Política ensinada em Game of Thrones

Na série A Guerra dos Tronos é possível identificar realismo, utopia e tradição, principalmente em relação às características das personagens Tyrion Lannister e Daenerys Targaryen

Por Alessandro Figueiredo* e Roberto Paschoalino** | Fotos: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

Embora na guerra dos tronos de As crônicas de gelo e fogo existam vários personagens opostos, dois deles se destacam por seus antagonismos em relação à abordagem política que utilizam em suas atividades: Tyrion Lannister, forte adepto do realismo político (ou até mesmo de um hiperrealismo), e Daenerys Targaryen, uma sonhadora indócil.

 

O realismo político de Tyrion Lannister ocorre em um sentido estrito, de modo que para ele a realidade existe independentemente de nossos pensamentos e crenças sobre isso, o que é reforçado por seus argumentos céticos, em que suas experiências prevalecem sobre os sonhos, e um forte pragmatismo preocupado com experiências concretas e as consequências das ações políticas (Marshall, 1998).

 

Interessante notar sobre esse personagem que suas características políticas não são meramente oriundas de sua difícil vida familiar, como filho bastardo por rejeição, mas são substancialmente herdadas de seu pai, que, embora o trate com desprezo, conseguiu passar para ele preciosas lições sobre o comportamento político, ainda que de forma indireta.

 

Tyrion Lannister consegue determinado reconhecimento de seu pai, chegando a ser indicado por ele para vários cargos importantes no alto governo

Dadas essas características, é possível pensar que Tyrion é o único filho de Tywin Lannister, Senhor de Rochedo Casterly, que apresenta a aptidão política necessária para o projeto de poder da família; esse plano é de grande valia para seu pai, que o iniciou e luta constantemente para mantê-lo, em vista da sua imensa aversão ao esbanjamento, frouxidão e ruína que caracterizaram o governo de seu avô. Assim, mesmo em face de todas as dificuldades familiares, Tyrion Lannister consegue determinado reconhecimento de seu pai, chegando a ser indicado por ele para vários cargos importantes no alto governo, restando aos seus irmãos pouco espaço no espectro político, uma vez que sua irmã Cersei Lannister é reconhecida somente por sua beleza e condição de esposa do rei Robert e seu irmão Jaime Lannister é apenas reconhecido como espadachim (embora essa qualidade tenha sido comprometida com a amputação de sua mão). Contudo, Tywin Lannister gostaria que seu filho Jaime Lannister fosse seu principal herdeiro político, visto seu desprezo por Tyrion, o que amplia os conflitos familiares traduzidos na negação do legítimo direito à herança do Rochedo Casterly para Tyrion.

 

Mesmo em face de todos esses problemas e conflitos, Tyrion Lannister se destaca na Guerra dos Tronos, uma vez que seu realismo político, ceticismo, pragmatismo e posicionamento antiutópico apresentam na história excelentes resultados. Visto que ele já escapou de um sequestro, sobreviveu a combates, recebeu reconhecimento do pai sendo indicado para os mais altos cargos do reino, como Mão do Rei, liderou e venceu uma das principais batalhas da Guerra dos Cincos Reinos.

 

Tywin Lannister, Senhor de Rochedo Casterly, é pai de Tyrion e mostra a vocação política necessária para o projeto de poder de sua família

 

Todavia, é preciso notar que Tyrion Lannister não é um príncipe de Maquiavel, um homem de virtu capaz de seduzir a Fortuna, essa mulher insaciável, uma vez que ele mesmo se demonstra inconfortável com as tramas da disputa pelo poder. Seu realismo político é de um empirismo mais próximo do cardeal Mazarin, com seus preceitos de simulação, dissimulação, desconfiança constante, elogios esbanjadores e reflexão que são catalisados por seu espírito satírico, embora suas práticas políticas sejam bem ajustadas com as oportunidades que surgem, conferindo-lhe características maquiavélicas. Entretanto, na sua cabeça de raposa falta claramente o corpo de leão prescrito por Nicolau Maquiavel (Mazarin, 2013; Maquiavel, 1999).

 

A feiticeira Mirri Maz Duur é feita prisioneira, estuprada várias vezes e depois se vinga de Daenerys Targaryen, levando à morte de seu marido e de seu filho

Já Daenerys Targaryen é uma devaneadora política indócil, marcada por seu liberalismo e radicalismo, que em longo curso também apresenta um forte culto à raça (seja por sua família Targaryen ou por sua etnia Valyrian). Inconsequente em relação aos resultados e desdobramentos, pressionou seu marido a poupar uma feiticeira prisioneira (Mirri Maz Duur) que estava sendo violentada. Acreditando-se sua salvadora, Daenerys passou a confiar na feiticeira, como se ela lhe devesse lealdade pelo fato de tê-la poupado do estupro e da morte certa. Essa confiança arrogante acabou levando à instabilidade política em sua tribo, quando a vingança da aprisionada leva à morte tanto seu filho quanto seu marido. Daenerys foi incapaz de conceber que, na verdade, ela não salvou Mirri Maz Duur, que fora estuprada várias vezes e vira sua vila ser destruída, preferindo vê-la como uma traidora ingrata. Ao invés de tomar isso como uma crítica a todo o complexo de salvadora, Daenerys Targaryen, mesmo assim, continuou ampliando seus planos utópicos.

