Por que Bento XVI renunciou

O dia em que a modernidade exigiu atitudes do Trono Petrino

Por Aron Édson Nogueira Giffoni Barbosa* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O mundo se assustou com a notícia de que Bento XVI havia renunciado ao cargo mais importante da hierarquia católica. Muito se fala sobre os reais motivos dessa atitude corajosa, mas ninguém sabe, ao certo, o que motivou Joseph Ratzinger, além das razões confessas de sua saúde debilitada e idade avançada. Entendemos que a atual situação da Igreja Católica esteja ligada ao avanço da modernidade e seus efeitos sobre a religião, que já discutimos nesta revista em edição anterior (BARBOSA, 2012), e é a partir desse viés que analisaremos a renúncia e seus desdobramentos.

 

 

Dentro de seu pontificado, Joseph Ratzinger embarcou em alguns temas polêmicos. Acredita-se que a dificuldade em lidar com isso lhe rendeu motivos para a renúncia, aliada à influência da modernidade nos assuntos religiosos.
Um dos mais recorrentes e problemáticos assuntos para a Igreja Católica é a pedofilia, principalmente com a revelação dos casos ocorridos no clero irlandês, e as sucessivas revelações em diversos países da Europa, assim como nos Estados Unidos, sem mencionar as antigas denúncias que submeteram o finado João Paulo II a uma saia justa também. O tratamento para os abusos sexuais foi mais enérgico que em qualquer outro pontificado. O Papa Bento XVI encontrou-se com vítimas, pediu perdão, pediu que casos não fossem mais abafados e que fossem denunciados à justiça comum. Aceitou a renúncia de bispos, arcebispos e cardeais envolvidos em escândalos; esse problema se tornou o maior sofrimento de Bento XVI. Outros temas complexos para a Igreja Católica durante seu pontificado como a posição contrária ao uso de preservativos e ao aborto o levaram também a se manifestar de forma ativa, em linha com o posicionamento católico (IHU).

 

Revogou a excomunhão dos lefebvrianos, que se negaram a reconhecer o Concílio Vaticano II, por acharem que ele rompia com a tradição da Igreja. Inicia uma revisão na Liturgia, com o intuito de reduzir os abusos litúrgicos. Com a publicação do Motu Proprio Summorum Pontificium, surge a possibilidade de celebrar novamente a missa em latim, e também os outros sacramentos, e também autorizando que a Missa Tridentina seja celebrada publicamente e à vontade dos cristãos (IHU).

 

O escândalo do IOR – Instituto para as Obras de Religião –, conhecido como Banco do Vaticano, fez com que o presidente envolvido em denúncias sobre sua administração fosse demitido. O que levou à tona a questão financeira do Vaticano, sobre suas riquezas, altos salários, lavagem de dinheiro, entre outros.

 

 

Ainda, devemos mencionar o Vatileaks, que veio à tona em 2012, quando alguns documentos secretos do Vaticano foram expostos pela imprensa italiana, e esses documentos continham informações que colocaram a Igreja Católica dentro de um coliseu cercado de corrupção, nepotismo, favoritismo e luta por um poder que, aos olhos dos católicos, nunca deveria existir. Além disso, tornaram-se públicas as cartas secretas do Papa Bento XVI e seu secretário pessoal, onde o Vaticano aparece como um centro de confabulações, intrigas e confrontos entre facções secretas. Sem dúvida, essa foi uma das maiores crises que o Vaticano enfrentou durante todos os anos de sua existência.

 

O sociólogo brasileiro Luiz Alberto Gomes de Souza, em entrevista a um programa de TV, disse que acredita que a decisão de Bento XVI em renunciar se concretiza com a leitura do dossiê investigativo encomendado por ele para esclarecer o vazamento de informações. Segundo o especialista, talvez a idade e saúde não sejam os reais motivos de sua saída. O sociólogo pontua algumas coisas importantes que ficaram congeladas durante um tempo e que o novo Papa terá que descongelá-las e desenvolver uma espécie de reflexão, como questões da homossexualidade, celibato, uso de contraceptivos e o sacerdócio de mulheres.

 

A queda

O teólogo Faustino Teixeira (2012) trata da questão do decréscimo do número de adeptos no catolicismo, como sendo um evento já observado há algum tempo:

 

A diminuição da declaração de crença católica vem se acentuando há mais tempo. Se observarmos os dados dos últimos Censos, essa tendência é nítida: 1970 (91,1%), 1980 (89,2%), 1991 (83,3%), 2000 (73,6%) e 2010 (64,6%). E as projeções estatísticas indicam que até 2030 os católicos terão um índice menor que 50% e em 2040 ocorrerá um empate com o grupo evangélico. Não é tarefa muito simples indicar as razões que levaram a tal situação. Pode-se aventar a hipótese de que a estratégia missionária da Igreja Católica nas últimas décadas tem fissuras importantes. Verifica-se que o repertório doutrinal mantém-se defasado com respeito aos sinais dos tempos. Há muita resistência na igreja católico-romana para atualizar a reflexão e modernizar a postura pastoral em campos que são nodais, como os da atuação na história, no diálogo ecumênico e inter-religioso e no âmbito da moral. Nota-se um claro enrijecimento da conjuntura eclesiástica nos últimos 35 anos, e não há sinais de arejamento eclesial. E é também curioso constatar como as estratégias realizadas no campo da Renovação Carismática Católica – RCC, com a presença dos padres cantores e uma busca de ação mais viva na área midiática, não surtiram os efeitos desejados. As iniciativas realizadas revelam-se tímidas diante de outras implementadas pelos evangélicos, como a Marcha para Jesus, que se repete anualmente com grande sucesso.

