O PDT e a tradição caudilhista

Por Por Dr. Alessandro Farage Figueiredo* e Dr. Fábio Metzger*| Fotos: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

O Partido Democrático Trabalhista (PDT) é herdeiro de importantes tendências políticas da história contemporânea brasileira. De um lado, ele reivindica o antigo varguismo (ou getulismo), ou seja, o legado do ex-presidente Getúlio Vargas, que governou o Brasil de 1930 a 1945, e depois de 1951 a 1954, através do antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

 

Trata-se de uma formação desenvolvida inicialmente no Rio Grande do Sul, com líderes de tradição caudilhista, em que a importância de um líder carismático e centralizador é a principal força motriz para os demais movimentos sociais com os quais ele se aproxima e agrega em torno de si.

 

Isso é um fenômeno central no processo de construção do PDT de Itagiba “Leonel” de Moura Brizola, que possui sólidas relações enquanto herdeiro de Vargas. Comecemos falando a respeito da família de João Goulart (Jango) em São Borja, no Rio Grande do Sul. Esta era íntima da família Vargas. É Getúlio Vargas quem leva Jango para a política.

 

O PDT reivindica o antigo varguismo (ou getulismo), legado do ex-presidente Getúlio Vargas

Com a ascensão de Brizola dentro do PTB devido ao seu trabalho constante na juventude do partido (o que resultou em conquistas eleitorais), na época denominada “ala moça”, Leonel Brizola se tornou conhecido entre os demais atores políticos do cenário petebista, assim chegando a casar com Neusa Goulart, irmã de Jango, e tendo Getúlio Vargas como padrinho. Nesse cerne caudilhista do período varguista é que já surgem algumas características futuras do PDT, como o personalismo, não só pela figura carismática do caudilho, como possuíam Vargas, Goulart e Brizola, mas também pelo hábito na cultura política brasileira de convidar caciques políticos para serem padrinhos de casamento e batismo, estabelecendo laços patrimonialistas de caráter familiar mais profundos, da mesma forma que os casamentos também providenciam fortes vínculos políticos.

 

Contudo, dessas características a mais marcante no cenário político brasileiro que se perpetua com força até os dias atuais é o uso das juventudes partidárias como trampolim político. Brizola criou o preceito de que presidentes das juventudes partidárias tornam-se automaticamente um importante quadro do partido e consequentemente candidato “natural” a diversos cargos eletivos e partidários, incluindo a ideia de que ser presidente da juventude é um salvo-conduto para posições políticas privilegiadas no futuro. Esse preceito estabeleceu parâmetros tanto para as carreiras dentro do PDT como na maioria dos partidos políticos brasileiros, inclusive na esquerda, o que fez com que os movimentos estudantis passassem a ser aparelhados migrando da representação estudantil para disputas político-partidárias.

 

Turbulência pós-varguismo

Embora Brizola fosse um ator político de destaque no caudilhismo pós-getulismo, durante o janguismo sua experiência política foi bastante atribulada devido ao conturbado cenário socioeconômico e político brasileiro daquele período. Primeiramente pela disputa pela candidatura a presidente com o próprio cunhado João Goulart, o que gerou o famoso bordão “Cunhado não é parente! Brizola presidente!”. Segundo, no seu forte empenho como governador do Rio Grande do Sul em implementar políticas caudilhas e ainda dar cobertura política e militar para Jango, que estava em derrocada.

 

Brizola casou-se com a irmã do ex-presidente João Goulart (foto) e teve Vargas como padrinho, consolidando importantes laços políticos

 

Com a chegada dos militares positivistas no poder em 1964 e a queda brutal de Jango, que jamais se reergueria, Brizola se viu forçado ao exílio em uma verdadeira situação anômica, visto que era um caudilho perdido no meio da Guerra Fria entre capitalistas e socialistas no cenário internacional. Praticamente, em termos políticos, Leonel Brizola foi castigado devido às disputas políticas no período Vargas, como a maneira com que Getúlio Vargas dispersou política e militarmente os positivistas, derrotou militarmente e humilhou politicamente os constitucionalistas do Estado de São Paulo, desintegrou o fascismo brasileiro (integralismo), perseguiu arduamente os comunistas com o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e confrontou abertamente os capitalistas da União Democrática Nacional (UDN); sendo que esse último grupo foi influente na crise política que levou ao suicídio de Getúlio, em 1954.

 

Assim, forçado ao exílio, após 1964, com a derrocada política de Jango, afilhado político de Getúlio Vargas, Leonel Brizola fugiu para o Uruguai, onde tentou organizar uma força paramilitar sem sucesso, com financiamento da ditadura socialista cubana. Depois foi para os Estados Unidos da América sob a proteção do presidente democrata James “Jimmy” Carter; e, por último, foi para a Europa, onde de fato consegue começar a se reorganizar politicamente para retornar ao Brasil e desenhar aquilo que, mais tarde, se transformaria no PDT. Nesse período, Brizola teve contato com outras ideologias políticas que estavam em voga na Guerra Fria, mas que não faziam parte do getulismo e do janguismo, como o liberalismo democrático dos EUA e a ideia de Direitos Humanos, o caudilhismo socialista cubano (castrismo), os movimentos socialistas e social-democratas europeus, e o pensamento político português que estava se reorganizando com a Revolução dos Cravos e o processo de descolonização, após décadas de governo fascista (salazarismo).

 

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*Alessandro Farage Figueiredo é cientista político, jurista, sociólogo e demógrafo. Pós-doutorado em Desenvolvimento Internacional pela Josef Korbel School of International Studies da University of Denver. E-mail: alefarage@gmail.com.

**Fábio Metzger é cientista político, historiador, sociólogo e jornalista. Mantém o blog politicavoz.wordpress.com. E-mail: fabiometzger@terra.com.br