Questão social e tecnológica

Modernos e lucrativos, os games refletem, porém, estereótipos e relações de poder presentes em nossa sociedade

Por Davi da Rosa Ramos* | Adaptação web Caroline Svitras

A grande prova de que a pressão feminina vem surtindo efeito concreto no mercado de jogos é a evolução de duas personagens emblemáticas na história dos jogos eletrônicos: a “Princesa Peach”, personagem coadjuvante no jogo Mario Bros., e “Lara Croft”, personagem protagonista do jogo Tomb Raider.

 

Princesa Peach

Um dos estereótipos mais significativos da imagem da mulher submissa encontrava sua mais completa representação na Princesa Peach. Única personagem feminina no primeiro jogo Mario Bros., a personagem era a donzela em perigo esperando salvação pelas mãos de seu herói Mario. Com participação quase que nula nos primeiros jogos da série, a princesa não passava de um troféu que o herói ganhava ao final da trama. Quase que durante a totalidade dos jogos lançados desde sua origem em 1985, a Princesa Peach permaneceu como elemento secundário no jogo. Salvo em 1988, no Super Mario Bros., em que ela aparece como personagem jogável, nos outros jogos da série ela retorna a seu papel secundário. No entanto, em 2013, no Super Mario 3D World, ela reaparece como uma das protagonistas e assim permanece em Mario Kart, Mario Party, Super Mario RPG, entre outros jogos da franquia, até que em 2014 ela ganha um jogo só seu: o Super Princess Peach. Nesse jogo ela é a protagonista e fica responsável por salvar Mario, Luigi e os Toads do vilão Bowser. A mudança na história da Princesa Peach é radical: de garota submissa que espera a salvação pelas mãos do herói a protagonista forte e poderosa que não apenas é capaz de defender-se a si própria como salvar os personagens masculinos da trama.

 

Lara Croft

Outro estereótipo feminino presente no mundo dos games é a imagem da mulher hipersexualizada. Apesar de revolucionar o universo dos games como a primeira protagonista feminina, Lara Croft, personagem principal da série Tomb Raider, ainda é retratada como uma mulher bonita, extremamente sexy, com curvas acentuadas e que se apresenta em trajes sumários.

 

No entanto, em 2013, no jogo Rise of the Tomb Raider, Lara Croft aparece muito diferente do original. Nesse jogo ela aparece com seios bem menores e totalmente vestida. O sucesso desse jogo mostrou que a fama de Lara Croft não estava na exposição do seu corpo, mas na qualidade do jogo e na complexidade da história em si.

 

A roteirista Rhianna Pratchett, responsável pela mudança no visual de Lara Croft, em estrevista à Game Informer, disse que “pessoalmente não tenho problema com personagens mulheres serem sexy, todavia, no passado, a indústria sofreu com Lara como símbolo sensual sendo usado como um traço único de personalidade”. Ou seja, todas as características da personagem ficavam eclipsadas pelos seus atributos físicos. Com a nova Lara, essa distorção foi corrigida.

 

 

Tanto a trajetória da Princesa Peachs quanto a trajetória da Lara Croft evidenciam uma significativa mudança no cenário dos games no mundo. Mostram que a mulher é um forte consumidor que precisa se sentir representada pelo produto que consome.

 

No entanto, é importante ressaltar que os exemplos das duas personagens acima ainda são minoria no universo gamer. Os personagens principais da maioria dos jogos continuam sendo homens e os poucos jogos destinados às mulheres ainda reproduzem um modelo de feminino que a maioria das mulheres rejeita, porque não abarca a complexidade do que é ser mulher e destina a elas um lugar secundário nas tramas.

 

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Fotos: Sociologia Ed. 72

Adaptado do texto “Questão social e tecnológica”

*Davi da Rosa Ramos é bacharel e licenciado em História pela PUC-SP e especialista em História, Cinema e Audiovisual também pela PUC-SP. Autor do livro didático Caminhos da Sociologia, pela Editora Escala. Atua como professor de História e Sociologia na rede particular e cursinho pré-vestibular desde 2007. É responsável pelo conteúdo do site de ciências humanas  fazendohistoriasite.wordpress.com. Vilma Rosa é graduada e licenciada em História pela PUC-SP, pós-graduada em Responsabilidade Socioambiental pelo Senac-SP, atua há mais de 15 anos no desenvolvimento de projetos socioambientais e de educação ambiental.