 

Sua visão utópica predomina desde sua inserção na política, quando seu irmão procurava apoio para retornar ao trono. Ao ponto de que acreditava que o irmão se casaria com ela para manter a tradição familiar. Depois, ela aderiu sua meta política de reconquista do trono, mesmo não se casando com o irmão e este já estando morto. Além disso, tentou “civilizar” o marido nômade levando ele e seu filho à morte. E constantemente ignorou os vários avisos pragmáticos de seus conselheiros, assim sempre expondo seu exército a elevados riscos sem medir as consequências. Consegue resultados, mas sempre com alta taxa de risco. Sua ideia é gerar empatia da sua luta de reconquista do poder com a libertação dos outros, principalmente escravos. Espera que com isso eles venham a aderir à sua causa e ponto de vista. Ela acredita na força do exemplo – e, no caso, a despeito do ideal libertário, antiescravista, o exemplo é ela própria, a libertadora.

 

Os arquétipos de Tyrion Lannister e Daenerys Targaryen se assemelham ao antagonismo de dois pensadores políticos renascentistas: Nicolau Maquiavel, o fundador da Ciência Política Moderna, e Thomas Morus, o patrono dos estadistas e políticos.

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Maquiavel utiliza o empirismo para escrever através de um método indutivo e pensa em seus escritos como conselhos práticos, sendo, além disso, antiutópico e realista. A teoria não se separa da prática em Maquiavel. Os conceitos desenvolvidos por ele rompem com a tradição medieval teológica e também com a prática, comum durante o Renascimento, de propor Estados imaginários perfeitos, os quais os príncipes deveriam ter sempre em mente. Já Thomas Morus, em sua famosa obra Utopia (1516), criou uma ilha-reino imaginária que alguns autores modernos viram como uma proposta idealizada de Estado.

 

Conforme descreve Fernando dos Santos Modelli: “A principal diferença entre Maquiavel e Morus talvez esteja no papel da violência nos assuntos políticos: o renascimento do Norte de forma geral tendia a criticar o papel da violência seguindo o pressuposto cristão de que todos eram irmãos. A própria Utopia foi feita evitando ao máximo a possibilidade de guerra e não existe pecado maior nessa visão do que o derrubamento de sangue de utopianos. Maquiavel, por outro lado, cria no centro da sua teoria política o papel da violência nos assuntos da política”.

 

Logo, observamos que a questão da violência também aparece no antagonismo entre Tyrion e Daenerys. Embora ambos demonstrem preocupação com a economia política evitando derramamento de sangue, Tyrion não demonstra uma preocupação romântica com isso, assim utilizando a violência em qualquer situação que essa se demonstre necessária, mesmo que isso signifique levar seu deformado corpo para o campo de batalha, queimar inimigos vivos ou patrocinar duelos. Enquanto Daenerys tenta sempre impor uma rendição dos inimigos primeiramente por meios diplomáticos, mesmo seus dragões são usados a princípio como meios persuasivos e somente depois para o combate quando já se esgotaram as propostas não violentas. Soma-se a isso que Daenerys também considera que todos possuem direito a certo nível de dignidade em que a escravidão não é aceita.

 

Daenerys Targaryen pode ser definida como uma devaneadora política indócil, marcada por seu liberalismo e, ao mesmo tempo, radicalismo

 

É interessante pensar também que o idealismo de Daenerys está intimamente ligado ao autoritarismo e à imposição de sua vontade pela violência. Sua campanha de libertação de escravos a leva a uma guerra atrás da outra, e sua diplomacia é muito restrita: libertem os escravos (mão de obra de base das economias locais) ou matarei todos os senhores de escravos. Já Tyrion atua de maneira muito mais eficaz diplomaticamente, pois está disposto a negociar, estabelecer alianças, blefar e enganar.

 

Tradição e família

Ned Stark e seu herdeiro, Robb Stark, tiveram mortes impactantes, com graves consequências familiares. A natureza de suas mortes, porém, foi bastante distinta. Ned é executado devido a sua inabilidade política, fruto em parte da sua moral rígida, que comprometeu a posição de sua família perante o rei e colocou em risco suas duas filhas, apesar do esforço malsucedido de protegê-las de suas ações. Mas ele morreu deixando herdeiro, esposa e vassalos resguardados, no Norte. As ações de Robb tiveram consequências mais funestas para a Casa Stark, praticamente pondo fim a ela: ele morreu sem herdeiro, com sua capital tomada pelo inimigo, seus irmãos dados como mortos, com vassalos mortos, reféns e exército desfeito.

