Resenha do livro A revolução das mulheres

As vozes de resistência da Rússia Soviética

Por Vivyane Garbelini* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A História foi, prioritariamente, construída por homens; escrita através do ponto de vista masculino sobre ele mesmo, sobre as coisas e sobre as mulheres. Desse modo, a presença feminina foi sendo apagada da narrativa histórica. Sabemos que, de maneira geral, sempre houve diferenças entre mulheres e homens quanto às possibilidades de meios de expressão, como a dificuldade do acesso à educação formal para as mulheres e sua respectiva privação de publicação de livros e textos. Além disso, notamos o desbotamento dos grandes e pequenos feitos das mulheres, mesmo quando conseguiram superar as barreiras impostas.

 

O processo de invisibilização se retroalimenta, uma vez que a memória é fundamental para a construção de modelos de ações e comportamentos. Nisso reside a importância de lembrar as marchas, as vitórias e os fracassos. Afinal, “a História é sempre instrutiva”, inclusive em seus silêncios.

 

Notamos, por exemplo, que as origens do Dia Internacional das Mulheres se perderam, mesclando-se com a lembrança de outros eventos. O senso comum atual, que entrega flores às mulheres no dia 8 de março, desconhece que a data retoma a luta das mulheres trabalhadoras, socialistas, comunistas.

 

Essa e outras histórias estão presentes no livro A revolução das mulheres – emancipação feminina na Rússia Soviética, da Boitempo Editorial. Com textos inéditos de onze ativistas, a publicação oferece vozes de mulheres narrando sobre si, sobre as coisas e sobre os homens, através de uma reunião de artigos, panfletos, atas e ensaios que abordam temas referentes à emancipação feminina.

 

Antes de chegar à primeira página, percebemos que o livro é fruto de um trabalho coletivo de mulheres. A direção editorial é de Ivana Jinkings, fundadora da Boitempo. A quarta capa é assinada por Wendy Goldman, autora da premiada obra A mulher, o Estado e a revolução. Goldman é historiadora, especializada em estudos sobre Rússia/União Soviética e professora da Universidade Carnegie Mellon. Daniela Lima, que escreve a orelha do livro, é escritora e ativista. Um time de tradutoras foi responsável pela passagem do russo para o português dos textos organizados por Graziela Schneider Urso, que é tradutora, graduada em russo e português, mestre e doutora em literatura e cultura russa pela Universidade de São Paulo.

 

Na apresentação do livro, a organizadora ensina que jenski voprós é a expressão russa para designar “questão das mulheres”. Tal questão começou a ser tratada por autoras russas a partir de 1830 e 1840. Já em 1850, iniciava-se a primeira onda do feminismo russo. Essa expressão feminina foi marcada pela diversidade e a presente antologia nos oferece uma visão panorâmica.

 

As mulheres e a Revolução

 

Ratificando o protagonismo das mulheres, os textos apontam para temáticas cruciais como maternidade, aborto, condições do trabalho feminino, direitos legislativos e acesso à educação. Os escritos dialogam entre si e os assuntos frequentemente se repetem, não de maneira cansativa e sim complementar, visto que são diferentes pontos de vista. Com a leitura, fica evidente a pluralidade das vertentes que ora se complementavam, ora se confrontavam. O conjunto de textos remarca ainda que muitas dessas mulheres precisaram usar pseudônimos, foram presas, exiladas e sofreram severos castigos, evidenciando, desse modo, as constantes repressões às manifestações femininas.

 

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Adaptado do texto “Mulheres no front”

*Vivyane Garbelini é mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero (2017) e jornalista graduada pela mesma instituição (2011). Sua dissertação versou sobre o tema do feminismo na revista Elle Brasil. Durante o período de mestrado e até os dias de hoje, escreve artigos acadêmicos sobre imprensa feminina e feminismo. Faz parte dos seguintes grupos de pesquisa: “Comunicação e Sociedade do Espetáculo”, coordenado pelo prof. dr. Claudio Coelho, e “Teorias e Processos da Comunicação”, coordenado pelo prof. dr. Luis Mauro Sá Martino. Ambos da Cásper Líbero. Adicionalmente, estou começando a participar do Midiato (ECA/USP), coliderado pela prof. dra. Rosana de Lima Soares.