Sexualidade e política

Por Gibran Teixeira Braga*

A sexualidade cada vez mais vem se estabelecendo como um dos aspectos fundamentais da vida social. A forma como vivemos nossa sexualidade muitas vezes está associada a como ocupamos nossos momentos de lazer, o que chamamos de sociabilidade. Neste texto, focando na homossexualidade masculina, veremos como a sociabilidade está ligada a certas transformações históricas nas ideias sobre sexualidade.

Quando pensamos em sexualidade, a maioria de nós costuma dividir o mundo entre dois tipos de pessoa: heterossexuais e homossexuais. Alguns acrescentariam também os bissexuais, mas nem todos, já que para muitos a identidade sexual é tão inerente e fundamental que não admitiria tal “meio-termo”. Porém, se analisamos historicamente o assunto, percebemos que nem sempre foi assim. As categorias de orientação sexual – outro termo contemporâneo para classificar o desejo – são relativamente recentes; começam a surgir em fins do século XIX. Antes, tínhamos outras categorias, que tratavam de um suposto pertencimento psíquico ao sexo oposto, como invertido, ou se circunscreviam aos atos, como sodomia (nome dado à prática do sexo anal).

No entanto, a ideia da diferença de sexo de objeto do desejo como constitutiva de uma identidade emerge com a constituição dos termos homossexual e heterossexual. É interessante notarmos que a invenção do termo heterossexual, sexualidade tida como natural e básica, é inclusive posterior à criação do termo homossexual. O esforço de definição desses termos tem a ver com uma luta pela descriminalização das práticas sexuais entre homens no final do século XIX – nesse momento, o sexo entre mulheres sequer era considerado como uma possibilidade pelas autoridades. Como uma alternativa à percepção de tais práticas como criminosas e, portanto, passíveis de punição, desenvolveu-se uma perspectiva da homossexualidade como uma condição psíquica.

A discussão sobre se tratar ou não de uma doença, que emerge vez ou outra nos dias de hoje, decorre daí. Começa então a se cristalizar a ideia de que algumas pessoas apresentam a particularidade de sentir atração física por outras do mesmo sexo, característica tida como constitutiva de sua personalidade. O estabelecimento da categoria homossexual foi fundamental para a organização de grupos de defesa de seus direitos, que desembocam nos movimentos LGBT que conhecemos hoje. A multiplicação dos movimentos e da visibilidade permite inclusive que questionemos hoje a bipolaridade heterossexual-homossexual. Nesse processo, de mais de um século, um elemento da vida social tem sido um ponto-chave para a construção e estabilização das categorias referentes à sexualidade: a sociabilidade. A sociabilidade é o tipo de interação entre os sujeitos que têm um fim em si mesmo, ou seja, aqueles encontros cuja intenção é o próprio encontro: em termos mais coloquiais, o que os jovens hoje chamam de “fazer uma social”. Assim, certos espaços sociais se configuram como espaços de sociabilidade: podem ser praças, bares, boates, festas, clubes.

Diferentes de igrejas, mercados, instituições governamentais, escritórios – espaços que se organizam com um propósito específico –, os espaços de sociabilidade existem como um meio para a própria interação.Portanto, não é difícil perceber o papel essencial que a sociabilidade exerce na constituição de práticas e categorias de sexualidade. Pessoas que se interessavam pelo mesmo sexo sempre deram um jeito de se encontrar, e o processo de identificação que se aprofundou no século passado contribuiu para a multiplicação desses espaços.

 

Reflexos na estética dos anos 80: homens correram para as academias, em busca de corpos
musculosos e “saudáveis” que os protegessem da associação entre “magreza” e Aids

UM BREVE HISTÓRICO
Até a primeira metade do século, predominavam espaços mais marginalizados e discretos, como tavernas subterrâneas e clubes secretos. Muitos dos homens que lá se encontravam tinham uma vida pública diurna vista como “normal”, isto é, heterossexual, e em tais ambientes podiam encontrar seus semelhantes e experimentar outros modos de vida. Com a estabilização da categoria homossexual, também aumentou a visibilidade, em grande parte pela multiplicação dos espaços de sociabilidade homossexual. Esse é um processo de reciprocidade: quando se instituem as categorias, estimula-se o reconhecimento dos pares e o sentimento de grupo, ao mesmo tempo que a formação de grupos incentiva a estabilização e fortalece as categorias.

