O mediador e sua obra

Inicialmente um escrito de ocasião, Anti-Dühring, de Friedrich Engels, tornou-se um dos trabalhos mais importantes do parceiro de teoria e militância política de Karl Marx

Por Ricardo Musse* | Foto: Wikimedia Commons | Adaptação web Caroline Svitras

Mediação incontornável entre a teoria de Karl Marx e os desdobramentos posteriores da tradição marxista, devem-se ao industrial e teórico revolucionário Friedrich Engels (1820-1895) as premissas que possibilitaram a compreensão do marxismo como um todo homogêneo e “orgânico”, como um “sistema” apto a englobar em uma só palavra um método, uma visão de mundo e um programa de ação. A versão legada por Engels, primeira estação de uma série cujas diferentes etapas reivindicam o nome e a tradição do marxismo (mesmo que seja para redefini-la), foi denominada, por ele mesmo, em contraposição ao “socialismo utópico”, de “socialismo científico”.

 

Apoiado no reconhecimento de sua contribuição para a gênese e fundamentação teórica da concepção materialista, ressaltada por Marx em inúmeras oportunidades, Engels se esforçou por atualizar a teoria de acordo com as exigências oriundas das mudanças conjunturais, no que satisfazia, aliás, uma demanda inerente ao próprio caráter do marxismo, assumidamente histórico. Mas também se permitiu avançar, como um desbravador audaz, sobre áreas e fronteiras bastante distantes da configuração delimitada pelos textos que até então constituíram o materialismo histórico.

 

Engels buscou atualizar a teoria marxista, mas também se permitiu avançar sobre áreas distantes da configuração delimitada pelos textos | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/ Fotos Públicas

A ascendência de Friedrich Engels nesse período deve muito a esse trabalho de expansão dos limites do marxismo, desenvolvido mais em função do ambiente intelectual da época, marcado por avanços da ciência e pelo anseio cientificista de ordená-los de maneira enciclopédica, do que propriamente em decorrência de necessidades internas da teoria. Mas também dependeu, em certa medida, da sua posição incontestável (numa época em que a difusão do marxismo processou-se principalmente por meio de textos de divulgação e só esporadicamente pelo contato com as obras do próprio Marx) de principal sistematizador e intérprete do marxismo.

 

A sincronia, e mesmo o embaralhamento, dessa duplicidade de funções, em vez de ser percebida como uma interferência nociva contribuiu, ao contrário, para reforçar a legitimidade da obra de Engels. Na época, a atividade de ordenar em um conjunto sistemático as descobertas do marxismo, o empenho em esquematizar e sumariar um pensamento prenhe de nuanças (contrariando uma exigência da dialética), em suma, a tarefa de divulgação – hoje associada à ideia de empobrecimento – ajudava a corroborar e ratificar o esforço de Engels para ampliar e complementar o materialismo histórico.

 

Sobre a obra de Engels

A primeira obra estruturada segundo esse amálgama foi, sem dúvida, Anti-Dühring. Inicialmente um mero escrito de circunstância, redigido por Engels meio a contragosto para satisfazer um pedido da social-democracia alemã, o conjunto de artigos reunidos no livro tornou-se o primeiro trabalho importante desenvolvido por Engels depois de um interregno de quase duas décadas (1850-1869), dedicado à administração dos negócios da família, em Manchester. O saldo desse exercício crítico, qual seja, a refutação científica e política do sistema do filósofo, economista e crítico do marxismo Eugen Dühring (1833-1921), acabou por mesclar, ainda que em doses desiguais, momentos de simples divulgação, isto é, de interpretação e sistematização, com capítulos dedicados a incursões em novos terrenos, que contribuíram para a expansão da teoria marxista. Nessa medida, Anti-Dühring marca, tanto pela forma quanto pelo conteúdo, um importante ponto de viragem na trajetória intelectual de Engels, inaugurando, numa definição peremptória, a última fase de seu pensamento.

 

Engels justifica, no Prefácio à primeira edição, a ampla extensão dos assuntos ali tratados, como uma necessidade ora inerente à coisa, ou seja, à crítica pontual ao pensamento de Dühring, ora exterior, moldada pelo anseio de se posicionar frente às questões controvertidas da época. Mesmo que se admita uma interseção entre esses dois conjuntos, é possível detectar nas justificativas de Engels certa ambiguidade recorrente. Num extremo, após se desculpar por acompanhar Dühring em regiões em que ele próprio não passa de um mero diletante, atribui isso a uma imposição da crítica imanente. No polo oposto, explica a origem do livro como um esforço para evitar a disseminação de divergências e confusão no âmbito do então recém-unificado partido operário alemão (em cujas páginas de jornal foram publicados textos que compõem o livro), ou então, em chave positiva, como uma ocasião para expor as posições do marxismo acerca dos assuntos mais diversos, sobretudo acerca de questões atuais de interesse científico e prático.

 

Mais reveladora é a explicação para a demanda por uma segunda edição desenvolvida no Prefácio de 1885. Lá, Engels afirma que, ao seguir Dühring por domínios tão amplos, opondo-se ponto a ponto às suas concepções, “a crítica negativa se converteu em crítica positiva, e a polêmica se transformou numa exposição mais ou menos coerente do método dialético e da concepção de mundo comunista defendidos por Marx e por mim, o que ocorreu numa série bastante abrangente de campos do conhecimento” (p. 35). Torna-se evidente assim o empenho em romper com os procedimentos do passado, corporificados nos textos de juventude. O tom polêmico, a negatividade e a crítica imanente que os caracterizam, e que ainda estão, de certo modo, presentes no Anti-Dühring, serão, doravante, substituídos pela exposição positiva, por uma apresentação sistemática e ordenada das ideias, de preferência em uma linguagem acessível.

 

O esforço mimético inerente ao projeto de contestar o “sistema filosófico integral” de Dühring (mesmo que sua obra não passasse no fundo, como afirma Engels, de uma “pseudociência presunçosa”), a necessidade de se defrontar e de opinar sobre quase tudo contribuíram para que, à revelia da intenção do autor, Anti-Dühring e, por extensão, o próprio marxismo, então em processo de delimitação enquanto movimento distinto das demais correntes socialistas, fossem tomados, no mesmo registro das disciplinas burguesas rivais e na acepção própria da época, como um sistema, isto é, como uma teoria unitária do homem e da natureza.

 

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Sociologia Ciência & Vida Ed. 64

*Ricardo Musse é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).

Adaptado do texto “O mediador e sua obra”