O mercado de trabalho do sociólogo no Brasil

Apesar de ser considerada pelo senso comum uma profissão com poucas oportunidades, é possível identificar ao menos 18 áreas em que ele atua com frequência e competência

Por Lejeune Mirhan* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

1. Docência

• Docência de Sociologia no ensino médio;
• Docência de disciplinas e sociologias especiais em quase todos os cursos superiores do país;
• Cursos especiais de cidadania e ética que vêm sendo dados a trabalhadores em cursos de reciclagem;
• Docência em cursos de especialização, mestrado e doutorado em universidades.
Aqui registro a nossa vitória em junho de 2008, quando aprovamos a obrigatoriedade do ensino da Sociologia em todas as escolas de nível médio no país. Estimamos que isso criou a possibilidade de termos pelo menos 25 mil professores de Sociologia. Como boa parte desses professores é também sociólogo, com o bacharelado, podemos dizer que nosso mercado de trabalho nessa área está bem aquecido. Em muitos lugares faltam professores de nossa área.

 

2. Pesquisa

• Desenvolvida por agências sociais, excetuando-se as de opinião pública (pesquisas de etnias, demográficas, de gênero, juventude etc.).

3. Pesquisa de Opinião e de Mercado

• Elabora o questionário de perfil dos entrevistados;
• Planeja e executa todo o projeto da pesquisa;
• Elabora os relatórios finais das pesquisas;
• Treina entrevistadores de campo definindo a base amostral;
• Orienta programadores de informática sobre o sistema de apuração.
Sem dúvida essa é uma das áreas mais aquecidas. Os grandes institutos de pesquisas de opinião e de mercado ou são de colegas sociólogos ou possuem muitos sociólogos em seu quadro funcional. Temos hoje o DataFolha, sob o comando de Mauro Paulino, temos o Instituto Vox Populi, de Marcos Coimbra, talvez hoje o melhor analista político do país. E temos o Instituto Toledo e Associados, do colega Francisco Toledo. Por fim o Ibope. Ainda que seu dono, Carlos Montenegro, não seja sociólogo, há nesse instituto dezenas de colegas atuando.

 

Aqui registro a seguinte observação. Nosso país, desde a Constituição de 1988, faz eleições a cada dois anos, sempre em anos pares. Mais de uma centena de milhar de candidatos querem e precisam saber sobre a melhor estratégia a seguir em suas campanhas, especialmente as presidenciais, de governadores e prefeitos. Mesmo nos anos sem eleições, os mandatários de cargos eletivos realizam sondagens sobre suas imagens e das instituições que dirigem, sejam elas prefeituras, governos estaduais e a Presidência da República.

 

Com relação à pesquisa de mercado, sabemos que as grandes empresas, ao lançarem novos produtos no mercado, fazem testes e ouvem os consumidores. Muitas vezes utilizam uma nova modalidade de pesquisa, que ainda que não seja baseada em margens de erros, que são as pesquisas qualitativas, servem para nortear, direcionar, fazer alterações em campanhas e comerciais em rádio e televisão. Isso vale também para campanhas eleitorais. Há casos de comerciais caríssimos produzidos pelas grandes agências de propaganda e marketing que foram literalmente descartados, engavetados, porque os consumidores, nas pesquisas qualitativas, os rejeitaram.

 

Em minha vida profissional coordenei diversas pesquisas, tanto de perfis quanto de tendências eleitorais em eleições sindicais. Cheguei a contratar o Ibope e a Toledo para alguns desses trabalhos. No momento que escrevo este artigo, sou participante de uma pesquisa do Instituto Nielsen, que audita o varejo no mundo todo. No Brasil, cerca de oito mil lares são visitados a cada 15 dias por ano, para avaliar o consumo das famílias. Eu estou entre os selecionados. Estou participando e aprendendo ao mesmo tempo.

 

4. Assessoria Sindical

• Exercendo funções de assessoria sindical de diversas modalidades;
• Planejamento político e sindical;
• Campanhas salariais;
• Negociações coletivas e dissídios de categoria;
• Cursos de formação sindical;
• Elaboração de perfis de categoria, pesquisas de satisfação e imagens da entidade e pesquisas de eleições sindicais.
Esta também foi uma fase de minhas experiências profissionais e das mais gratificantes. Fui assessor de diversas entidades sindicais de base e de uma federação estadual. Hoje tenho uma empresa de consultoria e trabalhos sindicais que se chama Aparte (Assessoria, Planejamento, Pesquisas, Estudos e Editoração).

 

Propomos que todos os nossos cursos de CS ofereçam a disciplina Sociologia do Trabalho, pois isso leva em conta esse grande mercado de trabalho. O Brasil tem hoje legalizadas e funcionando cerca de 10 mil entidades sindicais de diversos níveis e cinco grandes centrais sindicais reconhecidas (ao todo são 13 existentes). Essas centrais, todas elas, sem exceção, possuem pelo menos um sociólogo ou socióloga contratada. A CUT tem pelo menos seis colegas em seu quadro funcional. Esse setor, estimamos, arrecada em torno de cinco bilhões de reais ao ano e emprega em torno de 50 mil pessoas, entre os quais profissionais de nível superior especializados como sociólogos, economistas, advogados, jornalistas, publicitários etc. Só para registrar, temos hoje um importante órgão de assessoria sindical, o DIEESE, que é o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. É entidade mantida pelos sindicatos, federações e confederações nacionais e recebe também recursos das centrais sindicais. Temos mais de uma dezena de colegas trabalhando nessa relevante entidade.

 

Revista Sociologia Ed. 61

Adaptado do texto “O mercado de trabalho do sociólogo no Brasil”

*Lejeune Mirhan é sociólogo, escritor, professor e arabista. Colunista da revista Sociologia e colaborador do portal da Fundação Maurício Grabois e também do Portal Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política na Unimep entre 1986 e 2006. Presidiu o Sinsesp de 2007 a 2010. Este artigo baseia-se em seu último livro, intitulado O mercado de trabalho e a profissionalização do sociólogo (Anita Garibaldi, 2015, 288 p.). E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br