O ser cibernético

É normal não percebermos o empoderamento que as tecnologias cibernéticas nos trazem. E o motivo é simples: somos aquilo que concebemos, fazemos e construímos e isso vale também para as nossas técnicas e tecnologias

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quando abrimos os olhos todas as manhãs, ao acordar, não nos perguntamos o quão extraordinário é o mundo que nos cerca e sim quanto tempo há para que possamos nos integrar e ser absorvidos por ele socialmente, diante dos compromissos com a família, trabalho, amigos, Estado e as demais ocupações do dia a dia. Não nos quedamos de forma nenhuma a questionar as estruturações da democracia ou da constituição federal brasileira – em muitas situações infelizmente, diga-se – e apenas seguimos seus parâmetros e diretrizes assimilados e arraigados no conjunto sociológico em que estamos inseridos, e isso acontece para que a vida possa seguir seu caminho natural sempre em fluxo.

 

Teia de significância

Como nos ensina Martin Heidegger, o “ser-é-no-mundo”, com o mundo e através do mundo que o circunscreve, e só nele – impregnado no que o autor chama pertinentemente de teia de significância –, pois é exatamente isso que acontece em nosso cotidiano habitual: tecemos teias de significâncias em torno de nós mesmos e de nossa cultura e passamos a viver em função delas, impregnados nelas, como partes constituintes de sua própria estruturação manifesta, e essa convivência é extremamente distraída e casual e se consuma no cotidiano com muita naturalidade. Uma vez que decido ir até o computador para abrir e-mails e retomar trabalhos de leitura, revisão e resenha de outros autores, não fico aflito um segundo sequer com dúvidas conflitantes sobre ir fazer ou não essas atividades que decidi e nem muito menos ficarei refletindo detidamente que estou usando um computador que opera numa plataforma digital algorítmica, ou que estou conectado à rede internacional de computadores para ler e responder uma simples mensagem eletrônica, que num instante cruza o oceano num feixe de fibras ópticas ou coisa do gênero. Eu simplesmente faço isso e ponto final. Até mesmo o nosso próprio corpo biológico, nossa carnalidade, nessa relação, parece sumir no desempenho dessas atividades rotineiras. Não ficamos imaginando que somos um conjunto coeso e harmonioso de órgãos que amparam nossa existência, simplesmente existimos. Ademais, faz parte de nossa cultura, de nosso tempo e de nossos valores mais seminais incorporar a nós e a ela – cultura – as técnicas e tecnologias que criamos através das épocas, sucessivamente, tornando-as virtualmente invisíveis para nós. São os efeitos da tecnicização.

 

 

Biopoder tecnológico

O que não fica claro, porém – e nós aqui gostaríamos de lançar luz sobre isso –, é que está havendo uma brutal aceleração nesses processos de desenvolvimento tecnológico que fomentamos, e, de igual maneira, dos processos de absorção acrítica desses objetos e hábitos tecnocêntricos por parte das sociedades que os geram, o que vem provocando uma série de transformações importantes no que significa ser humano. Pois ser humano – é bom dizer – é ser também tecnológico, e isto, na Pós-modernidade, assume especial relevância, já que a realidade, a lógica e até o biopoder que estabelecemos e praticamos são exercidos tecnologicamente. Por outro lado, esse “ser-no-mundo” significa também “ser-este-mundo”, no sentido de que o ambiente sociotécnico que criamos é um fiel retrato de nós mesmos enquanto civilização. Por essa razão você não liga um eletroeletrônico do cotidiano pensando no seu funcionamento técnico operacional interno, sua constituição física, sua estruturação tecnológica, seus aspectos axiológicos ou simbólicos. Habitualmente, você simplesmente liga a TV ou o celular, por exemplo, e respectivamente espera poder assistir vídeos, filmes, notícias e telefonar para outros telefones fixos ou móveis para contatar pessoas que também possuam essas máquinas extraordinárias e suas complexas teias de significação agregadas.

 

A era das tecnologias

 

Relevância pela ausência

Ou seja, essas coisas acontecem justamente assim, dentro desta teia de significância que Heidegger identificou, e, como ele também nos ensina, só se tornam visíveis de fato para esse ser-no-mundo através da ausência. Nomeadamente, se eu for até a biblioteca e não houver energia para ligar a máquina, ou se ocorrer uma pane no HD do computador logo na hora de começar um trabalho importante, assim, e só assim, irei perceber naquele momento o quanto é importante ter um fornecimento constante e confiável de energia elétrica. E isso – esse evento de corte no fornecimento – pode provocar uma reflexão mais aprofundada de que essa energia está sendo gerada por uma usina hidrelétrica a milhares de quilômetros de onde estou, e que talvez tenha havido um blackout na região em que me localizo, ou, quem sabe, uma falha em alguma parte do sistema de transmissão. Enfim, paradoxalmente, é pela ausência de algo – no caso, aqui, da eletricidade – que podemos mensurar a sua real importância. Todavia, se não houver nenhum problema no acoplamento estrutural com a realidade em que encontro-me, a energia elétrica, de tão presente e necessária à minha rotina, torna-se invisível para mim que, como todos, estou enlaçado na própria teia de significações técnicas que criei para mim.