Encontrar pessoas com quem se identificar, com práticas semelhantes às suas, é uma maneira de estabelecer uma identidade, e as novas pessoas que chegam nesses espaços, por sua vez, encontram um modelo de identidade em que se espelhar. Esse não foi um processo tranquilo, sem sobressaltos. A reação contra a homossexualidade sempre foi muito forte – e continua sendo. A conquista desses espaços e a visibilidade implicam em – e dependem de – luta política ou mesmo luta física. O caso do bar Stonewall Inn, em Nova York, é emblemático. O Stonewall, muito frequentado por homens homossexuais, transformistas e travestis, ao longo da década de 1960, sempre foi vítima da opressão da polícia, que constantemente fazia batidas, agredia e prendia clientes. Até que, em uma noite de 1968, as pessoas que frequentavam o lugar se rebelaram e lutaram contra a polícia, atirando mesas, cadeiras, pertences, numa verdadeira batalha campal que durou dias. Esse evento teve um impacto gigantesco na percepção da homossexualidade e na construção do chamado “orgulho gay”. A própria utilização do termo gay, popularizada a partir dessa época, tem a ver com uma valorização desse estilo de vida, já que gay originalmente significa “alegre” em inglês. Não por acaso, o dia mundial do orgulho gay é 28 de junho, aniversário desse levante.

DISSEMINAÇÃO
A repercussão da batalha de Stonewall está relacionada a um momento mais amplo de contestação na política do chamado mundo ocidental, como o movimento hippie, os levantes de maio de 1968 na França, as manifestações contra a guerra do Vietnã nos EUA, a chamada “revolução sexual”, a invenção da pílula anticoncepcional. A partir desse momento, a luta por direitos passou a incorporar, como nunca antes, outros temas além das questões de classe – são os chamados novos movimentos sociais.

As décadas seguintes foram de multiplicação de ambientes de sociabilidade frequentados majoritariamente por gays ou especificamente dirigidos a estes, como bares, boates, cafés. Alguns desses estabelecimentos, como saunas e cruising bars (bares com cabines e salas escuras para prática sexual), eram destinados exclusivamente a homens. No entanto, essa multiplicação não significou que a aceitação de estabelecimentos para gays tenha sido total e definitiva. Em São Paulo, por exemplo, na década de 1980, espaços que reunissem homens gays, lésbicas, travestis e prostitutas eram devassados pela polícia e essas pessoas eram perseguidas e presas. Era a Operação Limpeza, promovida pelo delegado José Wilson Richetti. Uma consequência política importante foi a reação à opressão homofóbica, que aglutinou esses diversos sujeitos e ajudou a cimentar a formação do movimento LGBT no Brasil.

PRECONCEITO REFORÇADO
Enquanto tal movimentação se desenrolava, vimos eclodir em meados da década a epidemia de HIV/Aids. Esta teve efeitos ambíguos na espécie de “comunidade” gay que vinha se estabelecendo nas grandes cidades do mundo ocidental. Por um lado, acirrou o preconceito, que agora encontrava um estigma palpável, biológico, para condenar a homossexualidade, muitas vezes recorrendo a explicações religiosas como a ideia de “castigo divino”, em uma associação curiosa entre moral cristã e a ciência vigente, já que nesse momento os médicos diziam se tratar de uma doença exclusiva de gays. O efeito devastador da Aids durante a segunda metade da década de 1980 e a primeira metade da década seguinte – período em que ainda não existia um tratamento relativamente eficiente – e a associação direta entre a doença e o sexo afastou muitos homens gays da vida social. A sociabilidade que vinha florescendo durante a década de 1970 e início de 1980, ligada à contestação e a uma sexualidade exuberante, sofre um abalo avassalador. Sair de casa significava encarar o espectro da Aids nos outros ou, pior ainda, expor a outros sua condição debilitada. Por outro lado, a urgente necessidade de construção de laços solidários para enfrentar o descaso governamental e o preconceito reforçado produziu uma explosão de associações, grupos de apoio e uma consequente visibilidade que alcançava níveis inéditos. Assim, o assunto passou a ser debatido; não era mais possível ignorar a existência de uma significativa parcela da população adepta de práticas homoeróticas.

 

O Stonewall, em Nova York, foi alvo de opressão policial até que em uma noite seus
frequentadores se rebelaram

NOVA ESTÉTICA
Esse estado de coisas pavimentou um ressurgimento da “cena gay” ao longo da década de 1990, à medida em que o tratamento para o HIV se aprimorava e a ideia de uma sentença automática de morte ia se diluindo. O cenário que se desenrola a seguir segue o duplo movimento que o sociólogo argentino Ernesto Meccia (2011) chama de desdiferenciação externa e rediferenciação interna, conceitos que explicarei a seguir. O esforço de restabelecimento de uma identidade gay que superasse a estigmatização produzida pelo vírus HIV favoreceu o surgimento de uma imagem do homossexual como uma pessoa cuja única diferença de outras pessoas fosse a preferência erótica por pessoas do mesmo sexo. Isso significava integrar-se ao sistema neoliberal ascendente na década de 1990 e neutralizar a associação dominante entre homossexualidade e marginalidade de antes. Tal esforço teve reflexos na estética dos homens gays, que correram para as academias,
em busca de corpos musculosos e “saudáveis” que os protegessem da associação entre “magreza” e Aids. No Brasil, esse grupo recebeu, por parte de quem não o integrava, o apelido de “Barbies”, em referência à famosa boneca; a imagem era de corpos construídos à base de musculação e esteróides e depilados a ponto de parecerem corpos “de plástico”. Posteriormente, a partir da década de 2000, vemos o surgimento de um movimento de reação a essa formação de corpos padronizados, por homens mais gordos e com pelos, que rapidamente ficaram conhecidos como ursos, versão brasileira dos bears estadunidenses.

