definitivamente, um intelectual respeitado na academia brasileira. Logo após, em 1945, publicou A história econômica do Brasil e consolidou seu nome entre os maiores pensadores da história brasileira.

 

Marxismo acadêmico no Brasil

 

Em 1947, foi eleito deputado estadual pelo PC, mas, logo em seguida, teve seu mandato cassado – junto com o registro do PC –, em 12 de janeiro de 1948. Essa cassação teve papel fundamental na vida de Caio Prado Jr., pois lhe serviu de aprendizado dos limites de um regime que se dizia democrático. Após esse período, o autor esteve recluso e atento aos fatos políticos, embora mais ligado aos estudos. Nessa época, publicou obras relevantes, como Dialética do conhecimento, de 1952, Diretrizes para uma política econômica brasileira, de 1954, e Fundamentos da teoria econômica, de 1957.

 

Após alguns anos distante da academia e militância, voltou a escrever e participar, efetivamente, do PC, no período subsequente ao golpe de 1964. Em 1966, escreveu A revolução brasileira, proferindo duras críticas ao programa comunista brasileiro e propondo medidas para que fosse superada a questão que permeou toda sua produção teórica: a herança colonial e a autêntica formação nacional brasileira. Em 1977, escreveu sua última grande obra, A questão agrária, e depois se recolheu, definitivamente, publicando pequenos livros e artigos, até sua morte, em 1990, aos 83 anos.

 

Militância política no PC
Caio Prado Jr. | Foto: Divulgação

Com sua filiação ao PC, em 1931, Caio Prado Jr. se firmou como um dos mais importantes intelectuais marxistas do país. Logo no ano seguinte de sua filiação, em 1932, o autor já se mostrou um militante ativo e cumpriu uma série de atividades políticas e culturais, por meio do partido. Neste momento, se apropriou da leitura sobre economia e Marx. Vale lembrar que, na década de 30, o PC comprou as principais obras de Marx, Engels e Lênin, e, só a partir de então, essas obras começaram a ser disseminadas para grupos restritos de intelectuais brasileiros.
Nessa época, Caio Prado Jr. participou de diversos encontros com operários, jornalistas e pensadores paulistanos. Colaborou, também, com publicações e financiando revistas e jornais marxistas.

 

No mesmo ano de sua filiação, o principal fundador do PC, Astrogildo Pereira, foi expulso do partido, por divergências com a doutrina imposta pelos congressos, realizados na URSS, a partir da década de 1920 – chamados de Internacional Comunista (IC). O PC brasileiro acatava todas as normas e definições da IC. Caio Prado jr. corroborou as mesmas divergências de Astrogildo Pereira e partiu, desde cedo, para interpretar a realidade brasileira sem se deixar influenciar pelos fundamentos da IC.

 

O PC brasileiro aceitava, de bom tom, a tese de um passado feudal da história brasileira e apregoava o etapismo, passando pela revolução burguesa, para que o desenvolvimento nacional se desse na direção do socialismo. Em 1933, Caio Prado Jr. escreveu: “É um critério absolutamente errado este de procurar enquadrar artificialmente os fatos brasileiros nos esquemas que Marx traçou para a Europa” (carta existente no Centro de Documentação e Memória da Unesp – Cedem). Naquele momento, praticamente não havia literatura marxista e os dirigentes do PC não podiam se proclamar apropriados das teorias marxistas. É de suma importância salientar que, apesar de o PC se apresentar como um partido de operários, seus líderes eram, majoritariamente, intelectuais e membros da pequena burguesia.

 

Apesar de toda militância, Caio Prado Jr. nunca foi unanimidade no PC. Em novembro de 1932 – um ano após sua filiação –, Caio Prado Jr. foi acusado, pelo Comitê Regional do PC, de querer fundar um jornal “pequeno-burguês”, de ter vínculos trotskistas, de organizar cursos marxistas e de estar se preparando para dar um golpe de estado dentro do partido.

 

A busca pela compreensão da formação nacional conduziu o pensador a aderir ao Partido Comunista, em 1931. A militância e a aproximação com a política o fizeram prestigiado junto aos intelectuais da época | Foto: Divulgação

 

 

Fica claro que, desde o início de sua participação política no PC, sua linha de pensamento não estava alinhada com o direcionamento dado pela IC, mas, citando Lênin e a experiência russa, o autor contestou seus acusadores, mas mostrou uma vontade de permanecer no partido. Isto é, Caio Prado Jr. escreveu suas obras durante os anos 30 e 40, sem se deixar dominar pela interpretação oficial do PC. Ele rejeitava a análise da IC e do PC sobre o passado feudal brasileiro e seu modelo revolucionário. Ele opôs uma análise do Brasil e um projeto revolucionário, onde não falou de feudalismo nem de revolução democrático-burguesa, mas de pré-capitalismo e revolução permanente, que desembocaria, em longo prazo, no socialismo, sem a etapa intermediária da transição ao capitalismo, que seria desnecessária, pois o Brasil já era capitalista desde a origem (Prado Jr., 1966, p. 31).

