Opinião: como alcançar a paz nos países árabes

Liberdade e Democracia, atual dilema das ditaduras

Por Yves de La Taille | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Se a morte de Bin Laden houvesse ocorrido há apenas um ano, todos se perguntariam se tal fato teria sido decisivo tanto para a luta contra o terrorismo quanto para frear o avanço do fundamentalismo islâmico. Tais perguntas ainda fazem sentido, porém, eventos recentes em vários países árabes redimensionaram totalmente a questão. Estou me referindo à onda de protestos contra ditaduras instaladas há décadas que ocorreram na Tunísia, no Egito e que, enquanto escrevo, ainda ocorrem, por exemplo, na Síria e no Iêmen. Nesses movimentos não está em jogo a reivindicação da criação de estados religiosos que movimentos fundamentalistas apoiariam, mas sim a exigência de regimes democráticos. Logo, parece que os maiores antídotos ao fortalecimento da mensagem terrorista e ao fundamentalismo não são as guerras e os ataques contra grupos de homens-bomba, mas sim o avanço das reivindicações democráticas das populações.

 

Mas, afinal, como compreender que pessoas pertencentes ao mundo árabe desçam corajosamente às ruas para reivindicar a democracia? Não será esse regime político valor exclusivamente ocidental, assim como os Direitos Humanos que atualmente o inspiram?

 

Se aceitarmos o que Jean Piaget escreveu em seus Estudos Sociológicos, a resposta é negativa. Segundo ele, uma forma profícua de se estudar certos valores de uma sociedade é se debruçar sobre as relações existentes entre os seus membros. Tais relações podem ser de dois tipos: coação e cooperação. Chama-se de coação toda relação assimétrica entre dois ou mais indivíduos na qual intervém um elemento de autoridade ou de prestígio. A relação de cooperação é aquela, simétrica, na qual não intervém nem autoridade, nem prestígio: os participantes veem-se como iguais.

 

Ora, cada tipo de relação tem efeitos sobre a postura dos indivíduos em relação ao seu lugar na sociedade e sobre os seus valores éticos e políticos. A coação reforça a postura heteronômica (aceitar o que é imposto) e favorece a permanência das tradições. Em compensação, a cooperação possibilita postura autônoma e favorece valores como a liberdade, a justiça baseada na igualdade e na equidade e a participação na tomada de decisão. Favorece, portanto, valores que não somente podem prosperar na democracia como a tornam regime político altamente desejável.

 

Mas haverá relações de cooperação em países de regimes autocráticos? Sim, no mundo do trabalho. Se tais regimes autoritários precisam de pessoas subservientes para permanecer existindo, também precisam, para que o país sobreviva, de indivíduos autônomos que dominem as novas tecnologias, que tenham cultura científica, que participem de reuniões de trabalho, que tenham liberdade para inovar e tomar decisões; enfim, precisam de indivíduos que saibam e queiram cooperar. Então, se esses indivíduos conquistaram a autonomia no trabalho, por que não a desejariam na Ética e na Política?

 

 

* Yves de La Taille é professor titular do Instituto de Psicologia da USP, autor de diversos livros, entre eles, Moral e Ética: dimensões intelectuais e afetivas (Artmed, 2006), vencedor do Prêmio Jabuti 2007. É colunista da Psique Ciência & Vida.

Adaptado do texto “A rua árabe”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed.35