Precisamos falar sobre o imperialismo

Intelectuais brasileiros falham ao não discutir a problemática do colonialismo refletida no subdesenvolvimento do país

Por Yago Junho* | Fotos: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Leonel Brizola, após voltar ao Brasil em 1979 e retomar sua carreira política, dizia que tínhamos que retomar o fio da história. Mas o que isso significa? Significa interpretar os condicionamentos da política a partir da evolução de nossa formação social, econômica e cultural. É inegável que os 21 anos de ditadura militar fizeram com que se apagasse da memória coletiva o que aconteceu antes de 1964.

 

A direita torna o presente absoluto e analisa a economia como um fim em si mesmo. A única preocupação é com ajustes, arrochos e a necessidade de remédio amargo para resolver os eternos problemas de fechamento das contas públicas do Estado brasileiro. Nesse processo o grande vilão são as conquistas trabalhistas e previdenciárias dos trabalhadores.

 

O diagnóstico das causas dos desequilíbrios nas contas públicas é rápido e rasteiro: falta de competência administrativa dos governos de esquerda que, ao invés de aceitar a racionalidade dos funcionamentos das leis econômicas do capitalismo, insistem em seguir a ideologia socialista que representa o atraso.

 

Na literatura da direita raramente aparece uma discussão sobre as consequências do colonialismo para o nosso subdesenvolvimento, mas não falta tinta para exaltar as conquistas democráticas. O colonialismo aparece apenas como uma coisa de intelectuais ressentidos para explicar o nosso atraso econômico e tecnológico. Repetem a piadinha sem graça de Carlos Lacerda: Imperialismo? Nunca fui  apresentado a este senhor.

 

A democracia para os amantes da versão brasileira do conservadorismo é a puramente formal, jurídica e abstrata. No século XIX Karl Marx, no livro A questão judaica, salientava a falácia do arcabouço legal instituído pela Revolução Francesa que separou o homem legal do homem real. O homem legal é o das normas jurídicas que têm como pilar a igualdade perante a lei. O homem real é o que sofre na pele os rigores das leis que a burguesia usa para a manutenção dos seus direitos e privilégios. Para Marx o que o direito garante é a desigualdade.

 

A liberdade guiando o povo, de Eugène Delacroix: no livro A questão judaica, Marx já salientava a falácia do arcabouço legal instituído pela Revolução Francesa que separou o homem legal do homem real

 

Não quero dizer com isso que defendo a justiça a partir do critério pessoal, tampouco que as próprias mãos sejam os veículos  de combate aos males da sociedade e que a democracia deva ser jogada fora. Contudo precisamos situar o debate partindo das condições reais dos cidadãos, principalmente do proletariado.

 

Essa concepção abstrata da lei e da democracia se traduz na prática da conciliação não só no exercício da política, mas também nos relacionamentos sociais. Há um traço arraigado na cultura brasileira de aversão ao debate seja de que natureza for. A polarização política que estamos presenciando no Brasil só aparece nos momentos em que a direita fica muito tempo longe do poder ou quando aparece um líder carismático que usa de sua força para tentar romper com o sempre renovado pacto colonial.

 

O tema da conciliação é uma obsessão do pensamento sociológico e político brasileiro. O exemplo mais paradigmático é Gilberto Freyre. Todos os escritores e pensadores que foram para o enfrentamento com o imperialismo se deram mal. Demonstrar a fraqueza do homem colonial não pega bem nas altas rodas acadêmicas. Direcionar a lente e a caneta para relacionar a miséria do povo brasileiro à rapina internacional não fez de ninguém um medalhão do panteão intelectual brasileiro.

 

Gilberto Freyre

 

O ecletismo teórico rende confete no Brasil. Essa maneira de olhar para a realidade social gera o relativismo filosófico, sociológico e político. É muito difícil a tomada de posição firme sobre algum assunto. Em qualquer debate ou mesmo numa conversa à beira da praia quando alguém se refere a outro como radical nada mais é do que uma maneira de desqualificar a opinião alheia. Aqueles que tomam posição e vão para o enfrentamento político e cultural são implacavelmente eliminados. Por essa razão nenhuma figura foi tão atacada na história brasileira do que o caudilho – o antípoda do político fraco, que nunca toma posição, subserviente ao estrangeiro e entreguista.

 

Identificado como ditador, personalista, manipulador, o caudilho é uma figura detestável que deve ser banida por representar um obstáculo à emancipação da classe trabalhadora. O caudilho, também, é um entrave para o pleno exercício da democracia. Na verdade está a serviço dos interesses da classe dominante, haja vista que pertence a ela. Sua ideologia é conservadora e suas práticas reacionárias.

