Resenha do filme Trabalhar Cansa

Produção flerta com o cinema de horror, ao mesmo tempo em que se ambienta em uma mise-en-scène majoritariamente naturalista, evidenciando discussões em torno da questão da luta de classes

Por Fabrício Basílio* | Fotos: Divulgação/123RF | Adaptação web Caroline Svitras

 

O filme Trabalhar cansa (2011, 1h39min), de Juliana Rojas e Marco Dutra, apresenta um casal de classe média, Otávio (Marat Descartes), desempregado, e Helena (Helena Albergaria), esgotada com o gerenciamento de seu mercado de bairro. Enquanto acompanhamos a acentuação das dificuldades financeiras do casal, um estranho vazamento começa a atingir uma das paredes do estabelecimento. O andamento da narrativa revela que no local do vazamento havia um monstro morto, prontamente e sem sobressaltos queimado pelo casal, que logo volta a restabelecer sua rotina. Trabalhar cansa flerta com o cinema de horror, ao mesmo tempo em que se ambienta em uma mise-en-scène majoritariamente naturalista, evidenciando discussões em torno da luta de classes. Trata-se de um filme associado ao cinema de autor realizado por jovens cineastas contemporâneos.

 

Mas este texto pretende discutir outros aspectos da referida obra cinematográfica. Tem-se como objetivo dissecar, num estágio gradativo proposto inclusive pelo próprio filme –, os elementos sobrenaturais que afetam essa narrativa, imbricada não somente nos códigos comuns aos filmes de horror, mas potencializada pelo contexto narrativo da obra em torno da luta de classes. Ou seja, Trabalhar cansa mostra-se como um filme do cinema brasileiro contemporâneo fecundo para se debater as relações trabalhistas em sala de aula ou para realizar discussões sobre as possibilidades de análise da luta de classes no Brasil atual.

 

 

A luta de classes e o filme

A expressão “luta de classes” tem origem no trabalho de Karl Marx, reconhecido por seus trabalhos nas áreas de Economia, História, Sociologia, bem como por sua militância em prol do comunismo. Para Marx, as mudanças sociais e históricas ocorrem sempre a partir de conflitos resultantes das contradições de uma dada realidade, que ocorrem sempre a partir das diferentes classes sociais existentes, divididas entre dominantes e dominados, entre aqueles que detêm mais ou menos poder (principalmente econômico) em um dado contexto político. Em suma, o conflito que explica a história é a luta de classes, sendo que no sistema capitalista a classe dominante é a burguesia, por deter a propriedade dos meios de produção, enquanto que a classe dominada é o proletariado, por ser obrigado a vender sua força de trabalho.

 

 

É esse o argumento de Marx que permite pensar a luta de classes como a força motriz da história humana, o combustível da mudança do mundo social, pois apenas a partir da luta entre dominantes, querendo impor sua visão de mundo, e dominados, que desejam melhorar suas condições de vida, podem-se almejar mudanças no sistema de dominação existente.

 

É possível trazer a discussão sobre luta de classes no filme Trabalhar cansa. Helena, branca e de classe média, abre um mercado de bairro, enquanto seu marido Otávio, recém-demitido, procura um novo emprego. Logo, elementos de estranhamento afetam a rotina no mercado, o passado dos antigos donos surge de forma nebulosa, enquanto correntes, uma marreta, um dente pontiagudo e um insistente vazamento de um líquido preto atrapalham a rotina da proprietária. Esse estranhamento também reverbera na vida em família da protagonista: um ovo estragado, o sangue em uma gaze, a luz cortada pela falta de pagamento e a história de terror contada na escuridão. Elementos que mesmo sutis encaminham o filme para o seu desfecho, no qual, após mais um vazamento na parede, Helena decide quebrá-la a golpes de marreta, encontrando o cadáver de um monstro, que sem estardalhaço é queimado por ela e por seu marido.

 

 

Entre uma narrativa naturalista e inserções sobrenaturais, Trabalhar cansa expõe uma permeabilidade entre gêneros, no qual o surgimento de um ser impossível no real não gera o estranhamento que se espera do fato nos personagens. Nesse sentido, Carcereri (2013, p. 134) sugere uma dupla aproximação:

Ao nos atentarmos às questões semânticas, notamos um filme realista, não nos desviando por completo para questões bazinianas, mas uma narrativa preocupada em questões sociais, relacionadas ao trabalho e ao relacionamento patrão-empregado, uma caracterização sóbria e personagens comuns (…) Quando partimos para uma análise sintática, observamos a estruturação de uma narrativa tipicamente de terror ou suspense, com gradações de emoção, descoberta de pistas e inclusão de objetos e personagens que geram estranheza.