 

Ned Stark é morto em função de sua inabilidade política, consequência de sua moral rígida que comprometeu a posição da família perante o rei

 

Parte dessas diferenças pode ser explicada pela natureza distinta das ações perpetradas por cada um deles. Ned tinha um senso de honra primeiramente familiar: desposou aquela que seria a mulher de seu finado irmão; tentou proteger seus aliados e suas filhas das consequências de seu malogrado golpe após a morte de Robert Baratheon. Mesmo quando aceitou ser Mão do Rei devido a laços de lealdade ao amigo Robert, Rei dos Sete Reinos (que era como um irmão para ele), fez questão de separar esse ato pessoal de uma obrigação familiar, afinal, mulher e herdeiro ficaram no Norte.

 

Já Robb Stark, que pegou em armas para vingar a morte de seu pai, tinha um senso de dever com uma diferença marcante em relação ao de seu pai: Robb colocou sua honra, seu senso de dever acima do comprometimento com sua família. Quando ele desfaz o acordo feito com Walter Frey para casar-se com outra mulher, ele está agindo de acordo com uma conduta essencialmente egoísta, sem pensar nas consequências de seus atos. No livro, ele se casa com uma mulher de uma casa vassala dos Lannister, pelo fato de ter com ela copulado; por ter atentado contra a honra dela, ele tinha o dever de desposá-la, para reparar o mal; já na série, ele casa com a mulher de Volantis por amor. Em ambos os casos, trata-se de uma atitude que mesmo se considerada sob o ponto de vista da honra pessoal não se sustenta: o rompimento de um acordo de casamento em que ele empenhou sua palavra, e que lhe angariou o precioso apoio militar dos Frey, é mais lícito do que não desposar uma mulher com quem ele copulou enquanto estava doente, ou do que não casar por amor?

 

Ao descumprir o acordo feito com os Frey, Robb está colocando suas vontades pessoais acima de seu dever como líder da família Stark. Quando confrontado com situação similar, Ned agiu de forma completamente diferente: manteve o compromisso de casamento que sua família tinha feito, assumindo o lugar de seu irmão; e, mesmo tendo tido um filho com uma mulher do Sul, ele retorna para sua casa, trazendo Jon Snow consigo.

 

Filho de Ned, Robb Stark se diferencia dele, pois coloca sua honra, seu senso de dever acima do comprometimento com sua família ao vingar a morte do pai

Mas a escolha egoísta e inconsequente de Robb, não obedecendo à política familiar, só tem consequências funestas porque um dos outros atores envolvidos, a Casa Frey, também agiu de maneira egoísta, tomando como particular uma injúria que poderia ter sido sanada com amplos benefícios para a casa, e desconsiderando aspectos sociais importantes, na sua desmedida vingança (o Casamento Vermelho). De fato, o casamento com a família Stark, autoproclamada soberana do Norte, representaria um grande salto para a família Frey, de média importância no espectro da Guerra dos Tronos. Contudo, o casamento com a família Tully, soberana das Terras do Tridente e suserana dos Frey, representaria também uma ascensão singular, algo com que ela era incapaz de sonhar antes dos eventos que deflagraram a Guerra dos Cinco Reis, posto que sua família angariara proeminência econômica com o comércio, mas ainda era vista como uma casa menor pelas outras famílias nobres. Com efeito, a maior ambição dos Frey era ser aceito pelas demais famílias nobres. Ainda que a promessa de Robb Stark tenha sido rompida, foi-lhes oferecida uma troca vantajosa como contrapartida.

 

A família Frey optou por uma ação politicamente mal calculada, não apenas traindo seu suserano jurado, mas matando-o de forma exemplar e quebrando a tradição de hospitalidade, o “pão e sal”. Ainda que esse ato tenha lhe angariado recompensas, como a posse da capital da família Tully, ela teve consequências funestas: ao desprezo velado pela família com poder mercantil, sobrepôs-se um desprezo patente, em função de eles terem traído o suserano e a tradição. Num mundo em que a lealdade é um dos elementos centrais, a traição deve ser algo bem estudado, sob o risco de o traidor ser tratado como alguém que não é digno de confiança, como ocorreu com os Frey: à primeira oportunidade, os Lannister, novos suseranos dos Frey, impediram que eles se tornassem os soberanos do Tridente, concedendo o privilégio a outra família. De uma família em vias de ser aceita pela nobreza, com o casamento ou com os Stark ou com os Tully, os Frey reafirmaram sua posição subalterna perante as demais casas, angariando, com a vingança, apenas benefícios econômicos.

