O novo paradigma da violência e as transformações no capitalismo

Rampage shootings, terrorismo e outras manifestações sob análise sociológica

Por Ana Paula Silva* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Este texto visa refletir sobre como as transformações do capitalismo contemporâneo alteram a sociabilidade e ajudam a explicar, em grande medida, mudanças na violência. Para abordar essas mudanças delimitou-se aqui a noção de violência de ódio difusa. Compreende-se por violência de ódio aquela que é motivada por preconceito ou intolerância em relação à raça, nacionalidade, etnia, religião, orientação sexual, estilos de vida, opiniões diferentes, entre outros. Tendo esse ponto de partida para compreender as violências de ódio contemporâneas, faz-se necessário acrescentar também outro tipo de violência que possui a mesma origem: os rampage shootings.

 

 

Pode-se dizer que as formas de violência aqui delimitadas estão incluídas em um novo paradigma da violência, desenvolvido pelo autor Michel Wieviorka (2009), que é explicado pela dificuldade de agir politicamente face às mudanças materiais e ideológicas promovidas pelo capitalismo flexível. Em resumo, a abordagem que se quer ressaltar aqui é que os tipos de violência delimitados, classificados como violência de ódio difusa, se caracterizam por manifestar-se em situações onde há pouca possibilidade de se expressar um conflito social sob o registro da ação política. Mais especificamente, por ódio entende-se um sentimento forte de aniquilação do outro, no qual a pessoa – imbuída de ódio – não é capaz de produzir o repertório de valores necessários para negociar, dialogar e produzir empatia. No entanto, diferentemente de experiências limites como a do nazismo, esse tipo de ódio se manifesta de maneira difusa, fragmentada, e não possui uma única narrativa que o sustente. Assim, pode-se dizer que a forma de violência abordada é típica desse momento pós-fordista e pode ser enquadrada como difusa porque se dissemina por toda a sociedade e adquire uma multiplicidade de manifestações, todas elas vinculadas ao dilaceramento da cidadania (Santos, 2004). Segundo José Vicente Tavares dos Santos:

 

Os fenômenos da violência difusa adquirem novos contornos, passando a disseminar-se por toda a sociedade. Essa multiplicidade das formas de violência presentes nas sociedades contemporâneas – violência ecológica, exclusão social, violência entre os gêneros, racismos, violência na escola – configura-se como um processo de dilaceramento da cidadania” (Santos, 2004, p. 5).

 

Sobre essa delimitação elaborada por José Tavares dos Santos, duas características merecem destaque: o caráter múltiplo desses fenômenos e o fato de estarem associados ao dilaceramento da cidadania. Assim, sobre o primeiro aspecto, é importante dizer que esse tipo de violência é de difícil conceituação devido à multiplicidade de formas através das quais ele se manifesta. Por não ter uma definição conceitual precisa, não há um estudo que demonstre sua evolução a partir de uma série histórica abrangente.

 

Foto: 123 Ref

 

Assim, o segundo ponto de destaque, que é o dilaceramento da cidadania, se constitui como uma das bases explicativas das formas de violência delimitadas. Deve-se ressaltar que o dilema atual da cidadania está profundamente associado com a ideologia do “novo espírito do capitalismo”, que é extremamente privatista e instrumental e, portanto, gera impasses para a construção de conflitos sociais que possam ser institucionalizados ou negociados através de uma “ação política concertada”. Esse viés de análise se combina com outro aspecto enfatizado por José Tavares dos Santos, que afirma que “a violência difusa […] é, em larga medida, legitimada pela consciência coletiva, instituindo-se como norma social, ainda que controversa e polêmica” (idem, p. 3). Essa abordagem se distingue da de Durkheim sobre o crime, que o identifica como uma ruptura com a consciência coletiva.

 

Violência pelo mundo

 

Verifica-se, portanto, que a violência aqui delimitada pode ser compreendida como um problema da política. A relação entre violência e política, no entanto, não é explicada aqui como um problema de institution building, ou seja, “que envolve as agências da ordem, suas relações com a sociedade civil e a formulação de políticas democráticas de segurança pública” (Machado da Silva, 1999, p. 117). É sabido que estudos de violência que apontam falhas no sistema repressivo são muito relevantes para o aperfeiçoamento das polícias, das prisões, das medidas socioeducativas e das políticas públicas de segurança pública, no entanto a ênfase dada aqui à afirmação de que a violência constitui-se predominantemente como um problema da política leva a um caminho teórico distinto. Ou seja, o conceito de política aqui tratado não se refere à engenharia institucional, mas à capacidade de transformar paixões em demandas, projetos, e, em consequência, em conflitos sociais, produzindo, assim, uma esfera pública plural que se distancia da lógica da ruptura.

 

Diante desse arcabouço teórico e histórico, percebe-se que a violência de ódio difusa se constitui como um fenômeno típico da modernidade tardia, como um resultado da ideologia do “novo espírito do capitalismo” que dá sustentação a um modelo neoliberal de sociedade. Assim, tem-se como base um processo amplo de transformação social que dá fundamento para compreender que a violência se complexifica na medida em que a sociedade também passa por um processo de mudanças convulsivas. Nesse sentido, Michel Wieviorka (2009) defende que para pensar a violência atualmente é necessário um novo paradigma, ou seja, é fundamental uma abordagem original que dê um papel central para a subjetividade dos atores e para os processos de perda de sentido ou de produção exagerada de sentido.

 

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Adaptado do texto “O novo paradigma da violência e as transformações no capitalismo”

*Ana Paula Silva é doutora em Sociologia pela Unesp-Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Professora de Sociologia nas Faculdades FACCAT – Tupã. Pesquisadora do Laboratório de Política e Governo da Unesp-Araraquara.