Leituras da História: A polêmica renúncia de Bento XVI

 

A questão é: “atualizar a reflexão e modernizar a postura pastoral em campos que são nodais”. Esse bloqueio existente em adaptar-se às questões do mundo moderno faz com que a Igreja Católica crie uma redoma em torno de si mesma, aceitando de bom grado os que nela continuarem, ao mesmo tempo assistindo a saída daqueles que não concordam com suas orientações. A modernidade exige uma adaptação do mundo, das pessoas, das leis, e tudo o que não acompanha essa evolução, vai sendo deixado para trás, vai ficando esquecido, vai sendo trocado por algo mais moderno e que atenda às demandas existentes no momento. De acordo com Renata Menezes (2012),

 

A Igreja Católica tem uma história milenar e uma estrutura que é simultaneamente permeável à convivência com a heterodoxia em suas margens internas, mas refratárias a mudanças radicais que poderiam efetivamente colocá-la em diálogo com a modernidade. No Brasil, ela perde uma condição de monopólio e de hegemonia, ou de pilar da cultura e da sociedade, para cair no lugar de mais uma opção no campo religioso brasileiro, ainda que este permaneça marcadamente cristão. Ela teve que aprender a ser a religião da maioria dos brasileiros em vez de ser “a religião dos brasileiros”, e está tendo que aprender a lidar com uma situação ainda mais desfavorável, em que ela cada vez mais perde espaço. Portanto, saiu de uma posição em que sua reprodução se dava de forma quase automática, transmitida através da família e da cultura, para uma posição inédita no país, de ter que “disputar”, ensaiando formas de proselitismo. O que os dados demonstram é que sua estratégia de retomada de posições não tem dado muitos resultados.”

 

Podemos pensar a partir desse fragmento que o decréscimo de adeptos ao catolicismo, não só no Brasil, é causado pela tomada de posições que, muitas vezes, vão em direção oposta ao bom senso e à saúde pública, como são os casos do uso de contraceptivos e da legalização do aborto. O Papa Bento XVI chegou a afirmar certa vez que o incentivo do uso de camisinha poderia piorar a situação da África no que diz respeito à AIDS. Isso certamente foi estopim para quem já estava em cima do muro em relação a que religião seguir.

 

O resultado

Como bem diz Hervieu-Leger (2013), “com o risco de uma comparação pouco favorável para ele, com a força do arrebatamento e do brio midiático de seu predecessor, Bento XVI consagrou seus esforços, não sem grandeza, à reabilitação racional do discurso cristão na cultura contemporânea. Falou-se muito sobre o seu investimento teológico como de um indicador de sua dificuldade de endossar a função papal. Podemos pensar, ao contrário, que ele não procurou menos que João Paulo II reforçá-la. Mas ele o faz no terreno que era o seu: o do ensino. Um terreno que, in fine, o deixou sozinho”.

 

A modernização reflete mudanças no interior da religião e faz com que ela modifique seu discurso, amenize suas assertivas, para conseguir manter seus adeptos e/ou atrair novos. Ir contra a união homossexual, por exemplo, é uma das coisas que impedem a Igreja Católica de seguir em frente e manter os fiéis que ainda restam. Adotar o posicionamento de ser contra métodos contraceptivos também afasta as pessoas da instituição, principalmente os jovens, que, diferentemente da Igreja Católica, acompanham as demandas da modernidade.

 

Jacques Noyer (2013), bispo emérito francês, afirma que os fracassos de Bento XVI o fizeram ver a sua condição:

 

Esses fracassos poderiam ter levado algumas almas menos santas ao desencorajamento total, a uma passividade resignada. Bento XVI viu neles a oportunidade para um sobressalto de esperança: reconheceu o seu fracasso. Ele sabe que está velho demais para recomeçar de outro jeito. Ele dá lugar a algum outro. Se estivesse certo dos combates travados, teria preparado um sucessor. Ele sente, ao contrário, a meu ver, no segredo do seu coração, que um Papa novo deverá proceder de modo diferente. Quando ele foi eleito Papa, não lhe deixaram escolha: ele devia continuar a obra do seu antecessor e se esforçou para encontrar o seu estilo próprio. Ao contrário, hoje, ele pede para que se tentem outras coisas (…).

 

A modernidade bateu à porta do Vaticano, e exigiu mudanças. Mudanças que influenciam no futuro da Igreja Católica em todos os sentidos — a recuperação de ovelhas perdidas talvez seja o principal objetivo do novo Papa. Mas, para isso, algumas posições terão de ser repensadas de forma radical. A modernidade decompõe e recompõe a identidade individual e coletiva, o que faz com que os limites simbólicos dos sistemas de crença e pertencimento se tornem frágeis. No caso do catolicismo, as fronteiras são borradas em relação a outros sistemas de crença e, principalmente, os de pertencimento, pois o trânsito religioso é bastante observado entre adeptos ao catolicismo e outras igrejas, principalmente as neopentecostais. Isso significa que as respostas buscadas no catolicismo não estão sendo satisfatórias o bastante para suprir a necessidade de quem as busca. O que também significa que a mudança é necessária. Como nunca, hoje é preciso ouvir e dar atenção às demandas da modernidade.

 

Nas palavras do bispo Noyer (2013) “podemos esperar que uma figura nova defina uma estratégia nova. Podemos esperar um Papa que tenha qualidades diferentes. Acima de tudo, podemos esperar um Papa que faça circular a palavra naquele grande corpo que é a Igreja e que, para isso, descentralize as decisões, que dê confiança ao Povo de Deus, em vez de ser o seu Guardião, que tente o novo onde o antigo está morto”.

*Aron Édson Nogueira Giffoni Barbosa (arongiffoni@hotmail.com) é Cientista Social e Mestrando em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora.