Os robôs serão nossos rivais?

As inteligências artificiais também poderiam se tornar nossas concorrentes bio)evolutivas, ou seja, as nossas rivais de silício?

Por Alexandre Quaresma* | Foto: Wikimedia| Adaptação web Caroline Svitras

 

Com as IA busca-se emular os fenômenos extraordinários da vida, consciência e inteligência, e isso acontece principalmente por meio da criação e desenvolvimento de novos sistemas computacionais e algoritmos cada vez mais sofisticados, complexos e potentes, que, passo a passo, vão, de uma forma ou de outra, imitando – com a maior fidedignidade possível, e de acordo com o estado da arte tecnológica do momento – os nossos sistemas sensoriais, motores e corporais. Trata-se de um grande e multifacetado mosaico em construção: alguns grupos de pesquisa trabalham com o velho e difícil problema do reconhecimento de padrões de imagem, que para nós humanos já é muitíssimo bem resolvido bioevolutivamente em nossa visão e cognição, mas que para as máquinas é muitíssimo mais complicado e complexo de se tentar emular; outros grupos se empenham no aprimoramento e reconhecimento de padrões de voz e traduções – programas que ouvem e falam com seus usuários; outros se ocupam em desenvolver solucionadores gerais de problemas específicos, como em jogos e teoremas, por exemplo; outros com a replicação da visão e da percepção humanas em meio artificial, imitando assim essas habilidades e aptidões em meio cibernético-informacional; outros com a compreensão progressiva de como esses processos complexos ocorrem no cérebro humano, para poder aí então emulá-los, reproduzi-los e controlá-los; outros ainda com auto-organizações e inteligências coletivas distribuídas nos próprios sistemas; ou com computação massivamente paralela e quântica, e assim por diante.

 

Daniel Clemente Dennett, dos EUA, adepto da Filosofia da mente. Propõe uma reflexão profunda acerca dos tipos de mente existentes para apoiar a criação de máquinas verdadeiramente pensantes | Foto: Wikipedia

Um bom exemplo desse tipo de busca explícita e determinada encontra-se acessível a nós nesse relato de Dennett (1997, p. 21), que é diretor do Center for Cognitive Studies, na Tufts University, nos EUA: “No Laboratório de Inteligência Artificial no MIT, Rodney Brooks e Lynn Andrea Stein montaram uma equipe de especialistas em robótica e outros especialistas (inclusive eu mesmo) para construir um robô humanoide chamado Cog. Cog é feito de metal, silício e vidro, como os outros robôs, mas o projeto é tão diferente, tão mais parecido com o projeto de um ser humano, que Cog pode algum dia se tornar o primeiro robô consciente do mundo”.

 

Entre outras coisas, o robô Cog é programado de modo a direcionar suas câmeras e lentes – ou seja, a sua “visão” – de acordo com o movimento de corpos e objetos no seu entorno, reagindo e focalizando qualquer alvo móvel que entre no seu campo sensível de detecção. “Ser acompanhado desta maneira [– informa-nos Daniel Dennett (1997, p. 22) –] é uma experiência estranhamente perturbadora, mesmo para aqueles que conhecem o projeto. Olhar dentro dos olhos de Cog enquanto ele por sua vez retorna o olhar pode ser de “estarrecer” para o não iniciado, mas não existe ninguém ali – não ainda”.

 

Notemos que esse reticente “ainda” de Dennett denota uma certa promessa para o futuro, ou, no mínimo, uma crença pessoal do autor de que um dia haverá alguém ali. Dreyfus (1975, p. 99), referindo-se a Minsky – mas numa crítica estrutural aplicável também a Dennett –, afirma de maneira cínica que a maioria das pesquisas existentes em IA parte conceitualmente “de um processo metafísico fundamental [totalmente equivocado, concordamos com Dreyfus nesse ponto], concernente à natureza da linguagem e do comportamento humano inteligente, a saber, que qualquer comportamento ordenado em que as pessoas se empenham pode ser, em princípio, formalizado e processado por computadores digitais”. Quando de fato não é bem isso que se passa na neurofisiologia e nas neurociências, por exemplo. Até hoje não há nenhuma prova concreta que nos leve a crer que possa existir uma linguagem ou código capazes de traduzir a essência do ser vivo, pois a complexidade do vivo em manifestação é tamanha, tão rebuscada e ainda misteriosa, para nós, que dificilmente um dia uma linguagem lógica formal poderá transcrevê-la em toda a sua plenitude. Tal tradução ou decodificação pode simplesmente ser impossível nesses termos, isto é, inviável através da lógica formal, o que torna inapropriado falar então do corpo humano como uma espécie de máquina ou mesmo computador. Os algoritmos e a própria lógica formal tratam de quantidades, enquanto que a vida e a biologia se baseiam em qualidades.

