O que há por trás do ato de protestar?

Explosões de manifestações de caráter radical nas ruas do Brasil e em vários países do mundo estão inter-relacionadas com a estrutura econômica mundial, que cria o binômio: economia-violência

Por Maria Clara Ramos Nery | Foto: Shutterstock | Adapatação web Caroline Svitras

 

 

A presente abordagem tem como enfoque as manifestações existentes nas ruas de nosso país e do mundo, a partir da concepção de Zygmunt Bauman de “situações de interregno”, veiculada em sua entrevista ao programa Milênio, na Globo News, no ano de 2012, que consideramos essencial enquanto novo olhar para esse fenômeno social, não somente brasileiro, mas mundial.

 

No âmbito das Ciências Sociais, está claro o fator estrutural de nossa realidade contemporânea – a sociedade do consumo e do crédito. Em termos culturais, sua mensagem foi enviada e interiorizada por todos nós indiferentemente. E, uma vez interiorizada, o agir social consequente se pauta pelos determinantes dessa interiorização. Nesse sentido, podemos compreender as manifestações presentes em nossa realidade brasileira e mundial como expressão radical da sociedade de consumo, que envolve também o que Bauman denomina de “consumistas imperfeitos”. No caso brasileiro, o que podemos constatar é a distância comunicacional da instância estatal com a população e o consequente descrédito da população para com os poderes instituídos.

 

Saliente-se que as políticas governamentais atuais para dirimir a desigualdade social pautam-se pelos ditames da sociedade do consumo e do crédito, como se a igualdade buscada se efetivasse pela capacidade de consumo. No caso brasileiro, temos um agravante. Observe-se que a desigualdade social brasileira é estrutural e origina elevado número de “consumistas imperfeitos”, porque o Estado brasileiro, historicamente concentrador de riquezas, não repassa efetivamente à sociedade recursos que garantam os essenciais direitos sociais, constitucionalmente efetivados. Nesse sentido, a busca da assistência pública configura-se enquanto um fator de humilhação, que reveste de maior radicalidade o agir no espaço público – a rua.

 

Os saques às lojas, as agressões aos bancos e ao poder público, a queima de tudo que se configure enquanto poder instituído envolvem a vingança contra as fortalezas do consumo e contra a humilhação imposta pelo modo de produção capitalista, globalizado e excludente. Essas explosões de manifestações de caráter radical nas ruas do Brasil e em vários países do mundo estão inter-relacionadas com a estrutura econômica mundial, que cria o binômio: economia-violência, na medida em que encontramo-nos num contexto de uma economia predadora, conforme salienta Thom Hartmann, onde os direitos sociais perdem espaço para o mercado financeiro internacional.

 

Uma economia de caráter predador, que cada vez mais se consolida pela globalização, constitui-se como característica marcante ou traço estrutural marcante de nossa contemporaneidade. Consideramos que é essa estrutura socioeconômica que abre espaço para a situação de interregno de que nos fala Bauman (2012). Essa situação significa: o desaparecimento das fontes de autoridade e significa, ainda, que a antiga maneira de agir, principalmente política, não funciona mais e novas maneiras de agir ainda não foram inventadas. Por que a ênfase na instância política? Porque a política envolve quem vai fazer a transformação e qual a transformação a ser feita. E, em nossa contemporaneidade, esses dois atributos da política constituem-se no interregno que estamos a vivenciar, pois estamos vivendo o período de separação entre política e poder. É justamente essa separação entre política e poder, que torna resistente qualquer busca de ação e participação pela instância ou plano político como temos visto sinalizado nas manifestações das ruas nas grandes metrópoles pelo mundo hoje.

 

Na ausência de um paradigma de autoridade ou fontes de autoridade que são diretrizes para o viver social, a sociedade para sua sobrevivência diante de incertezas cria novas formas de agir e fazer coletivo. Envolvendo, no âmbito dessa reflexão, os “consumistas imperfeitos” e os humilhados, os quais pelas determinações contraditórias do sistema socioeconômico vigente tendem a crescer.

 

 

A “situação de interregno” vivenciada na contemporaneidade, no mundo ocidental, da qual nos fala Bauman, que é interiorizada por indivíduos e grupos, constitui o sujeito contemporâneo. É nesse contexto que temos a construção sócio-histórica das subjetividades. É nesse campo de incertezas que as subjetividades se constroem no âmbito das relações de poder e força de uma multiplicidade de processos no qual o sujeito encontra-se imerso. A subjetividade é, portanto, modelada a partir dessa situação. Cabe salientar que diante desse fato, a constituição das subjetividades se pauta pelo flexível, não mais o sujeito racional que encontrávamos presente no século XX, mas o sujeito que se pauta pela intensificação do desejo, no âmbito de uma sociedade de elevado consumo.

 

A acessibilidade comunicacional, que se rege pelas relações das redes digitais, que é a matriz organizacional das sociedades hoje, assume uma forma de fazer frente à “situação de interregno” presente, no que podemos denominar de espaço da casa, buscando aglutinar forças para agir, que se forma a partir da identidade dos desejos de manifestações e participações, diante das sensações de insegurança coletiva, no espaço da rua, que sem diretrizes claramente estabelecidas e organizacionais assumem o caráter do improviso e do imprevisível em seus resultados e consequências, diante dos quais as estruturas do poder estatal não se encontram preparadas para enfrentar e também em seu agir no espaço da rua, sob o império da força, prepondera o improviso.

 

A partir de juízos de valores, interpretar as manifestações, que surgem das casas, pelas relações digitais, e povoam as ruas com seu binômio economia-violência, é buscar certezas que não são permitidas

 

Não há como se fazer perspectivas em termos sociológicos e políticos diante do que estamos a presenciar na contemporaneidade no âmbito das manifestações existentes, pois a “situação de interregno” se configura enquanto traço estrutural marcante desse momento do século XXI. As consequências e os resultados são imprevisíveis. É fato novo, para o qual as análises ainda são preliminares. O que podemos ter como “quase” evidente é que todo agir humano, individual ou coletivo, deixa marcas profundas as quais teremos que suportar.

 

Analisar e buscar interpretar as manifestações, que a partir das casas, pelas relações das rede digitais, povoam as ruas para fazer frente às incertezas e inseguranças do contexto sócio-histórico, das “situações de interregno” originárias do binômio economia-violência, seu traço estruturante, no âmbito dos juízos de valor são buscar falsas certezas diante de uma realidade que não as permite. Talvez, devamos lembrar Hegel, quando em sua obra A Fenomenologia do espírito, afirma que o homem jamais gritará pelo que possui, mas pelo que lhe falta. Talvez o olhar analítico de nossa contemporaneidade, sociológica e politicamente, deva ser justamente esse.

 

 

* Maria Clara Ramos Nery é mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS , doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Professora da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – Uergs, na qual exerce o cargo de professora adjunta com doutorado. Membro do grupo de pesquisa Religião e Sociedade, do CNPQ, sob coordenação do Dr. José Ivo Follmann, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos.

 

Adaptado do texto “As casas e as ruas – situações de interregno”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 53