Qual o panorama da inclusão digital no Brasil? Confira

Integrante do Comitê Científico da Associação Brasileira de Cibercultura discute democratização do acesso à informação na internet

Por Lejeune Mirhan* | Foto:  Reprodução Youtube | Adaptação web Caroline Svitras

Sérgio Amadeu da Silveira fez mestrado e doutorado pela USP e hoje é professor adjunto da Universidade Federal do ABC. Integra o Comitê Científico da Associação Brasileira de Cibercultura. Presidiu ainda o Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (2003-2005) no primeiro governo Lula. Foi membro, por muitos anos, do Comitê Gestor da Internet Brasil. Tem dedicado sua vida, desde 1989, quando se tornou sociólogo, às pesquisas sobre a democratização das redes sociais.

 

Hoje, como professor da Universidade Federal do ABC, você está iniciando o desenvolvimento de um grande projeto chamado WikiLab, que será um espaço experimental de desenvolvimento de tecnologias livres. Ele reunirá pesquisadores acadêmicos e pessoas curiosas e apaixonadas por tecnologia. Fale-nos mais sobre isso, em especial indicando como o público pode participar.

O WikiLab é um espaço híbrido onde funcionará o laboratório de tecnologias livres para cultura, experimentos democráticos e direitos humanos, junto com o makerspace do ABC. Será construído como um enorme Lego. Imprimiremos em placas de madeira as peças do prédio que serão cortadas em uma fresadora computadorizada. Depois serão encaixadas conforme a numeração. É um projeto aberto inspirado na Wikihouse, da Inglaterra. Todos os desenhos e descrições do projeto estarão disponíveis para quem quiser replicá-los. Trata-se da montagem de um espaço com a lógica de desenvolvimento do software livre. Registre-se que esse projeto só pode ser viabilizado graças à contribuição de 937 colaboradores que doaram 72 mil reais.

O makerspace que funcionará no WikiLab é um local onde o desenvolvimento e criação de tecnologias é um ato de diversão, de aprendizagem autônoma, de incentivo à curiosidade e de criação compromissada com a cultura do compartilhamento. É um local de superação das velhas divisões do mundo moderno nas quais a tecnologia estava apartada da arte, das potências derivadas da vontade de conhecer e de superar desafios e do prazer que vem do conhecimento livre. É um lugar no qual toda pessoa pode aprender a fazer tecnologia. Enfim, o WikiLab será um espaço onde o saber acadêmico encontra a cultura maker e hacker. Um local de pesquisa, desenvolvimento, junto com outro espaço de entretenimento.

 

Você trabalha o tema Tecnologia para a Democracia. Sabemos que no transcorrer da história a ciência em geral e em particular as tecnologias têm sido usadas para ampliar o autoritarismo e a restrição à democracia, violação da privacidade e para destruir direitos. Isso porque essas tecnologias atendem os interesses econômicos das corporações. Desenvolva melhor esse tema para nós.

Obra de Silveira traz debate sobre o amplo uso de tecnologias e as implicações da exclusão digital

Essa questão é muito importante. Muitas amigas e amigos têm me perguntado sobre o que um laboratório de tecnologias livres poderia agregar às lutas pela democratização real da sociedade. Em primeiro lugar, é preciso reafirmar que nenhuma tecnologia poderá substituir a luta efetiva contra as brutais desigualdades sociais, contra o racismo, contra o poder patriarcal que se esconde nas dobras do cotidiano. Em segundo, é perceptível que as tecnologias estão sendo mais utilizadas atualmente para ampliar as injustiças, as desigualdades, para reduzir a diversidade e para agigantar a perspectiva neoliberal. Terceiro, precisamos aprender com Stallman e a ideia do copyleft. Podemos inverter, reconfigurar, hipertrofiar e criar novos usos e recombinações para as tecnologias. Exemplificando, uma equipe que reúna liderança e ativistas das comunidades com engenheiros, cientistas da computação, sociólogos, filósofos e hackers pode criar um novo tipo de drone, uma nova plataforma web ou inventar apps para aparelhos móveis para as comunidades, ocupações e lutas sociais. Podemos utilizar o blockchain para estruturar novos modelos de distribuição de riquezas. Microcontroladores ligados à internet podem ser utilizados pelas comunidades no campo e reduzir deslocamentos e gastos de energia.

Por isso, criamos um laboratório interdisciplinar para pesquisar e desenvolver tecnologias livres. Mas um laboratório acadêmico é limitado, assim percebemos a importância de reunir o conhecimento acadêmico à cultura hacker e aos saberes dos ativistas das comunidades. Essa junção pode atingir diferenciais criativas fundamentais. O experimento WikiLab, um espaço acadêmico-hacker, é um caminho para a produção de soluções comuns, de fora do mercado, tendo a ideia de comum como princípio orientador.

Tenho um amigo que trabalha na Prefeitura de Barcelona, Javier Toret, que utiliza a noção de tecnopolítica. Essa ideia vai na linha de chamamento que o sociólogo Laymert Garcia dos Santos pensou ao afirmar que precisamos politizar as tecnologias. Digo mais, as tecnologias podem guardar determinações políticas e cada vez mais, no mundo dominado pelo neoliberalismo, elas são politizadas. Elas são desenvolvidas como “caixas-pretas” e nos são apresentadas como “mágicas”. Somos cada vez mais submetidos aos seus encantos. Sem nenhum espírito crítico, nossas sociedades vão utilizando tecnologias de controle, como bem afirmou Gilles Deleuze em um texto primoroso denominado “Post-scriptum das sociedades de controle”.

A questão é que o marketing se tornou a principal forma de controle social. Somos submetidos pelo poder simbólico das corporações, somos sujeitados pelo controle de suas mediações cibernéticas e nossas subjetividades são moldadas por esses dispositivos. Isso não é inevitável se nos propusermos hipertrofiar esse processo, inverter e reverter o uso de tecnologias para uma sociedade algoritmizada. Nela, somos cada vez mais submetidos ao poder de corporações obscuras e seus procedimentos opacos, enquanto esses empreendimentos clamam pela morte da nossa privacidade. Defendem que nossas vidas sejam completamente transparentes para que possam melhorar nossa experiência. No fundo querem captar, capturar todas as informações sobre cada uma e cada um de nós para poder processar nossos rastros digitais e tentar descobrir nossas vontades, nossas esperanças, aprisionar nossa subjetividade para nos modular, vender mais e nos tornar apenas consumidores. Afinal, para os neoliberais, novos totalitários, não há vida fora das relações de mercado. Absurdo.

Por isso, podemos assumir a tecnopolítica e nos inspirarmos na cultura hacker para reconfigurarmos as tecnologias para incorporarem direitos, ampliarem a democracia e a participação autônoma das pessoas. Podemos construir experimentos do comum, espaços de compartilhamento que possam evoluir para cenários pós-capitalistas que superem a opressão do capital.

 

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Adaptado do texto “Liberdade virtual”

*Lejeune Mirhan é sociólogo, professor, escritor e arabista. Colunista da revista Sociologia (Editora Escala) e colaborador do portal da Fundação Maurício Grabois e do Portal Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da Unimep entre 1986 e 2006. Presidiu o Sinsesp de 2007 a 2010. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br