O pensamento de Celso Furtado

O paraibano é o cientista social latino-americano mais lido e uma das principais referências intelectuais para grande parte dos economistas e pensadores do país.

Por Eduardo Girão Santiago* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Nascido em Pombal, no estado da Paraíba, em 26 de julho de 1920, Celso Furtado é o cientista social latino-americano mais lido em todo o mundo. No capítulo “Aventuras de um economista brasileiro”, do livro Obra autobiográfica de Celso Furtado, o laureado economista afirmou que o Nordeste brasileiro, onde nasceu, foi o núcleo mais antigo do povoamento do país. Após uma fase de prosperidade nos séculos XVI e XVII, a região entrou em declínio.

 

O Nordeste, onde nasceu e viveu a sua infância e adolescência, era uma região marcada por conflitos e rivalidades entre grupos políticos e famílias locais, caracterizada por histórias de violência, de arbitrariedades, prepotências e pelo cangaço. Era um mundo marcado pela incerteza e pela fatalidade, pelas calamidades climáticas, constituindo-se campo fértil para o surgimento de milagreiros e por chefes políticos carismáticos, como o Padre Cícero e João Pessoa.

 

A biblioteca paterna possibilitou ao jovem Celso Furtado a sua primeira paixão intelectual, a História (FURTADO, 1997). Tal disciplina foi o ponto de partida para os seus estudos, uma permanência metodológica visível em toda a sua obra. Isso foi tão forte que o próprio economista chegou a afirmar que “o contato com a Sociologia norte-americana corrigiu os excessos do meu historicismo” (FURTADO, 1998, p. 9).

 

Em sua obra autobiográfica, Furtado indicou que as suas principais influências intelectuais foram calcadas em três eixos básicos. Em primeiro lugar, o Positivismo, que lhe incutiu a primazia da razão, consolidando a ideia de que o conhecimento, em sua forma superior, se converte em conhecimento científico e, consequentemente, conduz ao progresso. A segunda vertente de influência veio de Marx, por conta da História.

 

O economista paraibano advertiu que foi por intermédio da leitura de História do Socialismo e das lutas sociais, de Max Beer, que passou a buscar um sentido para a História, enquanto prática metodológica intelectual. Convém ressaltar a confluência da análise histórica e do Positivismo, que o conduziu à concepção de progresso:

 

“Na sociedade estratificada e parada no tempo em que eu vivia, a ideia de que as formas sociais são históricas, portanto, podem ser superadas, permitia ver o mundo com outros olhos. Essa ideia, ligada à do conhecimento como arma do progresso, que vinha do Positivismo, compôs no meu espírito uma certa visão do homem em face da História. Essa ideia permitia superar o círculo fechado do fatalismo e do absurdo e, ao mesmo tempo, desembocava numa responsabilidade moral” (FURTADO, 1997, p. 15).

 

A terceira linha de influência intelectual no pensamento furtadiano adveio da Sociologia norte-americana, especificamente da teoria antropológica da cultura, marcada pelo pensamento de Franz Boas.

 

A leitura de Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, acentuou Furtado, embora não tenha influenciado, substantivamente, na interpretação do Brasil, significou a atualização na sua metodologia de abordagem dos problemas sociais, porque introduziu aspectos culturais e antropológicos como novos instrumentais de trabalho. Ademais, como o próprio autor em estudo compreendia, a Sociologia norte-americana viabilizava a utilização de esquemas teóricos desprovidos de preconceitos de raça, clima e cultura, ao contrário daqueles modelos conservadores, que consolidavam o fatalismo imobilizador.

 

A leitura de Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre (foto), significou a atualização na sua metodologia de abordagem dos problemas sociais | Foto: Wikimedia Commons

 

A estrutura intelectual e a visão de mundo de Celso Furtado, forjadas em sua juventude, com as três linhas de influência há pouco mencionadas, foram enriquecidas por ocasião da continuação dos seus estudos no Rio de Janeiro e Paris. A partir daí, segundo Furtado, a contribuição de Marx em sua formação se ampliou por intermédio da leitura dos livros de Karl Mannheim sobre a Sociologia do conhecimento. Lima (2008, p. 29) descreveu a forte permanência desse intelectual na obra de Furtado, traduzida por uma profunda reflexão acerca do papel das ideologias, dos determinantes políticos e sociais do conhecimento, da dimensão da utopia e do rigor científico com o próprio pensamento, atributos essenciais para a formação do economista político.

 

Outras áreas

Acrescente-se a este cabedal intelectual o estudo da administração sobre o tema da organização, mais precisamente da direção da organização. Assim, Furtado percebeu que a racionalidade da direção dependia do planejamento: “A partir desse momento, o planejamento foi, para mim, uma técnica social de importância muito maior, a qual permitia elevar o nível de racionalidade das decisões que comandam complexos processos sociais, evitando-se que surjam processos cumulativos e não reversíveis em direções indesejáveis. Fixou-se, assim, no meu espírito a ideia de que o homem pode atuar racionalmente sobre a História. Hoje, me pergunto se não existe uma grande arrogância nessa atitude: imaginar que estamos preparados para dar um sentido à História” (FURTADO, 1997, p. 18).

 

Celso Furtado, em suas revelações autobiográficas, afirmou que o estudo sobre o tema do planejamento o conduziu para a leitura da Ciência Econômica. Em pouco mais de dois anos, ainda na Universidade do Brasil, desvaneceu-se dos “encantos” dessa “ciência menor”, que, para ele, era destinada “para gente sem imaginação”. Dosando visão crítica com certa ironia, afirmou: “Dos malabarismos verbais com que o professor procurava transmitir a ideia de utilidade marginal (o último pedaço de pão, o último copo de água…) ficou-me uma vaga impressão de jogos de espírito pueris” (FURTADO, 1997, p. 19).