 

No que tange à aproximação naturalistaTrabalhar cansa explora o conflito de classes, que, como nos clássicos zumbis de George Romero, não pode ficar preso apenas ao subtexto, precisa ser evidenciado e conflitado. Nesse ponto, o embate é realizado em várias frentes: na relação de Helena com os empregados do mercado; no trato da família com a empregada Paula e na procura de Otávio por um novo emprego.

 

 

A relação de Helena com os empregados do mercado se deteriora aos poucos. No início a chefe intercala ordens com perguntas sobre o trabalho, existe uma certa preocupação da personagem em separar o homem-trabalho do homem-lazer, já que a câmera não se locomove aos espaços de folga dos funcionários. Porém, a relação começa a apodrecer, principalmente quando Ricardo, estoquista o mercado, é pego supostamente desviando mercadorias. Após isso, Helena incorpora uma política austera, revistando a bolsa dos empregados na saída, cobrando atrasos e instalando um sistema de câmeras de vigilância.

 

A postura empreendedora de Helena parte de um longo período de inércia em sua vida; a personagem largou a faculdade quando estava grávida, passou longos anos como dona de casa e agora se vê obrigada a contratar uma empregada para os afazeres domésticos. Paula, a escolhida, dorme na casa, aguenta calada o mau humor da família, mas não pode ter a carteira assinada por Helena, que na divisão do trabalho considera mais digno e, principalmente, sofre menos pressões sindicais ao assinar a carteira dos funcionários do mercado, e não a da empregada doméstica.

 

Por fim, temos Otávio, um desempregado do ramo empresarial. A procura por trabalho de Otávio, a partir de entrevistas e cadastro em agências de emprego, é toda pautada pela ironia. Nesse contexto, a posição paternalista do homem como provedor é bem apropriada para a trama. A presença de Otávio em casa estremece o balanceamento do quadro, como algo que não deveria estar naquele espaço, o que gera o conflito do casal, quando, por exemplo, ele deixa de pagar a conta de luz por falta de dinheiro.

 

 

Trazendo a discussão para os estudos em torno do fantástico, Roas (2014) indica a necessidade do gênero por uma representação de real legível ao receptor, a diégese no universo fantástico “é sempre um mundo em que de início tudo é normal e que o leitor identifica com sua própria realidade” (p. 110).

 

Apoiando-se em Carcereri e Roas podemos averiguar que o maior problema em torno da indexação de Trabalhar cansa como um filme de horror eclode pela abordagem contida dos códigos excessivos desse gênero. Os sustos são marginalizados, e mesmo o momento de maior tensão do filme não ocorre devido ao sobrenatural, mas sim quando um ex-funcionário, demitido por furto, volta ao mercado para fazer compras. Remetendo ao artigo de Mariana Souto (2012, p. 50):

Na maioria dos casos, a tensão se instaura nas relações entre empregadores e empregados, resquícios de uma outrora mais presente e evidente luta de classes. O outro, no filme de Rojas e Dutra, é frequentemente um outro de classe. A maioria dos medos citados está fundada na culpa, na má consciência, um possível medo de vingança  (sobretudo do ex-funcionário demitido, acusado, sem provas, de furtar produtos do supermercado) pelo mal causado. A culpa, por sua vez, engendra insegurança, desconfiança, paranoia.

 

Dessa forma, os eventos estranhos surgem em gradação, tanto no mercado quanto na casa: o líquido negro que vaza no piso e na parede, cachorros que latem em frente do mercado sem motivo aparente, a história pregressa dos antigos proprietários do mercado etc. Todos esses eventos são filmados com incitações estéticas ao sobrenatural: uso de trilha musical aflitiva, além da dilatação e enquadramento dos planos. Porém, em sua gênese, são eventos do cotidiano que poderiam ter facilmente outro significado, caso o filme tivesse se enveredado por outra abordagem temática, “configurando acontecimentos que, até então, podem não ter raízes sobrenaturais, sendo passíveis de explicação racional, mas da maneira como são filmados pelos diretores soam fantásticos, aterrorizantes, disparadores de um profundo medo” (Idem, p. 46).

 

 

Entretanto, se por um lado o filme inova dentro do gênero de horror, por outro a construção do sobrenatural se constitui a partir de um formato clássico de gradação de elementos. Nas palavras de Todorov: “Desde o começo diferentes detalhes nos preparam para este acontecimento: e do ponto de vista fantástico, esses detalhes formam uma perfeita gradação” (2008, p. 47).

