Olhar sociológico sobre a ideia de liberdade

Uma análise do filme Easy Rider – Sem Destino

Por Fabrício Basílio* e Juliana Vinuto** | Adaptação web Caroline Svitras

Dois jovens atravessando o sul dos Estados Unidos em suas motos envenenadas. Com essa premissa despretensiosa, Peter Fonda e Dennis Hopper lançam em 1969 Easy Rider – Sem Destino, um filme de estética visual transgressora, porta-voz da contracultura dos anos 60 e da transformação cinematográfica que alteraria a lógica ideológica de Hollywood. No filme, após comprarem cocaína no México e a revenderem por uma fortuna em Los Angeles, Billy, interpretado por Hopper, e Wyatt, vivido por Fonda, escondem o dinheiro restante em suas motos recém-compradas e, acreditando terem resolvido seus problemas financeiros, partem em uma jornada até a festa carnavalesca do Mardi Grass em Nova Orleans. No caminho, encontram com uma família de pequenos agricultores, visitam uma comunidade hippie e dão carona ao advogado alcoólatra George Hanson, interpretado por Jack Nicholson, tudo isso regado por paisagens deslumbrantes, caipiras de direita e experiências alucinógenas com LSD.

 

Lançado num contexto histórico comum da Guerra Fria e da Guerra do Vietnã, e no mesmo ano do lendário festival de rock Woodstock, que reuniu mais de meio milhão de pessoas, Easy Rider ecoa, de forma até então inédita em Hollywood, elementos base da contracultura, como o uso de drogas, o rompimento com as instituições e a ascensão do rock como representante cultural do movimento que clamava por paz e amor, ao mesmo tempo em que imprime um tom pessimista à continuidade do mesmo, seja pelo causador do incidente incitante do filme – ou seja, é o acúmulo de capital pela venda da cocaína que permite o suposto sentimento de liberdade dos protagonistas –, seja pela resolução de sua trama, o que pode ser resumido pela emblemática frase de Wyatt: “Nós estragamos tudo”.

 

Violência socializada no MMA

 

Além de declarações polêmicas, Hopper era conhecido por seu temperamento explosivo e pelo abusivo uso de drogas e álcool, dessa forma o contrato estabelecido por Fonda com a produtora americana AIP manteve o projeto do filme praticamente congelado. Nesse momento, surge Raybert, o produtor, que tinha feito fortuna com a produção da série de TV The Monkees e que se mostrou disposto a financiar o filme e dar total liberdade à dupla criativa. Assim, com um orçamento modesto, se comparado com as produções hollywoodianas da época, e diversas dificuldades de set, como o roubo das motos no final das filmagens, mas ao mesmo tempo com opções estéticas subversivas, que iam desde a utilização de películas manchadas até o descaso com as discrepâncias que a iluminação natural geraria em uma determinada sequência, Easy Rider alcança uma expressiva bilheteria. Além do retorno em bilheteria, Easy Rider ainda ganharia duas indicações no Oscar de 1970: melhor roteiro original e de melhor ator coadjuvante para Jack Nicholson. Ademais, Dennis Hopper ganharia o prêmio em Cannes de melhor diretor estreante.

 

Pretende-se neste trabalho utilizar o filme Easy Rider para problematizar um certo discurso sobre a liberdade. Para isso, se lança mão do conceito de discurso de Foucault para compreender sociologicamente a nossa proposta de trabalho, para enfim analisar a influência do rock enquanto música não diegética no filme, no sentido de explorar facetas que incluam o gênero musical na construção de um discurso fílmico associado à liberdade.

Foucault e o conceito de discurso

Antes de tentar compreender o que o discurso cinematográfico no filme Easy Rider pode iluminar no que tange à liberdade de sua época, faz-se importante problematizar o próprio conceito de discurso, que será trabalhado aqui a partir da obra de Michel Foucault (1999; 1979). Esse autor argumenta que os discursos revelam uma determinada verdade, permitindo-se visualizar relações políticas onde usualmente não são percebidas. Nesse sentido, pode-se considerar os discursos como uma consequência e uma necessidade do poder: “O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como a força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso” (Foucault, 1979, p. 8). O poder, ao defender determinado ponto de vista através de discursos, permite visualizar relações de saber-poder inerentes à sua produção, ou seja, quem emite discursos necessariamente defende uma posição, usualmente vinculada a determinada posição de poder, sendo possível desse modo perceber os discursos enquanto práticas sociais.

 

Nesse sentido, ao propor aqui utilizar-se do filme Easy Rider como um possível objeto analítico para se compreender as representações sociais sobre liberdade de sua época, não se objetiva revelar a liberdade real, mas desconstruí-la enquanto discurso, já que parte-se do pressuposto de que a realidade dos objetos não pode ser analisada em sua totalidade. Ou seja, intenciona-se verificar quais as ideias relacionadas à ideia de liberdade que estão expostas nessa obra de arte, já que todo discurso é produzido em um tempo e um espaço delimitados, por determinados atores sociais e sobre a influência de um contexto histórico, social e político, o que permite vincular sentido às ideias discursadas. Nesse sentido, pretende-se aqui mostrar que não há dicotomia entre uma realidade e sua interpretação, ou uma evidência direta entre o objeto referido e sua codificação verbal, mostrando que os discursos sobre liberdade em Easy Rider possuem uma materialidade, sendo interessante para analisar não apenas o que é a liberdade em si, mas sua construção social.

