O existir no ato terrorista

A degola, como ato antropofágico e catártico antigo, remonta à longuíssima barbárie que precedeu a civilização. Em seu universo restrito e tosco de entendimento, em seu exíguo horizonte de compreensão, em sua brutal desumanidade e cegueira, o terrorista sobrepuja pontualmente o sistema e de fato barbariza a civilização

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: Shutterstock/Wikimedia | Adaptação web Caroline Svitras

 

Qual o sentido da vida? O que significa existir? Todo mundo, em algum momento, já se fez essa pergunta, em grande medida, estrutural e basilar. Sim, pois é justamente o tal do sentido que traz (ou poderá trazer) alguma razão plausível e cognoscível para o paradoxo supremo que toma corpo no ato mesmo de ser e existir no mundo. Esse paradoxo de todo vivente se traduz grosso modo assim: viver, ter que fazê-lo – tendo em vista que o surgimento da consciência já se depara com a sua própria condição viva –, e, inexoravelmente, ter que também, num dia futuro que ignoramos, morrer. Ou seja, referimo-nos à contingência inelutável de ter-se que abandonar essa condição extraordinariamente fantástica de ser vivente, esse corpo confortável e prazeroso, essa história pregressa tão querida e narcisicamente especial, para si e para os seus, história que foi construída pelo sujeito com tanto carinho e zelo, durante toda a sua vida, até virar uma imensa e multifacetada rede de relações entre pessoas, coisas, sabores, lugares, e ainda, com tudo isso, ter que se resignar – à força, frise-se – diante do vertiginoso sumidouro que é o evento da própria morte.

 

Isto é, estar fadado a finalmente não ser, não estar e não mais existir. Isso, por si só, já concede – ou pelo menos deveria conceder, convenhamos – um bom significado às nossas fugazes e fugidias vidas individuais. O “logus espermático” (razão seminal) de viver, portanto, seria apenas viver bem. O mero fato de existir e estar vivo já deveria – ou pelo menos poderia – ser uma boa razão para o vivente significar a sua própria condição existencial.

 

Ou seja, (1) a brevidade dessa extraordinária passagem que nos é concedida bioevolutivamente como que por graça, (2) o fato adicional de termos um tempo relativamente limitado para desfrutá-la e, além disso, na sequência, (3) ter que abrir mão de tudo sem outra opção qualquer – enfim, todos estes motivos deveriam ser razão suficiente para conceder e corroborar um possível sentido essencial para as nossas vidas, não é mesmo?!

 

Mas, ainda assim, muitos vivem vidas que parecem não possuir sentido algum, e por isso mesmo agonizam dentro de suas próprias existências, sendo castigados pelos dias que, punitivamente, insistem em se suceder. O sentido – infelizmente ou felizmente, é difícil saber – nem sempre se apresenta ao sujeito que o procura intencionalmente. É possível topar com ele, sem nem mesmo tê-lo procurado. Outras vezes pode estar bem perto, e ainda assim não sermos capazes de identificá-lo e reconhecê-lo.

 

Entenda a estética da solidão

 

Michel de Montaigne em seus Ensaios, tão belos como repletos de sentido, afirma que “filosofar é aprender a morrer”, ou, em outros termos, que refletir sobre a própria existência é um aprendizado importante que nos leva inelutavelmente à ideia de transitoriedade. Martin Heidegger, por seu turno, sugere que o sujeito deveria regressar reflexivamente ao passado mais distante que consiga alcançar, beber na fonte do conhecimento, nutrir-se dos saberes pregressos humanos, mas, igualmente, esse mesmo sujeito também deveria avançar até o futuro mais distante, imaginar em detalhes o que lhe espera lá adiante afinal, a própria morte certa, visitar e revisitar essa ideia, e aí retornar ao momento presente com mais consciência, empoderado pelos conhecimentos gerados pela própria reflexão.

 

Enfim, de modo desconcertante, o fato da própria morte certa acaba avivando ainda mais a vida. Sigmund Freud escreveu que a ideia de morrer nos é hostil e desconfortavelmente improvável, em termos lógicos ou mesmo racionais, pois com a ideia de nossa própria morte, mesmo que hipotética apenas, não temos (ou teríamos), segundo esse autor, um eu fundamental e estruturante, do qual partir ou nos basear na construção simbólica da própria narração conceitual do sentido do que seria propriamente morrer. Tratar-se-ia de uma realidade que não nos inclui, e isso é dificílimo de racionalizar. Edgar Morin – talvez um dos intelectuais humanistas mais importantes e influentes da atualidade – afirma que a morte é o buraco negro desvelado desde a Pré-história pela consciência racional.