 

O que se inicia logo na primeira sequência do filme, na qual Helena visita o mercado ainda abandonado e que alugará posteriormente. Nesse ponto, já podemos elencar uma série de elementos ligados ao horror e ao sobrenatural. No âmbito narrativo, temos um mercado fechado há anos, cujos antigos donos desapareceram misteriosamente, deixando para trás, entre prateleiras e freezers enferrujados, uma fotografia. Além disso, estética e a espacialidade do mercado vazio e de iluminação rarefeita remetem a espaços característicos do sobrenatural clássico. Outro elemento que surge nos primeiros minutos de filme é a parede que abriga o cadáver do monstro, mas nesse ponto da narrativa é tratado, apenas, como um problema a ser resolvido na reforma.

 

Com um corte somos levados para a casa de Helena, surge a filha de uniforme escolar e Otávio, que contrasta com o ambiente por sua presença em um horário indevido. Descobrimos em seguida que Otávio foi demitido, e agora a montagem, que mostrava o mercado apenas como opção de arrecadação de renda, revela-o como um porto seguro, mesmo que instável, de manutenção da condição financeira dos protagonistas.

 

Quando Helena volta ao mercado como locatária, ao seu lado Otávio ajuda na limpeza, e entre assassinatos de baratas indesejadas, o casal ensaia um beijo prontamente interrompido por um susto (outro código do horror), gerado por um antigo morador do bairro pressentindo possíveis invasores. Em seguida, o mercado é tomado por uma fila, pois a empregadora faz a seleção dos novos funcionários ao mesmo tempo em que são encontradas atrás de um freezer uma marreta e algumas correntes.

 

 

Nesse processo, outro legado ecoado dos filmes de horror surge na demarcação temporal da trama a partir de datas festivas, delimitando a abertura do mercado. Otávio e Helena assistem a uma peça encenada por sua filha na escola, no qual os alunos recriam a sanção da Lei Áurea, e no andamento da trama nos deparamos com o Natal e o clímax do filme se dá durante o carnaval. No âmbito comercial, as datas festivas representam teoricamente um aumento nas vendas, o que também pode associar as demarcações temporais do filme não só a momentos de maior arrecadação do mercado, mas também a breves lapsos, nos quais os empregados identificam a opressão do empregador, como ocorre quando Helena decide abrir o mercado durante o carnaval.

 

A associação dessas datas ao sobrenatural tem um grande enfoque, por exemplo, no período natalino, quando um líquido viscoso e escuro brota no chão, simultaneamente uma trilha aflitiva sonoriza o quadro,acompanhada do som insistente dos freezers e de uma música natalina sonorizada por um Papai Noel  mecânico. O vazamento é diagnosticado em seguida, quando um naco de lodo repleto de vermes é retirado do encanamento.

 

Os acontecimentos estranhos continuam em seguida: Helena volta ao mercado depois de fechado, em busca de algumas latas de creme de leite;  já ao descer do carro é recebida por uma leva de cachorros, que latem incessantemente. Ao entrar é assustada pelo Papai Noel mecânico (animação de objetos, outro traço recorrente ao cinema de horror), em seguida, barulhos e vultos no estoque, até que somos novamente levados para os corredores do mercado, graças ao Papai Noel que volta a se mover. Interessante notar como os elementos de horror do filme atingem psicologicamente muito mais o espectador do que os personagens da trama. Uma das poucas exceções surge quando Helena, distante mentalmente da realidade que a cerca, se lembra do latido dos cachorros. Os estranhamentos continuam em casa: primeiro um ovo cru com uma mancha de sangue, seguido do corte da energia elétrica por uma conta não paga por Otávio, uma história de terror contada à luz de velas e, por fim, um sangramento nasal em Helena.

 

 

A narrativa nos transporta para o carnaval, com Helena numa postura tirânica, instalando um sistema de câmeras de vigilância. Poucos clientes, chuva forte, um vidro quebrado e a já citada parede com umidade, completamente apodrecida. Ou seja, os diretores constroem, mais uma vez, um espaço propício e comum ao sobrenatural: a ausência de clientes, o dia escurecido pelas nuvens e a sensação de umidade. São os passos da narrativa a caminho do clímax, em direção à revelação do sobrenatural, pois como ressalta Furtado (1981, p. 127):

No interior de uma história porventura  prosaica, evocativa de acontecimentos e figuras de aparência rigorosamente normal, entre cenários plenos de cor local, vão-se pouco a pouco instalando sinais, inconclusivos por si só, mas já inquietantes, que, ao acumularem- se, contribuem de forma decisiva  para irresolução da intriga e para perplexidade perante ela que se pretende suscitar no destinatário da obra. 

