Oriente Médio sob olhares

Por Lejeune Mirhan* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Foi a partir de dezembro de 2010, na cidade árabe de Túnis, que o levante dos povos árabes começou a ocorrer. Uns autores e jornalistas o chamam de Primavera Árabe e outros, como eu, preferem usar o termo Revolução Árabe. Não há ainda no mercado editorial brasileiro obras políticas e sociológicas  que expliquem ou tentem entender o que vem ocorrendo naquela estratégica região do mundo. No entanto, a presente obra deste intelectual libanês que reside em Paris, ainda que escrita um ano antes, vem muito bem a calhar.

 

Amin Maalouf

Quando estudei árabe na USP lia tudo que Amin escrevia. Sejam seus romances, seja o espetacular A cruzada vista pelos árabes. Talvez a única obra histórica que conta o sangrento episódio do expansionismo colonial europeu na região da Palestina. Nossos livros de história só falam a visão eurocêntrica da história. Seus romances com tradução portuguesa são Samarcande e O rochedo de Tanis.

 

O livro é muito atual e ajustado ao momento que vivemos hoje. Basicamente ele tem três grandes capítulos. O primeiro, intitula-se “Vitórias enganadoras”. O segundo “Legitimidades perdidas” e o último “Certezas imaginárias”. O desajuste do título diz respeito aos primeiros anos  do século XXI. Foi um período em que a crise econômica do capitalismo se abateu sobre os países centrais do sistema capitalista e agora em quase toda a Europa. Menciona inclusive desajustes intelectuais. Amin tenta responder por que isso tudo acontece.

 

Por ser árabe, o autor acaba por comparar o mundo oriental, majoritariamente islâmico no Oriente Médio. e o ocidental, majoritariamente cristão. Faz críticas duras – muitas delas justas – ao seu próprio mundo, aos erros cometidos pelas elites árabes dos últimos duzentos anos, mas é ferino nas críticas ao Ocidente, que diz  não se manter fiel aos seus próprios valores.

 

O autor dirige críticas às elites do mundo árabe e muçulmano. Menciona que eles não conseguiram produzir desenvolvimento, menos ainda libertação nacional, democracia e modernidade social. Maalouf procura ser equilibrado quando vê problemas nos dois mundos. Se o Ocidente diz que o Islã pode ser incapaz de adotar valores universais, por outro lado o Ocidente vem demonstrando cada dia mais a sua avidez por impor seu pensamento e sua dominação do planeta, impor seus valores de forma que restaria aos muçulmanos a pura resistência.

 

Não se pode imaginar a democracia  nos moldes ocidentais. Afinal, a invasão estadunidense no Iraque foi para levar qual democracia àquele país? O modelo lá implantado é uma democracia? Qual seu limite? Maalouf indaga-se se seria  possível construir uma civilização universal, com valores universais, guiados pela fé na aventura humana e enriquecida pela diversidade cultural de todos os povos. Há uma crítica explícita à invasão dos Estados Unidos que acabou por mergulhar o país num sectarismo ainda insuperável.

 

Eivado de reflexões humanistas e filosóficas, Maalouf chega a citar o profeta Maomé, quando este teria dito: “O melhor dos homens [humanos] é o que mais útil é aos homens”. A partir disso, ele nos indaga: o que estamos trazendo aos outros e a nós mesmos? Em que estamos sendo “úteis” aos homens? Não estaríamos sendo guiados apenas pelo desespero suicida, que é a pior das impiedades?