 

Novos paradigmas
Marvin Lee Minsky, do MIT, criador do primeiro computador baseado em redes neurais | Foto: Wikipedia

Ou seja, torna-se bastante provável e até compreensível que tais processos mentais não respeitem e de fato ignorem os preceitos e leis rígidos da física. Os seres vivos, como sabemos, e em especial os humanos, quando diante de quaisquer situações do dia a dia, exprimem em seu raciocínio e pensamento comum uma infinidade de propriedades concernentes à reflexão e ação em relação à situação em que se encontram, pois disso derivará (ou poderá derivar) – principalmente em injunções concorrenciais bioevolutivas quase sempre duras e acirradas – a sua própria sobrevivência.

 

A consciência humana viva para poder se manifestar tem de estar necessariamente “utilizando uma organização perceptual global [informa-nos Dreyfus (1975, p. 270)], fazendo distinções pragmáticas entre operações essenciais e dispensáveis, lançando mão de casos de paradigmas, e utilizando um senso comum da situação de modo a transcenderem os seus significados”. Além disso, na verdade, por mais paradoxal que isso possa parecer ao físico e também ao filósofo, o significado (ou significados de algo) é apenas parte da realidade percebida e processada pelo cérebro consciente humano em cada momento, tendo em vista que até a falta ou ausência de significado de uma determinada situação (ser, objeto ou coisa) pode vir a desempenhar importante papel como força motriz na busca desse mesmo significado e sentido por ora inexistente ou não concebido.

 

O ser cibernético

 

A chave-mestra que nós humanos possuímos para encarar e resolver essas situações parece ser a capacidade de – num átimo – contextualizar e descontextualizar assuntos, seres, objetos, lugares e situações, de acordo com a necessidade e a contingência circunstancial de momento. Tomamos decisões ou chegamos a conclusões importantíssimas e complexas, que envolvem infindáveis variantes e alternativas, sem sequer nos darmos conta de que tão hercúleas habilidade e aptidão estejam sendo manifestadas. Desde o nível biomolecular até as constituições fisiológicas gerais, são tantas propriedades e adaptações bioevolutivamente necessárias à vida do organismo que se torna realmente difícil aceitarmos a ideia de que se possam reproduzi-las com harmonia e perfeição em meio cibernético-informacional, de modo a se poder afirmar com segurança que se está a tratar de um ser vivo, inteligente e consciente, sob a forma de um robô ou computador.

 

Ainda assim, muitos pesquisadores competentes e respeitados desde há muito tempo dentro da academia creem que as máquinas vão de fato, um dia, no futuro, pensar, mesmo que isso se dê de outra maneira que não a úmida, biológica e sináptica forma sistêmica que amparou e ainda ampara todo o pensamento inteligente e consciente existente no planeta até então. Sem esquecer que, como escrevem Graham Button, Jeff Coulter, Jouh Lee e Wes Sharrock (1998, p. 40), existem outras questões importantes envolvidas, já que “muitos de nós supostamente somos apegados à noção de que a máquina não pode pensar porque isso garante o nosso senso de superioridade, e esse tipo de arrogância seria seriamente atingido se se pudesse mostrar que a máquina pode, na realidade, pensar, entender, estar consciente etc.”.

 

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*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente) vinculada à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). É membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common Ground Publishing, e autor dos livros Humano-Pós-Humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (Org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir?
E-mail: a-quaresma@hotmail.com

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 68

Adaptado do texto “Rivais de silício “