 

 

O médico Sigmund Freud, “pai” da Psicanálise, desenvolveu o conceito psicanalítico do narcisismo e discutiu relação humana com a morte inevitável

 

Mas esse buraco negro, diz ele, engolirá as consequências racionais dessa mesma consciência. Em outros termos, a morte, inexoravelmente, engole a pessoa que reflete sobre ela, engolindo também a própria reflexão que se constrói. Enfim, a primeira indagação que pode surgir para o sujeito que se arrisca inadvertidamente a refletir sobre a morte é a seguinte: como o mundo poderá prosseguir sem mim? Que sentido esse mundo poderia ter se não estou nele, vivo, gozando- o e experienciando-o?

 

 

Vazio abismal

A resposta, prezados leitores, pode ser bastante simples e até desconcertante: a morte, para quem morre, não faz muito sentido. Salvo, é claro, algumas não raras exceções, já devidamente narradas e dramatizadas nas artes através da história humana, em que a vida e a própria existência singular de uma pessoa, por alguma contingência intransponível, tornam-se insuportáveis, porque aí então a morte passa a ser uma espécie de alívio ou cessação do sofrimento demasiadamente brutal e, em grande medida, insuperável para o próprio sujeito que o vive, adquirindo assim, minimamente, um sentido ou fim racionalizável.

 

Certos tipos de doença, como o câncer, por exemplo, podem provocar dores tão lancinantes, e numa medida tão exacerbadamente alta e insuportável, que nem mesmo drogas lenitivas poderosas como a própria morfina podem ajudar o paciente terminal que se encontra em tamanha agonia. Morrer, nesses casos, faz todo o sentido para o enfermo e até mesmo para a própria sociedade na qual está inserido, já que esse extinguir-se, deixar de existir, interromperá o seu sofrimento, e isso é universalmente bom e válido, seja do ponto de vista do indivíduo, seja do da própria sociedade.

 

Sociólogo,  filósofo e educador, Edgar Morin concebe o tema da morte como algo difícil de racionalizar

 

Mesmo quem morre de morte natural, já bem idoso e longevo, quem sabe depois de ter vivido uma boa e prazerosa vida, repleta de alegrias e contentamentos, mesmo para esses – e, talvez, ainda mais para esses – pode ser difícil a ideia de se desapegar de todas essas vivências extraordinárias que o existir nos oferece aos montões, todos os dias. Referimo-nos ao nosso mundo sensível, ao universo sensorial e emotivo que nos estrutura e perfaz a todos: nossas famílias, os lugares que gostamos, nossos hábitos, crenças, amores, manias, vícios, sonhos…

 

Enfim, não é fácil abandonar isso tudo, de uma só vez, e ainda fazê-lo com lucidez e coragem, principalmente, se não se tem absolutamente nada de significativo para colocar no lugar. Isso, em termos lógicos e práticos, é simplesmente irracionalizável, concordamos com Freud.

 

Narciso – ou, mais vulgarmente, o nosso eu consciente – não é capaz de conceber um mundo em que ele mesmo não esteja necessariamente incluído, e num primeiríssimo plano de destaque. Pois só assim, a partir de si mesmo, na primeiríssima pessoa, ele (o nosso eu consciente) poderá construir e estabelecer suas representações simbólicas e lógicas com relação à realidade que o circunda, para poder então dialogar com ela. E o termo “circunda”, nesse caso, é mais do que apropriado, pois fomos bioevolutivamente adaptados para conceber o mundo em torno de nós mesmos,  nos circundando, tomando a subjetividade intransferível de cada um como ponto estrutural.

 

Não faria sentido – suplicaria Narciso – um mundo em que o centro gravitacional dos acontecimentos não fosse ele mesmo, pois tal mundo seria em tudo incongruente e incompreensível. Mesmo porque, em se tratando de tentar compreender o fenômeno da vida e também da morte, em suas razões mais seminais, percebamos, não tivemos uma experiência qualquer que pudesse gerar uma espécie de memória sensível do que é ou poderia vir a ser um estado de não-ser ou antes-do-ser.

 

De que somos feitos?