Filmes sobre a socialização

 

É a partir desse pano de fundo que Foucault se questiona sobre as razões para que determinados discursos sejam aceitos como verdadeiros em detrimento de outros. O autor alega que em todo discurso há uma “vontade de verdade”, que necessariamente opõe o verdadeiro ao falso, expondo uma luta na qual têm mais poder aqueles com maiores possibilidades de impor sua vontade de verdade. Tal vontade, portanto, necessita ser questionada a fim de compreender as condições necessárias do nascimento de seus discursos, do que é considerado verdadeiro para os grupos sociais. Nesse contexto, cada época tem sua vontade de verdade, que existe enquanto sistema de exclusão, justamente por desconsiderar os discursos contrários ao discurso hegemônico. Ou seja, Easy Rider é considerado neste trabalho como uma obra que só pode expor seu discurso sobre liberdade por estar localizado em um determinado momento histórico, e que ao mesmo tempo luta contra outros discursos sobre liberdade possíveis. Por isso, Foucault defende que a sociedade é perpassada por disputas pelo poder, ou seja, de disputas pelo que seria o discurso verdadeiro. No próprio filme podem-se observar discursos contrários à representação de liberdade evidenciada nos protagonistas, através da fala de policiais, homens em um bar etc. Visualizam-se assim poderes que invalidam a todo momento os discursos, sejam esses hegemônicos ou não, porém os protagonistas, pelo menos por alguns momentos, confiscam o poder de definição de verdade dominante, inclusive comportamento que acarreta em sérias consequências, como a morte de ambos os personagens. Foucault nos apresenta o argumento de que em toda sociedade a produção de discursos é controlada com o objetivo de combater os contrapoderes existentes na sociedade.

Considerações finais

Enquanto que no dicionário a palavra liberdade tem um sentido normativo, percebe-se que no filme Easy Rider há um sentido muito mais ligado às esferas econômicas e simbólicas. No dicionário consta a seguinte definição: “Direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem”. Porém, evidencia-se no filme que o exercício de liberdade é muito mais multifacetado do que essa simples definição, dado que é conquistado de forma mais complexa e tem como oposição indivíduos e instituições que não apenas respondem a supostas transgressões de seus próprios direitos.

 

Um primeiro ponto a ser levantado é o momento inicial que permite a vivência libertária dos atores principais: o trabalho. A venda de drogas é vista pelos personagens como um comércio que simboliza a necessidade de haver um capital inicial para poder ser livre. Ao evidenciar a necessidade de possuir dinheiro para poder viver livremente, liga-se a representação social de liberdade a uma dimensão econômica, na qual aqueles que não têm dinheiro teriam menores possibilidades de ser livres. Ao mesmo tempo em que revela a sociedade capitalista na qual os personagens estão inseridos, permite problematizar a função do dinheiro na vida das pessoas, dado que este permite uma existência livre desde que seja usado a favor da experiência vivida.

 

 

Outro ponto interessante que tange a ideia de liberdade representada no filme é a necessidade de se adotar uma postura autônoma e independente frente às instituições de nossa sociedade, abrindo espaços para recusa de certos dogmas que produzem restrições na vida cotidiana. A utilização de uma estética visual transgressora, a existência de personagens ligados à contracultura, a instrumentalização de uma lógica ideológica contrária às instituições estabelecidas, o uso de drogas, dentre diversos outros pontos expostos na obra de arte, possibilita espaços de liberdade cotidiana, existente nos espaços vazios de poder. Porém, a existência desses espaços não acarreta, por si só, uma vida livre, dado que o campo da liberdade é o da prática, da reprodução, da luta constante por cada vez mais espaços de liberdade. Tal argumentação está muito próxima da definição de liberdade dada por Michel Foucault (2006, p. 267), como é possível observar no seguinte trecho:

 

Se tomamos o exemplo da sexualidade, é verdade que foi necessário um certo número de liberações em relação ao poder do macho, que foi preciso se liberar de uma moral opressiva relativa tanto à heterossexualidade quanto à homossexualidade, mas essa liberação não faz surgir o ser feliz e pleno de uma sexualidade na qual o sujeito tivesse atingido uma relação completa e satisfatória. A liberação abre um campo para novas relações de poder, que devem ser controladas por práticas de liberdade.

 

Nesse sentido, percebe-se que nas mais diversas esferas sociais há necessidade de embate constante para manter e reproduzir novos espaços de liberdade, já que esta não existe por si só, mas nas batalhas cotidianas consta o status quo. Dessa forma, quando George, ao inferir acerca do estereótipo de liberdade de Billy e Wyatt, indica que ambos correm perigo em uma região deveras tradicionalista, não está mais do que evidenciando o quanto diferentes vertentes ideológicas geram conflito no filme. Assim, os personagens que após dias de estrada continuam sem encontrar um local que lhes cabe, partem para outra jornada, dessa vez para outro extremo dos Estados Unidos, a Flórida.

 

Por fim, o clímax pessimista revela os percalços enfrentados pela aplicação de uma liberdade limitada, já que nem ao menos pode se externar em um espaço público no qual estejam garantidas as condições mínimas para seu exercício. Assim, a resistência à liberdade dos protagonistas surge como a defesa de um status quo fincado em uma sociedade americana preconceituosa. O que pode ser visto nos xingamentos dos fazendeiros, que perguntam, antes de atirar em Billy, o porquê dele não cortar o cabelo. Ademais, apenas a fumaça gerada pelas motos destruídas, e junto com elas o dinheiro que proporcionou a jornada. Tudo isso filmado em uma linda tomada de helicóptero com o auxílio da belíssima canção Ballad of Easy Rider.

 

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Sociologia Ciência & Vida Ed. 69

*Fabrício Basílio é mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF). fabricio.cineuff@gmail.com

**Juliana Vinuto é doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA-UFRJ). j.vinuto@gmail.com

Fotos retiradas da revista.