A crítica às Barbies incluía a constituição de espaços de sociabilidade destinados especificamente aos ursos, já que as boates gays  foram sendo cada vez mais frequentadas por Barbies, que exibiam seus corpos sem camisa na pista de dança das boates destinadas à classe média gay. Além disso, vimos também a chegada à maioridade de uma geração que teve acesso desde muito cedo a ferramentas tecnológicas como a internet e que, portanto, cresceu com acesso a referências de sexualidade mais diversificadas do que as veiculadas na mídia tradicional, que ainda reluta em tratar do tema. Essas pessoas começam a frequentar espaços de sociabilidade específicos com um recorte de idade no público – predominam os jovens até 25 anos – e uma performance de gênero menos assombrada pelo imperativo do corpo masculino e saudável. Esse movimento se trata da já citada rediferenciação interna: a ideia de que a estabilização e crescente visibilidade da identidade gay lança as bases para a produção de “subidentidades” e que a multiplicação de espaços de sociabilidade para públicos específi cos desempenha um papel duplo em relação ao surgimento de novas categorias: ao mesmo tempo que pessoas se identifi cam a partir de outros aspectos, como idade, tipo de música e dança, e buscam se encontrar, os espaços dirigidos a esses públicos mais particulares ajuda a produção de identificação com os pares. Já a desdiferenciação externa é o outro lado dessa moeda. Por um diferenciação entre pessoas com a mesma orientação sexual.

Por outro, produz-se identificação com pessoas de preferências eróticas diversas, a partir de elementos extrassexuais. Por fim, em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, a crescente visibilização de práticas homoeróticas em espaços não marcados como “gays” mostra que a desdiferenciação externa e a rediferenciação interna podem assumir diferentes expressões. Espaços de sociabilidade frequentados por gays e por heterossexuais se multiplicam e ganham visibilidade. Se, algumas décadas atrás, mesmo em espaços destinados ao público gay, demonstrações públicas de afeto entre pessoas de mesmo sexo eram evitadas, cada vez mais vemos festas em que pessoas exercem práticas eróticas diversas, sem que os eventos sejam tratados como “festas gays”. Estilo é uma categoria que pode articular cenas alternativas, em que a questão é menos ser ou não ser gay, mas o compartilhamento de um conjunto de referências estéticas, musicais, artísticas. Um exemplo é a proliferação de festas de rua, que exibem um discurso que exalta a liberdade, mobilizando questões fervilhantes no imaginário político nacional após os protestos de junho de 2013. A defesa do direito ao uso do espaço público e a crítica ao alto custo de vida na cidade grande se aliam a uma performance de gênero e sexualidade mais fluida, remetendo à época da década de 1970 e suas utopias de revolução dos costumes. Isso se expressa também no vestuário, penteados e maquiagem: purpurinas se misturam às barbas, turbantes, cabelos black power, roupas de brechó. Nessas festas, as modalidades de práticas eróticas costumam ser múltiplas; pessoas com estilo andrógino ora estão com parceiros do mesmo sexo, ora com parceiros de outro, e a apresentação pessoal diz pouco sobre as preferências de cada um. Mais uma vez, vemos como sexualidade, sociabilidade e política se articulam, moldando experiências e produzindo discursos na dinâmica da vida social.

 

Gibran Teixeira Braga é mestre em Sociologia e Antropologia pela UFRJ e doutorando em Antropologia Social na USP. Integra o Numas (Núcleo de Estudos dos Marcadores Sociais da Diferença). Suas principais linhas de pesquisa são sexualidade, sociabilidade, estilo e masculinidades.


REFERÊNCIAS
FOUCAULT, M. História da sexualidade vol. 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
FRANÇA, I. L. Consumindo lugares, consumindo nos lugares. Homossexualidade, consumo e subjetividades na cidade de São Paulo. Tese de doutorado. Campinas: Unicamp, 2010.
MACRAE, E. J. B. N. A construção da igualdade. Campinas: Editora Unicamp, 1990.
MECCIA, E. La sociedad de espejos rotos. Apuntes para uma sociologia de la gaycidad. Revista Sexualidad, Salud y Sociedad, n. 8, Centro Latinoamericano en Sexualidad y Derechos Humanos, Instituto de Medicina Social, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2011.
Los ultimos homosexuales: Sociologia da la homosexualidad y la gaycidad. Buenos Aires: Gran Aldea Editores, 2011.

 

Revista Sociologia Ed. 60