 

Esse nosso ser, que tanto conhecemos e prezamos, e que verdadeiramente aprendemos  a amar, é tudo que nós temos. Simplesmente somos, estamos vivos, e, por isso mesmo, vamos ter que morrer – isto é, vamos ter que deixar de ser o que somos –, e ponto final. Não há nada que se possa fazer.

 

Todavia, a despeito do horror que a morte iminente deve realmente despertar em qualquer ser vivo que a pressinta, muitas pessoas enfrentam-na com bravura e genuína sabedoria. Entram para a história viva da humanidade  por terem sido capazes de reflexões brilhantes e profundas, mesmo diante de seu horripilante e nefasto vulto. Ludwig Wittgenstein, por exemplo, diante da doença incurável e das posses materiais que a vida lhe concedeu, e frente também à adversidade da enfermidade grave que o acometia (um câncer terminal), mudou-se para a casa de seu amigo e médico de confiança, para ali viver seus últimos dias – se é que se pode dizer assim – com um mínimo de dignidade. Porém, quando já estava à beira da morte, pouco antes de deixar essa singular existência e mergulhar no abismal e profundo nada da morte – com presença de espírito, sabedoria e grande compaixão –, disse ao fiel amigo médico suas últimas palavras – endereçadas, pasmemos, às pessoas que aguardavam aflitas por notícias dele no cômodo adjacente: “Diga a eles para ficarem tranquilos, pois eu tive uma vida maravilhosa”.

 

O austríaco Ludwig Wittgenstein, magistral filósofo da linguagem, foi capaz de encarar a morte com naturalidade

 

Enfim, mesmo diante da maior adversidade concebível para um ser humano – a saber, o momento da própria morte –, esse filósofo ainda foi capaz de tranquilizar os demais que sofriam com e por ele. Pois Wittgenstein sabia que se tratava de um fenômeno natural (a morte), e que ainda, de alguma maneira extraordinariamente fantástica, aquilo tudo ainda podia fazer algum sentido para ele mesmo e, quem sabe também, para os seus.

 

 

Estruturação simbólica

Perguntar sobre a razão, inquirir a si mesmo sobre o sentido, é uma maneira bastante sábia de não só conceder significado e valor às coisas da vida e do mundo, mas também usufruir de uma chance de compreender a beleza e a transitoriedade da própria existência que nós encarnamos. E tudo isso acontece – frise-se – sem termos tido o direito de escolher viver ou não. Nascemos, isso é um fato dado, tomamos consciência de nós mesmos e, posteriormente, do fato de que vamos ter que morrer um dia, e esse processo de entropia parece não possuir sentido algum, do ponto de vista de quem morre.

 

Por outro lado, possui todo (o sentido) do ponto de vista sistêmico e bioevolutivo, sob a óptica desse algo que nos gerou e que agora vai absorver. Isto é, tivemos a nossa oportunidade vital, de vir à luz e existir, alimentamo-nos de outros seres vivos para podermos nos manter íntegros e saudáveis durante essa extraordinária jornada, e agora – isso faz todo o sentido – teremos que – inexoravelmente – ceder a vez a outros seres que virão depois de nós, e – por que não dizer – alimentá-los com a nossa própria substância física vital mais sublime, dar passagem, como dizem os iniciados, à energia criadora, dando continuidade à dança da vida.

 

Aliás, eis aqui mais um sentido útil para a nossa existência, e também para a nossa morte: alimentar e suster outros seres vivos que virão depois de nós. Conclusivamente, podemos postular que não há como fugirmos dessa busca pelo sentido seminal de tudo que compõe a nossa realidade circundante, pois a realidade circundante e o nosso contexto existencial precisam – frise-se – possuir um sentido identificável e cognoscível, para que aí então possam nos parecer minimamente razoáveis, para não dizer sem sentido.

 

Existe livre-arbítrio?

 

A falta de sentido é a pior coisa para nós humanos que tendemos a racionalizar e dar sentido a tudo. E a total falta de sentido é a morte trágica e hedionda da própria razão. Tudo que existe ao nosso redor, e até mesmo a nossa própria vida,tem que possuir um mínimo de sentido, para que não projete a nossa existência no vazio abismal e ignominioso da não significação ou falta de sentido. Somos seres simbólicos, e por essa razão concedemos primordialmente significados e sentidos às coisas que nos circundam e a nós mesmos, como seres vivos, e com isso vamos criando modelos de mundo e de nós mesmos, para então caprichosamente nos encaixarmos neles, nessas porções de significação simbólica que nós mesmos idealizamos. E é ótimo que seja assim, pois, do contrário, viver seria um verdadeiro despropósito, in verbis, não faria o menor sentido. Enfim, até para refletir sobre o sentido é importante que a própria reflexão faça algum sentido, pois de outro modo ela seria de fato inútil, verdadeiramente despropositada e irrelevante.

