Segregação e música negra hoje

Mesmo sendo hoje um nicho milionário do showbizz, músicas de raízes afro-americanas atuam como expressão cultural de resistência

Por Davi da Rosa Ramos* | Foto: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

Não existe mais nenhuma lei de segregação racial no território dos Estados Unidos, apesar disso os casos de racismo e de violência policial contra os negros têm se repetido e gerado grande revolta na população. O caso Ferguson de 2014 trouxe à memória da população do sul o caso Ferguson de 1892, e apesar de a representação dos negros, em todos os âmbitos, ter aumentado muito do final do século XIX para cá, o racismo e a diferença de oportunidades entre negros e brancos ainda são problemas a ser solucionados. E a música negra, que desempenhou um papel fundamental na luta pela igualdade racial, não está de fora dos novos movimentos contra o racismo nos dias de hoje.

 

O protesto feito por Beyoncé no Super Bowl não foi uma exceção, outros artistas negros também seguiram a mesma posição da cantora. Além de Beyoncé, Rihanna, Lenny Kravitz, Chris Rock, Pharrel Williams, Janelle Monáe, Alicia Keys, entre outros, se juntaram e formaram o movimento “We Are Here” (Nós estamos aqui). O movimento produziu um vídeo emocionante, divulgado mundialmente nas redes sociais. O filme é chamado 23 ways you could be killed if you are black in America (23 modos que você pode ser morto se você é negro na América).

 

Os artistas aparecem citando 23 atos cotidianos que resultaram na morte de cidadãos negros nos EUA, tais como: “voltar para casa com um amigo”, “usar um capuz”, “sentar no carro antes de sua despedida de solteiro” e “pedir ajuda depois de um acidente”. As frases fazem referência aos atos que as vítimas da violência policial estavam fazendo quando foram abordadas e posteriormente mortas pela polícia. Nota-se que são atitudes normais e cotidianas, que provavelmente se fossem feitas por pessoas brancas não teriam o mesmo desfecho. Ao final do vídeo a cantora Alicia Keys faz a seguinte ponderação: “Nós queremos uma transformação radical para curar o longo histórico de racismo sistemático a fim de que todos os americanos possam ter os mesmos direitos à vida e à felicidade”. Vale ressaltar o quanto a fala final de Alicia Keys no vídeo é semelhante ao discurso de Martin Luther King na Marcha sobre Washington, e nesse sentido é bom destacar alguns aspectos importantes. Primeiro: tanto ontem quanto hoje os ícones da música negra desempenham um papel importantíssimo nessa luta contra o racismo. Segundo: o racismo é um problema histórico que está na base de fundação dos Estados Unidos. Ele nasceu no longo período de escravidão e se fixou, no cerne dessa sociedade, a partir da traumática Guerra de Secessão. Terceiro: a música negra nasceu e se desenvolveu a partir da força pulsante e da criatividade da comunidade afro-americana de escravos e posteriormente de ex-escravos, ou seja, a música negra nos Estados Unidos é historicamente uma música de protesto e resistência na luta contra a violência e o preconceito.

 

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Adaptado do texto “A música negra e o racismo nos Estados Unidos”

*Davi da Rosa Ramos é bacharel e licenciado em História pela PUC-SP e especialista em História, Cinema e Audiovisual também pela PUC-SP. Autor do livro didático Caminhos da Sociologia, pela Editora Escala. Atua como professor de História e Sociologia na rede particular e cursinho pré-vestibular desde 2007. É responsável pelo conteúdo do site de ciências humanas. fazendohistoriasite.wordpress.com