 

 

Esta forma de percepção da realidade subjacente à nossa própria percepção de nós-mesmos-no-mundo perfaz a relação que temos com todos os demais objetos e hábitos de nossa cultura. Integra a manifestação de nosso próprio ser-no-mundo. A própria relação de harmonia que experimentamos através de nosso corpo se dá nesse tudo-funcionar-em-ordem que costumeiramente chamamos de saúde. Num sujeito vigoroso e saudável, a saúde é invisível a ele próprio. Ele só passa a sentir verdadeiramente a relevância dessa saúde, paradoxalmente, quando adoece. Quem já quebrou um braço ou uma perna, ou sofreu algum outro tipo de trauma grave cuja convalescência requeira cuidados e que impeça a mobilidade sabe perfeitamente do que estamos falando. Não poder andar sozinho até o banheiro, por exemplo, para satisfazer necessidades fisiológicas, uma coisa que fazemos trivialmente todos os dias, pode passar a ser um verdadeiro drama a ser superado. Não poder apanhar um objeto, cozinhar ou mesmo tomar banho sozinho, como habitualmente, traz ao sujeito a nítida sensação da falta que a saúde faz e demonstra, cabalmente, a importância dela para o fluir natural do seu cotidiano. Trata-se de uma relevância que se explicita pela ausência.

Ciberdependência?

 

Desse modo, é normal – afirmamos – não percebermos com clareza também o drástico empoderamento que as tecnologias cibernéticas nos trazem em termos de armazenamento, compilação, organização e compartilhamento de informações. E o motivo é simples: somos aquilo que concebemos, fazemos e construímos e isso vale também para as nossas técnicas ciberculturais. E é por esse motivo também que desaparecem virtualmente todos os outros objetos técnicos de nossa cultura predominantemente tecnológica como tablets, rádios, celulares, automóveis, internet, robôs, softwares, foguetes, sondas espaciais, aceleradores de partículas, satélites, câmeras, chips, radares, sonares, antenas e displays, pois tudo isso parece estar – e de fato está – amalgamado à nossa própria existência-no-mundo. De certa forma somos esses objetos técnicos que agregamos a nós e aos quais nos agregamos também como potencializadores de nossa própria manifestação. Dentro de nossa teia de significâncias está consumado o enlace tecnológico com a realidade e a própria tecnologia, pois a técnica, como afirmamos e o próprio Heidegger percebeu, cria uma espécie de dependência da técnica pela própria técnica, autoenredante e ensimesmada, pois, como ele mesmo diz, a essência da tecnologia não é nada tecnológica, pois a tecnologia não pode ser compreendida por sua funcionalidade – continua ele –, mas apenas por nosso envolvimento especificamente tecnológico com o mundo. Até porque as tecnologias – como centros gravitacionais de nossas culturas tecnocêntricas – vão determinando bem mais do que aquilo que concerne a objetos e coisas externas a nós. As tecnociências, hoje, à sua maneira, estão ressignificando Deus, a natureza, a vida, o corpo humano e até a prévia existência desse corpo biológico antes mesmo de ele nascer e que pode – à revelia de seus próprios interesses subjetivos – ser clonado, bioengenheirado, modificado geneticamente; enfim, as tecnologias vêm para redeterminar não só quem somos, mas também o que somos e como nos constituímos, seja atômica, seja socialmente.

 

Robôs podem dominar o mundo?

 

Prerrogativas e premissas

Nesse contexto, vale frisar o papel da Filosofia da ciência e o da Sociologia da tecnologia na formulação de análises críticas para essas mesmas tecnologias que, até então, vêm sendo tratadas grosseiramente e apenas como solução (teórica e prática) para tudo, e nunca, ou quase nunca, como problema, no sentido de objeto de estudo e crítica. A escola de Frankfurt e meia dúzia de filósofos, sociólogos e antropólogos das técnicas são as honrosas exceções a esta dura regra. Entre eles estão Habermas, Horkheimer, Marcuse, Adorno, Feenberg, Ellul e o próprio Heidegger. Torna-se de fato até um pouco surreal propor a problematização das tecnologias nos dias atuais de transe tecnicista que protagonizamos, já que essas são consteladas como ótimas nos arquétipos ideais da própria humanidade, que se empodera e se transforma por meio delas, tornando-as, assim, de igual forma, símbolos modernos de potência e poder. Nesse sentido, conceber, deter e explorar tecnologia significa conceber, deter e exercer poder. A Filosofia e a Sociologia das tecnociências, nesse contexto, e principalmente a própria crítica da tecnologia, passam a ser ferramental imprescindível para este ser cibernético empoderado tecnicamente que, súbito, vê-se diante dessa extraordinária capacidade de interferência, controle e manipulação do mundo natural e de si mesmo. Pois poder fazer algo, tecnicamente, não significa absolutamente dever fazer este algo, moral ou bioeticamente. Quanto a isso, devemos estar alertas a essas prerrogativas e premissas basilares das ciências humanas e sociais, como formas de articulação e produção de conhecimento teórico, disciplinas que podem, por força dessa mesma capacidade crítica, transformar beneficamente a realidade factual da sociedade no que se refere aos interesses da coletividade. Se o mundo que nos cerca é resultado de nossa articulação tecnológica, essa articulação também acaba determinando aquilo que nós, de certa forma, somos. Eis aqui a questão posta.

 

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). É autor dos livros Humano-pós-humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (Org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir? É membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common Ground Publishing. E-mail: a-quaresma@hotmail.com

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 43