Rivais de Silício II

A evolução de vida, consciência e inteligência no planeta Terra começa inequivocamente a trilhar caminhos inusitados, emergindo dos próprios sistemas cibernético-informacionais e inorgânicos que criamos

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: 123 ref | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

No que concerne à comunicação verbal entre humanos e máquinas, por exemplo, os obstáculos são realmente tremendos. “Um programa capaz de entender os vários sentidos de uma palavra [informa-nos Meyer, Baber e Pfaffenberger (2000, p. 436)] teria de saber muito sobre o mundo.” E esse “saber muito sobre o mundo” é simplesmente inviável em termos cibernético-informacionais, pois pressupõe uma autonomia subjetiva consciente, interagindo no tempo e no espaço conosco, atualizando-se o tempo todo, assim como o seu meio, o que de fato, em termos de IA, ainda não existe.

 

Contudo, alguns se arriscam a dizer que, se simulados e reproduzidos com perfeição os dons e habilidades humanas, detalhadamente, pouco ou nada importará o que se passa realmente no interior do computador que processa os dados da referida simulação. Nós, definitivamente, não concordamos, pois é claro que isso importa muito, e é exatamente por esse motivo que existem tantas discussões e controvérsias a respeito do assunto. Numa só palavra: exibir comportamento inteligente, simulado e programado desde o exterior não é ser inteligente de fato.

 

Programas complexos já são capazes de aprender com seus próprios acertos e erros, ou seja, começam a encontrar o mais difícil, que é justamente o sentido a partir de suas próprias experiências cibernético-informacionais. E assim vão começando a compor gradualmente a sua concepção e percepção de mundo, de contexto, de realidade circundante, e isso alarga significativamente os horizontes de possibilidades desses programas, no que concerne à simulação de estados conscientes e inteligentes. Um bom exemplo disso está no relato de Dennett (1997, p. 126-127): “O cientista de robótica Philippe Gaussier (1994) recentemente forneceu uma ilustração vívida desta possibilidade, utilizando pequenos robôs que primeiro alteram seu ambiente e depois têm o próprio repertório comportamental alterado sucessivamente pelo novo ambiente que criaram”.

 

 

Diante disso, e dos constantes progressos desses campos tecnológicos, não é difícil perceber que vivemos o limiar de uma era evolutiva de tecnicizações e desenvolvimentos tecnológicos que realmente fogem à própria narrativa histórica que nos perfaz e orienta ontologicamente no mundo, migrando do que é chamado de ficção científica para a realidade societal mundana, alterando a qualidade de nossa condição, e elevando-nos a uma pretensa condição de empoderamento temporário e temerário, em que a mera possibilidade de perda de controle deveria ser um obstrutivo suficiente no prosseguimento das próprias investigações. Esse limiar de magnitudes gigantescas e épicas é, em certo sentido, também extraordinário, já que as tecnociências vão desempenhando cada vez mais um papel central nas sociedades, tornando-se uma espécie de “motor do desenvolvimento humano” contemporâneo. E, uma vez que se cruze esse umbral, será praticamente impossível retroceder.

O corpo na cibercultura

 

Preocupa saber também que um dos objetivos de vanguarda desses sistemas informacionais é projetar a si mesmos cada vez mais complexos e sofisticados. Tenhamos em tela também que existem muitas pessoas importantes – do ponto de vista teórico, criativo, inventivo e de pesquisa tecnológica aplicada, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial –, que não só acreditam que haveria um algoritmo capaz de replicar o funcionamento do cérebro humano em meio cibernético-informacional, como também estão trabalhando duro para que isso aconteça o mais rápido possível. O que importa é que há muita pesquisa, experimentos e também dinheiro no sentido de tentar desvincular definitivamente – pasmemos – o fenômeno da consciência da própria biologia corporal, e também – note-se bem – do cérebro, pois pretende-se, em algum momento futuro, poder fazer – como já mencionado – uma espécie bizarra de download da consciência humana e da atividade cerebral para o meio sintético e cibernético-informacional, para que finalmente o corpo como um todo não seja mais necessário à consciência.

 

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Sociologia Ed. 69

Adaptado do texto “Rivais de Silício II”

Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). É autor dos livros Humano-pós-humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (Org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir? E-mail: a-quaresma@hotmail.com