 

Relações de poder

Considerando os principais arquétipos políticos encontrados na narrativa de As crônicas de gelo e fogo, observamos que o cenário principal da obra são as relações de poder, e essas se encontram até nas relações de produção, consumo e enriquecimento, de modo que a política se sobrepõe a todos os outros fenômenos sociais abordados na narrativa. Contrariando qualquer cenário marxista em que o poder econômico é o principal determinante social evidenciado em uma luta de classes. Inclusive a obra está mais voltada para conceitos de teorias das elites de Vilfredo Pareto, Gaetano Mosca e Robert Michels, em que há múltiplas elites em embate constante pelo poder na sociedade.

 

Facilmente é possível distinguir por símbolos e significações um cenário micropolítico, do âmbito familiar, e outro macropolítico das cidades e reinos. Contudo, essa distinção é meramente simbólica, uma vez que o autor constantemente demonstra pelos diversos cenários políticos e atuação dos atores políticos que não há sequer uma linha tênue entre a macro e a micropolítica, que aparecem juntas durante toda a narrativa. A posição familiar e a posição política sempre surgem como um único cenário em que os atores políticos precisam atuar sem compartimentar essas esferas, uma vez que uma gera consequência na outra. Por exemplo: o Casamento Vermelho.

 

Ned Stark (mais próximo na imagem) é morto em função de sua inabilidade política, consequência de sua moral rígida que comprometeu a posição da família perante o rei

 

O cenário da obra é dotado de características maquiavélicas e hobbesianas, de modo que há um rompimento com a moral cristã apresentada pela ausência de maniqueísmo entre os atores políticos, o que faz com que também não seja evidente para o leitor a existência de heróis, anti-heróis e vilões, destacando assim que os fins justificam os meios, já que o certo e errado são julgados pelo resultado político obtido. Da mesma forma, o cenário é hobbesianamente composto pela violência (“o homem é o lobo do homem”), sendo o medo de uma morte violenta uma constante do cenário social a ser considerada pelos atores políticos em cada atuação. Aqueles que ignoram as variáveis maquiavélicas e hobbesianas em seus atos acabam por encontrar o fracasso político e consequentemente a morte violenta. Por exemplo, a decapitação de Eddard Stark, o fratricídio místico de Renly Baratheon, o genocídio dos Stark no Casamento Vermelho, o envenenamento de Joffrey Baratheon etc.

 

Logo, não há uma Jornada dos Heróis, o Monomito, do antropólogo Joseph Campbell (2004), em que há estágios, como partida, iniciação e retorno, compostos por ritos de passagens e decisões acertadas que garantirão um destino heroico. Mesmo que haja um dos personagens que se enquadre nessa tipologia, essa situação é claramente disfarçada pelo autor da obra, que, em entrevista ao canal HBO (Home Box Office) – produtor da versão televisiva –, orienta os fãs que não se apeguem a nenhum dos personagens, visto que o futuro deles é incerto e a coletânea de livros ainda não acabou. Ou seja, o arquétipo do herói não possui espaço na Guerra dos Tronos.

 

Filosofia: Os fins justificam os meios

 

Precisamos também observar que a versão televisiva deixou mais óbvio o cenário político maquiavélico da história, uma vez que a série original de livros intitulada As crônicas de gelo e fogo (no original em inglês: A Song of Ice and Fire) foi alterada para a televisão como Game of Thrones (A Guerra dos Tronos / O Jogo dos Tronos), ou seja, destacou a base principal dos fenômenos sociais da história. Assim como o lema televisivo da série, “When you play the game of thrones, you win or you die” (Quando você joga o jogo dos tronos, você ganha ou você morre), também transpareceu o caráter hobbesiano desses fenômenos. Este lema é o nome do sétimo episódio da primeira temporada na televisão, You Win or You Die, retirado de um dialogo entre Cersei Lannister e Eddard Stark.

 

Assim, As crônicas de gelo e fogo, embora seja uma obra de ficção, é um bom exemplo de arquétipos políticos, destacando-se por seu realismo tanto micro quanto macropolítico, o que ilustra modelos políticos familiares e públicos, posto se tratar de uma fonte contemporânea. Sendo um de seus principais destaques a forma como os cenários micro e macropolítico estão mesclados nas relações de seus atores políticos.

 

 

*Alessandro Farage Figueiredo é sociólogo e cientista político pela Universidade Federal Fluminense. E-mail: alefarage@gmail.com.

**Roberto Bousquet Paschoalino é sociólogo e urbanista pela Universidade Federal Fluminense. E-mail: robertobousquet@hotmail.com.

Adaptado do texto “Os arquétipos políticos”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 64