 

 

Animal humano

Antes de concluir a nossa rude reflexão existencial sobre o sentido seminal de existir, é bom que em tempo se corrijam as enormes injustiças antropocêntricas e, em grande medida, desumanas que impomos às demais espécies vivas todos os dias, ao nos fiarmos na ideia frágil e arrogante de que todos os seres vivos existem apenas para nos servir, nutrir e serem explorados por nós.

 

Quanta tolice e crueldades! Todos eles são importantes para si mesmos e para os seus ecossistemas naturais, e também fazem todo o sentido dentro de seus próprios contextos existenciais. Evoluíram como nós a partir das mesmas criaturas rudimentares que depois amparariam todas as genealogias existentes.

 

Essa história de se compreender e se autorreferenciar como a joia máxima da bioevolução já nos levou a todo tipo de atrocidades possíveis e pensáveis, e a galgante ameaça e extinção das demais espécies vivas estão aí para não nos deixar mentir. O que se passa é que o prepotente e empedernido animal humano não é mais nem menos que ninguém, não é melhor nem pior que nenhum dos seres das demais espécies vivas existentes no planeta.

 

Ele simplesmente é diferentemente adaptado. E isso se justifica, já que vive no mesmo mundo que os demais, e por isso mesmo está sujeito às mesmas leis: nascer, viver e morrer.  A sobrevivência e concorrência entre espécies, que muitas vezes se expressam barbaramente aos nossos olhos pretensamente racionais e civilizados, manifestando-se pela força bruta e pela dizimação dos inimigos naturais, nada mais são do que modus operandi da própria bioevolução, e a violência de tais interações, por sua vez, tem suas raízes cravadas bem além do horizonte de compreensão da consciência humana.

 

São os instintos, e não a razão, que dominam em tais situações extremas. Mas como justificar, por exemplo, os recorrentes atos brutais de terrorismo em pleno século XXI? Como conceber um sentido plausível para tamanhas atrocidades? Será que a ideia de se tornar um mártir vingador das atrocidades e intolerâncias cometidas pelo Ocidente é razão suficientemente forte para a barbárie do terrorismo? Quanto a isso, recentemente (junho de 2015), o nosso mundo pretensamente civilizado foi abalado por novos atos atrozes de terrorismo fundamentalista.

 

França tem sido alvo constante de atentados terroristas

 

Muito rápido, como num corpo consciente que sofre de dor e se contorce em torno de si, a notícia correu o planeta pelas redes sociais e pela televisão. Pois, desde a Queda da Bastilha e os tenebrosos tempos da famigerada guilhotina, que não se tinha notícia de decapitações por motivações políticas em solo francês. O terrorista não só degolou sua vítima, como também em seguida, com frieza sanguinária, fez uma selfie com a cabeça cortada. E um acontecimento brutal como esse, em tempos de cibercultura e globalização, traz os fatos e acontecimentos literalmente para o nosso quintal, para o nosso jardim, e principalmente para a nossa pauta de discussão.

 

Mesmo que estejamos e nos sintamos – apenas aparentemente, frise-se – seguros aqui na pacífica e pacata América do Sul. Além dos 39 mortos, barbaramente assassinados na praia do hotel de alto luxo para turistas na Tunísia, que ocorreu no mesmo dia – segundo as autoridades, atentados coordenados através das redes sociais –, essa morte específica por decapitação em solo francês traz consigo uma enorme carga simbólica a ser decifrada. A degola, como ato antropofágico e catártico antigo, remonta à longuíssima barbárie que precedeu a civilização.

 

Sua ocorrência, nos dias atuais, indica uma condição de extrema fragilidade civilizacional, na qual a mutilação do corpo da vítima pretensamente significaria triunfo. Em seu universo restrito e tosco de entendimento, em seu exíguo horizonte de compreensão, em sua brutal desumanidade e cegueira, o terrorista pontualmente sobrepuja o sistema e de fato barbariza a civilização.

 

 

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). É membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common Ground Publishing. É autor dos livros Humano-pós-humano – Bioética, conflitos e dilemas da pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (Org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir?

E-mail: a-quaresma@hotmail.com

Adaptado do texto “Logus espermático”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 60