 

As maiores críticas do autor recaem, claro, sobre os Estados Unidos. Maalouf lista, só depois de 1989, quando o muro de Berlim veio abaixo, todas as intervenções militares apoiadas pela superpotência norte-americana. Como o livro é de 2009, ficou faltando o bombardeio à Líbia no norte da África e os ataques terroristas a partir de mercenários que ocorrem hoje na Síria. Os EUA, o país mais endividado do mundo, vivem muito acima de suas possibilidades, mas seguem sendo a maior potência militar do planeta. É verdade que a América vai se recuperar do trauma da invasão iraquiana. Mas, seguramente o Iraque não se recuperará tão cedo do trauma americano. Os EUA investiram-se no papel de autoridade planetária sem que lhes tivesse sido dado esse papel. Cada dia mais seu sistema de valores se tonou uma espécie de norma universal e seu exército se tornou a polícia do mundo. Quem era seu aliado acaba virando seu vassalo e seus inimigos  e adversários viram foras da lei. Maalouf conclui: uma situação sem precedentes na história da humanidade. E arremata: “Enquanto os EUA não persuadirem o restante do mundo da legitimidade moral de sua preeminência, a humanidade permanecerá em estado de sítio”.

 

O livro tem aspectos históricos, sociológicos e políticos. Em linguagem fácil, Maalouf faz comparações com o processo de unificação dos Estados nacionais na Europa. Menciona até as reformas e mudanças profundas ocorridas na Turquia no início do século XX com Ataturk. No entanto, nos territórios árabes isso não aconteceu. Suas elites viveram como que descoladas do processo histórico de avanço e de progresso. Nessa parte do livro há uma narrativa que descreve com didatismo o processo de colonização britânica e francesa do Oriente Médio. No país do autor, o Líbano, e na Síria foi a França, e na Palestina e no Egito, a Grã-Bretanha. E descreve ainda o processo da criação do Estado de Israel, que em maio passado completou 69 anos de sua instalação por Ben Gurion.

 

Pelo peso que tem, o Egito é descrito em detalhes e sobram críticas ao seu mais famoso presidente, Gamal Abdel Nasser. O período nasserista é descrito como de ouro no mundo árabe. O povo árabe viveu  de cabeça erguida. É como se a época de Saladino fosse revivida (1169 conquista o Egito, 1174 Damasco e 1177 retoma a Palestina das mãos dos cristãos). Um herói nacional. Há um elogio claro ao povo libanês, a rigor o único que consegue derrotar Israel e seu quarto maior exército do mundo. A sua expulsão do sul do Líbano em maio de 2000 e a sua derrota e de sua aviação em junho de 2006 são exemplos mencionados. Também o Irã e o golpe de estado de 1953 são mencionados como exemplos da dominação imperialista na região.

 

O autor não é socialista. Muito ao contrário. Em várias passagens demonstra simpatia com o sistema capitalista, que é enaltecido em algumas passagens. No entanto, é crítico do modelo da financeirização do capital. Dinheiro que se reproduz em mais dinheiro sem passar por nenhuma forma de produção. Desconectado de qualquer atividade física ou intelectual. Fictício.

 

Ao final, diversas passagens são mencionadas no Alcorão que incentivam o saber. Vale a pena o registro: “a tinta de escrever de quem sabe vale mais do que o sangue do mártir”; “os que sabem são herdeiros dos profetas”; “procurem o saber, até na China se for preciso”; “estudem, do berço ao túmulo”. Mesmo no Talmude, dos judeus, há uma passagem enaltecida que diz “o mundo só se sustenta pela respiração das crianças que estudam”. Ora, por que os seres humanos não aplicam isso e radicalizam até as últimas consequências?

 

Aos historiadores, sociólogos, filósofos e mesmo aos especialistas em geopolítica é um livro que se recomenda pela atualidade, pelo vigor intelectual, sem o pedantismo  de centenas de citações bibliográficas. Vale a pena lê-lo.

 

Livro: O mundo em desajuste                                                                                                                                                         Autor: Amin Maalouf                                                                                                                                                                       Editora: Difel                                                                                                                                                                                     Ano: 2011                                                                                                                                                                                           Páginas: 303 págs.

 

 

*Lejeune Mirhan é jornalista. Membro do Conselho Editorial da revista Princípios. É do Conselho de Colaboradores da revista Crítica marxista e colaborador de diversas outras publicações.

Adaptado do texto “Para onde vai nosso mundo”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 44