 

Em seguida, Otávio e Vanessa vão a um museu de animais empalhados, no qual visualizam um bezerro de duas cabeças, um animal morto e incomum. Seria um prenúncio do que Helena encontrará dentro da parede? Na sequência, Paula, deslocada para a limpeza do mercado, encontra uma garra de animal, que mostra a Helena. Porém, a protagonista tem outro problema a resolver: a volta do funcionário demitido Ricardo, sem dúvida o momento de maior tensão do filme.

 

 

Fim do expediente, Helena desliga as luzes e com a marreta deixada no local pelos antigos donos destrói a parede, revelando o monstro que a habitava. Otávio e Helena cremam o monstro (apontado por alguns pesquisadores como sendo a carcaça de um lobisomem) e tentam retomar a rotina.

 

Muito do estranhamento da crítica perante o tratamento de Trabalhar cansa acerca do gênero de horror se dá pela posição da narrativa diante da história apresentada. Pois caso o foco do filme tivesse se voltado para a história dos antigos donos do mercado, e como eles lidaram com a possível presença de um lobisomem, teríamos provavelmente uma história de horror mais característica, com uma ameaça física mais iminente aos personagens. Ou seja, quando a narrativa fílmica de Trabalhar cansa se inicia, a história de horror já está findada e presa ao pregresso, e passamos a uma narrativa dramática voltada para a luta de classes, no qual os personagens lidam apenas com os vestígios da carcaça, os restos deixados por um ser sobrenatural e sua herança num ambiente majoritariamente naturalista. Segundo Souto (2012, p. 47): O monstro de Trabalhar cansa não seria, nesse sentido, uma fusão indefinida de monstros mitológicos e personagens frequentes no cinema de horror: uma múmia de lobisomem? Não se trata, portanto, de uma criatura viva, que persegue e da qual os personagens fogem, que promove deslocamentos no espaço, como em muitos filmes de perseguição e terror.

 

 

O monstro, ao contrário, é interno, uma anomalia da própria construção, entranhado em suas estruturas – um tumor do próprio organismo.

 

Como afirma Noel Carol (1999), o gênero de horror está ligado à noção de afeto que seu nome invoca e nesse meio o monstro tem função primordial de alterar a ordem natural. Para ele o monstro causa medo, ponto atenuado em Trabalhar cansa, mas por outro lado o ser insólito se enquadra em outro ponto de vital importância para a definição do monstro segundo Carol: a repugnância. Nas palavras do autor (p. 39):

E isso corresponde também à tendência que os romances e as histórias de horror têm de descrever os monstros com termos relativos à imundice, degeneração, deterioração, lodo etc., associando a essas características (…) o monstro ficção de horror não é só letal como também – e isso é da maior importância – repugnante. 

 

Os pontos levantados até aqui nos obrigam a aceitar novas leis da natureza. Ancorado em Todorov, Carcereri propõe uma abordagem do filme pelo viés do fantástico-maravilhoso, “ao necessitar de uma nova concepção de leis da natureza passamos automaticamente ao maravilhoso, não ao maravilhoso puro e sim ao fantástico  maravilhoso, por conta dessa falta de explicação e até hesitação mesmo após a descoberta do sobrenatural” (2013, p. 139). Ou seja, se abordado pelo prisma de Todorov o filme se constitui em um híbrido: nem fantástico, pois sabemos da existência de um elemento não natural; nem maravilhoso, já que mesmo evidenciado o insólito não foi devidamente diagnosticado.

 

Partindo de teoria Roas (2014), podemos associar Trabalhar cansa ao medo metafísico ou intelectual, o fantástico abole as noções de real, não para aterrorizar a integridade física do personagem, mas sim para revelar a este que esse mundo não funciona do modo como se pensava.

 

Sem dúvida o medo no filme está muito mais no natural, nas relações pessoais e na venda da força-trabalho do que na emanação do monstro que salta da parede. Os elementos sobrenaturais assustavam Helena, não por um possibilidade iminente de agressão física, mas pela necessidade de gastos com reparos, pelo medo de estes afugentarem os clientes e a levarem à falência, da mesma forma que a concorrência com um hipermercado a amedronta.

 

 

*Fabrício Basílio é graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense e mestrando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM – UFF)

Adaptado do texto “A luta de classes em Trabalhar cansa”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 66