 

O pensador brasileiro Celso Furtado indicou que as suas principais influências intelectuais foram calcadas em três eixos básicos: o Positivismo, o Marxismo e a Sociologia norte-americana | Foto: Agência Brasil

 

A matriz estruturante da formação intelectual de Furtado demandou o seu interesse pela Sociologia e Economia alemãs de Weber, Tönnies e Simmel, em torno da teoria das organizações. Permaneceu, ainda, o seu interesse pela História, desta feita relacionado aos estudos de Henri Pirenne, Sombart e Antônio Sérgio sobre as origens do capitalismo, a Economia e a História portuguesa, tão presentes no clássico Formação econômica do Brasil.

 

O efetivo interesse de Furtado na Europa se voltou para a macroeconomia. Assimilou Schumpeter e o seu enfoque sobre a importância do progresso tecnológico. Em Keynes, percebeu a influência estratégica do Estado como ente que toma decisões diretivas para o funcionamento dos sistemas econômicos. Afirmou, em suas memórias, que “todo capitalismo é, em certo grau, um capitalismo de Estado”. Foi a partir dessa ideia que Furtado pôde perceber o fenômeno da dependência econômica em sua natureza estrutural (FURTADO, 1997, p. 21). E foi em decorrência disso, também, que ele percebeu que as estruturas podem mudar para além dos mecanismos econômicos, que causam tantos “ilusionismos” liberais nos economistas, em geral.

 

Assim, o que importa mesmo são os centros de decisão. Antes de se apropriar dos conhecimentos de Economia, Furtado já havia percebido que não existem organização ou sistema sem coordenação e controle e, portanto, devem existir centros de decisão para definir objetivos.

 

No passado, os estados do Nordeste eram caracterizados por histórias de violência, de arbitrariedades, prepotências e pelo cangaço | Foto: Wikimedia Commons/ Benjamin Abrahão Botto

 

Dessa constatação decorreu a forte crença que ele depositou no planejamento, que proporcionou os objetivos explícitos ou implícitos na governança das nações. Nessa perspectiva, afirmou o criador da Sudene, que o planejamento, orientado para o direcionamento político das economias, fez ruir “o mito do laissez-faire, o qual nas economias subdesenvolvidas tem servido para sancionar e consolidar a dependência” (FURTADO, 1997, p. 25).

 

No que concerne à coerência do pensamento e da ação, nada melhor do que recorrer ao próprio Celso Furtado, que, certa vez, assim se pronunciou: “Nós, intelectuais, que lidamos com ideias, não desconhecemos a importância da ação. Não fui outra coisa na vida se não um intelectual, mas sempre consciente de que os problemas maiores da sociedade exigem um compromisso com a ação” (GAUDÊNCIO e FORMIGA, 1995, p. 39).

 

Furtado preocupou-se, do ponto de vista metodológico, em pesquisar e conhecer para transformar. Assim é que, já no período 1949-57, quando ocupava o cargo de diretor da Divisão de Desenvolvimento da Cepal (Comissão Econômica para América Latina), contribuiu, ativamente, com o economista argentino Raúl Prebisch para a formulação do enfoque estruturalista da realidade socioeconômica da América Latina. Estava criada, assim, uma corrente teórica própria e adequada para compreender, dialeticamente, as relações socioeconômicas do centro e da periferia. A partir daí, indicar caminhos para o desenvolvimento dos países periféricos, rompendo essa dinâmica, foi a trajetória de Celso Furtado.

 

 

 

Conclusão
Em sua obra autobiográfica, o autor reforçou a força de Karl Marx em seu pensamento, especialmente por conta da História | Foto: Wikimedia Commons

A mescla de tantas influências intelectuais, culturais e éticas sobre o pensamento e o método de Celso Furtado não ofuscou o fato de que ele foi original, pioneiro, criativo e seminal para um sem-número de seguidores. Lembro-me de um evento no Banco do Nordeste do Brasil, em homenagem póstuma a Celso Furtado, de um depoimento do professor Paul Israel Singer, no qual ele afirmou que todos os economistas brasileiros tinham uma admiração e uma ponta de inveja do mestre, porque ele, além de produzir teoricamente, refletir, dar palestras e ter sido conhecido internacionalmente, foi o economista brasileiro que mais atuou na prática, manuseando políticas públicas, criando e consolidando instituições.

 

Além disso, Celso Furtado não apenas criou um método, um pensamento econômico próprio, mas fez tudo isso com muita paixão. Pereira (2001, p. 37) asseverou que os grandes pensadores foram, em geral, pessoas apaixonadas pela sua produção, pela criação de teorias e análises. Mas apaixonaram-se, sobretudo, não pela ciência em si, mas pelos seus resultados. Alguns desses cientistas sociais da Ciência Econômica aficcionaram-se pela conquista da estabilidade econômica, pela boa distribuição da renda e pelo desenvolvimento do seu país. A luta histórica, continuada e firme pelo progresso do Brasil foi a grande paixão de Celso Furtado.

 

Desde o seu primeiro livro, A economia brasileira (1954), até Raízes do subdesenvolvimento (2003), as críticas e profecias do velho combatente incidiram sobre a dependência política e econômica, sobre a globalização, sobre a prática do endividamento externo irresponsável, sobre a busca de um modelo econômico próprio para o Brasil, sobre a debilidade dos Estados nacionais dos países periféricos frente à hegemonia do capital internacional.
*Eduardo Girão Santiago é economista, doutor em Sociologia, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará – UFC e professor do mestrado em Avaliação de Políticas da UFC.

Adaptado do texto “Pensamento e ação de um combatente”