O que é propriamente religioso?

Fenômenos religiosos e pensamento científico sobre eles refletem processos históricos e sociais ligados a relações de poder e privilégio

Por Thaís Silva de Assis* | Fotos: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

A definição de religião como uma instituição organizada – com valores e práticas distintas dos demais domínios sociais – fomenta análises das formas alternativas de expressão religiosa como espiritualistas, confusas, individualistas e ecléticas (Woodhead, 2011). Porém, esse tipo de interpretação dos fenômenos que estão às margens da categoria estabelecida de religião é equivocado.

 

De acordo com Ammerman (2013), as evidências empíricas não corroboram a polarização entre religião e espiritualidade, nem tampouco a noção de que espiritualidade é um fenômeno difuso, individualizado, ou uma alternativa cultural à religião. A autora considera que em vez de identificar a religião pela pertença organizacional e por crenças tradicionais, e de supor que a espiritualidade é mais bem avaliada como uma criação individual, é mais profícuo reconhecer que ambas têm produtores institucionais e extrainstitucionais. Nos seus termos, tudo o que está contido nos discursos sobre espiritualidade também existe em instituições religiosas, assim como fora delas. Por conta disso, o estudo da religião não deve se restringir a categorias binárias – como organizado versus individual, ou religioso versus espiritual.

 

O papel das religiões na atualidade

 

A propósito, a categoria spiritual but not religious – em português, “espiritualizado, mas não religioso” ou “religioso sem religião” – não corresponde necessariamente ao lugar ocupado por pessoas que se dizem espirituais, mas não estão envolvidas com alguma instituição religiosa. Acontece que a religião rejeitada pela categoria de espiritualidade é diferente da religião praticada e descrita por aqueles afiliados a instituições religiosas. E a espiritualidade endossada como alternativa e improvisada é tão praticada pelas pessoas religiosas quanto por aquelas que delineiam uma fronteira moral contra elas (Ammerman, 2013).

 

Alguns pesquisadores (Zinnbauer et al., 2000) compararam as respostas de indivíduos identificados como “spiritual but not religious” e “spiritual and religious” e constataram que o primeiro segmento está mais inclinado a ver o religioso de maneira negativa e a rejeitar religiões formalmente organizadas de maneira tradicional. Essas pessoas “espirituais” geralmente não frequentam cerimônias religiosas, tendem a ser mais independentes, preferem elaborar uma espiritualidade individual e adotar crenças e formas de devoção não tradicionais – como as místicas e de New Age (Nova Era).

 

 

O problema é que esse contingente de pessoas acaba sendo equivocadamente designado como “sem religião”. No entanto, exceto o segmento desse grupo que é ateu ou agnóstico, os demais indivíduos mantêm crenças religiosas, se consideram espiritualizados e desenvolvem religiosidades pessoais (Baker; Smith, 2009). Isto é, são pessoas religiosas que rejeitam organizações religiosas tradicionais.

 

O ponto que quero esclarecer neste tópico com base nas discussões desses autores é que a religião deve ser compreendida incluindo um domínio espiritual. Como esclareci, a espiritualidade é um elemento essencial da religião e a realidade desses fenômenos está entrelaçada. Por conta disso, ver as duas como categorias contrastantes é ignorar a interação dinâmica e rica que existe entre elas. Como Ammerman (2013) defende, é importante reconhecer que a percepção acadêmica, que aponta o declínio da religião e o aumento da espiritualidade como um movimento de soma zero de um ao outro, revela tão somente o declínio da religião entendida como institucionalmente organizada, tradicional e comunitária – e não o fim da religião.

 

 

E além da interpretação da espiritualidade se tornar equivocada com um conceito de religião institucional, Klippenstein (2005) revela que a suposta diferença existente entre Nova Era e religião também é ilusória. De acordo com a análise do autor, os dois fenômenos coincidem em muitos aspectos, incluindo as definições acadêmicas. Para ele, o problema está em os pesquisadores não perceberem que suas descrições e definições de Nova Era são notavelmente similares às de religião. Por exemplo, o principal critério utilizado para distinguir New Age de religião é o fato de a experiência individual ser preponderante no primeiro caso, mas, apesar dessa distinção, é justamente a centralidade do self no discurso New Age que o conecta aos modos como os pesquisadores interpretam a religião. Isso porque crença, experiência, percepção e interpretação individuais estão entre as principais características analisáveis da religião. Sendo assim, nas descrições teóricas da religião, o indivíduo é tão central quanto no discurso sobre New Age.

 

Teologia da Prosperidade

 

Ciente disso, Klippenstein (2005) defende que não há necessidade de separar as categorias de Nova Era e religião. Segundo ele, a tentativa de traçar fronteiras entre elas é fútil porque tais fronteiras são confusas, permeáveis e difíceis de isolar. Nas palavras de Mariano (2012), o que essas novas formas do religioso revelam é o avanço da privatização da religião, mas não no sentido de a religião estar cada vez mais circunscrita à vida privada. O que existe é o aumento da autonomia religiosa individual – acompanhada pela multiplicação dos bricolages e das experimentações individuais do religioso –, que amplia o contingente de indivíduos que preferem ser religiosos fora das instituições. Nos termos de Sanchis (2006), a experiência religiosa está se tornando independente das instituições que costumavam organizá-la, e as experiências pessoais têm assumido a primazia.

 

A questão é que, como Renée de la Torre e Eloísa Martín (2016) ressaltam, as categorias de religião são insuficientes para explicar a diversidade de formas e conteúdos das práticas e crenças religiosas que estão progressivamente se desvinculando de instituições religiosas convencionais – como as de Nova Era, os neoesoterismos, as religiosidades do self e as práticas religiosas populares.

 

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Adaptado do texto “O que é propriamente religioso?”

*Thaís Silva de Assis é mestre em Sociologia, tem interesse na área de Sociologia da Religião e investiga o neo-hinduísmo no Brasil. Este artigo foi elaborado com base em um capítulo de sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/IFCS/UFRJ). E-mail: thaissassis@gmail.com