 

O caudilho é combatido tanto pela direita como pela esquerda no Brasil. Contudo, é forçoso reconhecer que os avanços sociais e as conquistas de direitos trabalhistas apareceram sob o governo de caudilhos. E, paradoxalmente, após a redemocratização do país o que temos visto é a perda da soberania nacional e um ataque sistemático aos trabalhadores. O “ditador” Vargas fez a CLT, criou as bases da industrialização no Brasil – com a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce, a Petrobras – e elevou o salário mínimo em 100%. O democrata e intelectual Fernando Henrique Cardoso vendeu o país no vergonhoso programa de privatização e defendeu a flexibilização da CLT. O caudilho Getúlio Vargas que lutou contra a espoliação do Brasil é o atraso, e o sociólogo FHC que aprofundou a nossa inserção subalterna na economia mundial é a modernidade?

 

O “ditador” Vargas (ao centro) fez a CLT, criou as bases da industrialização no Brasil – com a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce, a Petrobras – e elevou o salário mínimo em 100%

 

Leite Filho, na sua biografia sobre Leonel Brizola, diz que o termo caudilho vem do espanhol caudillo, que significa chefes guerreiros e estadistas. Não há povo sem líder. Então é uma bobagem dizer que há submissão dos trabalhadores ou das massas (como queiram) à vontade personalista de um líder. A direita e a esquerda que se diz marxista se unem numa santa aliança para riscar do mapa todo e qualquer líder “personalista”, como se a liderança não fosse algo pessoal e intransferível. A direita o condena em nome da racionalidade e da modernidade econômica. O caudilho, principalmente com viés nacionalista, além de estar fora de moda é um perigo para o desenvolvimento industrial brasileiro, pois afugenta a entrada de capitais. A esquerda o execra por considerá-lo populista e um impedimento à revolução. Carlos Marighella tinha essa visão até que percebeu o equívoco dessa reflexão. Era a plaudido quando ia para porta da fábrica falar da exploração do capital e das injustiças sociais, mas era vaiado e quase apanhava quando soltava o sarrafo no Getúlio Vargas. Justamente, por esse, fato propôs que os comunistas se aproximassem do trabalhismo.

 

A contradição essencial da política brasileira não é democracia e autoritarismo, mas sim metrópole e colônia. Enquanto não eliminarmos perdas internacionais, como dizia Brizola, as riquezas geradas pelo nosso povo continuarão sendo drenadas para fora do Brasil. Por isso a direita tem arrepios só de pensar na ideia de aparecer um líder revolucionário que aponte o caminho da transformação social em nosso país. Max Weber no início do século XX percebeu que só o líder carismático provoca profundas mudanças políticas. Leonel Brizola confirma esse fato quando liderou a Campanha da Legalidade em 1961.

 

Leonel Brizola

 

Na América Latina os líderes que enfrentaram o poder imperialista foram aniquilados física ou politicamente. A direita não brinca quando o assunto é a preservação da exploração colonial. Só lembrarmos os inúmeros golpes de Estado ocorridos em nosso continente. E as esquerdas ditas modernas e bacanas ao invés de se unir aos chefes guerreiros, davam chiliques por perder a atenção do proletariado.

 

Outra mistificação é dizer que o caudilho não convive com a legalidade democrática. Não cabe aqui fazer uma discussão sobre se o que tem os no Brasil é ou não uma democracia. Mas o fato é que Leonel Brizola do início dos anos de 1980 até sua morte foi chamado de caudilho, no sentido pejorativo da palavra. A história de Leonel Brizola prova que não houve  um político mais legalista do que ele, de modo que ser carismático e caudilho não faz do político um ditador nem corrupto. O famigerado Serviço de Segurança Nacional (SNI) vasculhou a vida de Brizola para achar provas de corrupção e não encontrou absolutamente nada.

 

Gilberto Vasconcellos de forma arguta sacou: “A história não decorre da personalidade do líder, mas o desaparecimento deste muda o rumo histórico. Se não fosse assim, os líderes de verdade não teriam suas cabeças cortadas”. O fato é que precisamos de um bom caudilho. Que Leonel Brizola inspire a formação de chefes guerreiros e estadistas que efetivamente liderem o povo com coragem, arrojo e, acima de tudo, amor ao Brasil. A luta contra o imperialismo – a construção de uma efetiva soberania nacional e a autonomia da população brasileira – não é uma relíquia do passado, mas sim uma tarefa que se não realizarmos não deixaremos nunca a condição de proletariado externo, como definiu o grande Darcy Ribeiro.

 

 

*Yago Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura e Identidade Cultural pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autor do livro Sociologia Pau Brasil (Multifoco, 2014).

E-mail: yeuzebio@gmail.com

Adaptado do texto “O caudilho e a fraqueza colonial”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed.65