 

Esse enfrentamento ideológico entre Caio Prado Jr. e o PC se deu, praticamente, durante toda relação entre partido e filiado. O PC não expulsou Caio Prado Jr., assim como fez com diversos outros militantes, por ter, no autor, um dos intelectuais mais respeitados na época e, também, pelo nível de militância que Caio Prado Jr. tinha com o partido – financiando muito das atividades do Partido Comunista, inclusive após a cassação de seu mandato como deputado estadual, em 1947, junto com o registro do PC. Da mesma forma, ele não se desfiliou do partido por acreditar que somente com a articulação partidária, aplicada na dimensão do sistema sociopolítico-econômico vigente no país, é que poderia atingir as condições necessárias para uma transformação socialista no futuro. Isto é, apesar de nunca ter sido expulso ou rompido com o PC, ele aceitou a disciplina interna, mas permaneceu sempre com uma postura crítica, conforme seus pensamentos.

 

Sobre a consciência de classe

 

A relação entre Caio Prado Jr. e o PC só se abalou, publicamente, quando, em 1966, o autor publicou A revolução brasileira, dando uma resposta à esquerda brasileira e fazendo uma dura crítica ao partido. Afinal, os militares, junto com as forças nacionalistas e trabalhistas, derrotaram o marxismo dogmático imposto pelo PC.

 

Ideologia e método

 

Como já mencionado acima, Caio Prado Jr. assumiu como um erro brutal querer transferir para a realidade brasileira as interpretações históricas que Marx escreveu para a Europa. Por ter viajado pelo país, de ponta a ponta, e ter conhecido a realidade brasileira como poucos, o autor tinha convicção de que o Brasil não reunia condições de realizar a revolução burguesa como etapa anterior ao socialismo. O objeto central para ele era compreender a formação brasileira por meio da “herança colonial” e da “formação nacional”. Caio Prado Jr. pode ser considerado como exemplo bem-sucedido de assimilação e recriação de um conjunto de ideias dentro do marxismo brasileiro. Mapear os conceitos e estruturas da histórica brasileira e assimilar como se articulam, com a perspectiva política mobilizada, foram o foco da pesquisa do autor.

 

O avô do autor, Martinho da Silva Prado Jr. (à dir.), foi um dos maiores exportadores de café do Brasil, no final do século XIX | Foto: Wikimedia Commons/Lincolnbs

 

 

O prelúdio da ideologia marxista de Caio Prado Jr. nasce, organicamente, de sua visão como historiador e no encalço, constante, pela busca em compreender a formação nacional brasileira. Como resultado, o autor trouxe as possibilidades de mudanças dentro do processo histórico, sob o ponto de vista marxista, isto é, a sua investigação se concentrou num objeto específico, contextualizado em um todo mais vasto. Sua abordagem permite interpelar quais os movimentos de construção do seu objeto – a “herança colonial” e “formação nacional”, sob o ponto de vista marxista – como tentativa de diagnosticar e resolver problemas materiais.

 

Portanto, o marxismo presente nas obras de Caio Prado Jr. não foi concebido à luz de uma aliança com a burguesia para cumprir uma etapa da revolução socialista. O entendimento dele se deu pela necessidade em abstrair os dogmas do PC e da IC para compreender e analisar a realidade nacional. Logo, o autor percebeu e divergiu do PC, ponderando que a formação nacional emanou no próprio nascimento do capitalismo europeu. Desde sua primeira obra, Evolução política do Brasil, e, de forma mais aprofundada, em Formação do Brasil contemporâneo, o autor entendeu que a formação histórica brasileira permeava a lógica capitalista inserida na dinâmica dos acontecimentos internacionais.

Confira a entrevista com um sociólogo sobre o marxismo

 

O objetivo de Caio Prado Jr. era entender o fato de que as formas de produção, instaladas no Brasil, tinham como principal missão abastecer os mercados dos países europeus com produtos de gênero primário – toda formação nacional brasileira obedecia essa dinâmica. Portanto, ele não formulou um método para aplicá-lo à história brasileira, mas adaptou o método marxista e, por seu intermédio, buscou, na generalidade dos fatos históricos, a compreensão da realidade específica brasileira.

 

A grande inovação de Caio Prado Jr., na interpretação da realidade brasileira, se deu pelo fato de o autor, primeiro, situar a chegada dos portugueses em terras tupiniquins, incorporado no quadro geral do comércio europeu para, depois, buscar concluir como as estruturas internas brasileiras funcionaram. Assim, seu objeto de estudo foi o resultado de uma investigação empírica, contextualizada no materialismo histórico brasileiro.

 

*Carlos Eduardo Tauil é mestrando em Ciências Sociais pela Unifesp, especialista em Política e Relações Internacionais pela Fespsp, bacharel em Direito pela UniFMU e membro do Grupo de Pesquisa Classes Sociais e Trabalho – Unifesp

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 55

Adaptado do texto “Caio Prado Jr. e o marxismo no Brasil”