Simulacros reais da cibercultura

O ciberespaço trouxe muito mais do que hiperconexão e ubiquidade. Ele ampliou as possibilidades de exploração das realidades não locais

Por Alexandre Quaresma | Foto Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Simulacros

O filósofo francês Jean Baudrillard (1929/2007) estava certíssimo em suas reflexões acerca do real e do virtual, ainda que estes termos adjetivos não sejam – na análise da cibercultura e do ciberespaço – propriamente opostos ou antagônicos, e sim relativos e complementares, figurando como alegorias de natureza definitivamente não absolutas.

Ele dizia em seus escritos que o ciberespaço, o virtual e as auto-estradas da informação – de alguma forma desconcertante – determinam uma desertificação sem precedentes do espaço real, da realidade, de tudo que nos cerca fisicamente, já que estamos ingressando numa nova era civilizacional humana importante, em que há uma tecnicização sem precedentes.

E essa nova época disruptiva está indissoluvelmente ligada às tecnologias que criamos e usamos massivamente, nossas superestruturas técnicas, que, por seu turno, também transformam as relações que estabelecemos com o próprio mundo e a realidade que nos circunda e inscreve, seja no plano simbólico, no representativo ou mesmo no prático.

Destarte, essas forças tecnológicas também mudam radicalmente a maneira como vemos a nós mesmos, nossas sociedades, as relações interpessoais, e até mesmo o próprio planeta que habitamos.

Se por um lado elas abrem portas e horizontes virtuais, potenciais, não locais – e quanto a isso não há dúvidas –, por outro elas nos absorvem a razão e a atenção, nos imitam e nos intimidam com suas simulações cada vez mais sofisticadas, ao passo que também – ambiguamente – nos confundem e nos esclarecem, aceleram nossa percepção do tempo, comprimindo-a cada vez mais, de modo que o real e o virtual resvalam juntos num limiar, onde já não é mais possível percebermos diferença alguma entre ambos.

Outro aspecto relevante e drasticamente inaugurador – do ponto de vista dos usuários dessas novas tecnologias cibernético-informacionais, frise-se – é certamente a autonomia e reciprocidade comunicacional participativa que nenhuma outra mídia de massa anterior permitiu ou permitia até então. Ou seja, se com os livros, jornais, revistas, rádio, televisão e congêneres havia uma única via de trânsito das informações e dos conteúdos lógico-discursivos que circulavam  nas sociedades da época, num sentido de mão-única vertical, de cima para baixo, emissor-receptor, em que só esses meios emitiam e veiculavam valores, notícias, ideologias, enquanto a maioria apenas as recebia, com a cibercultura e o ciberespaço todos são inexoravelmente receptores, mas também emissores.

Esse é o grande avanço cívico e social que a cibercultura e o ciberespaço propiciaram às coletividades humanas da contemporaneidade. Em resumo, você não só acessa e recebe conteúdos, mas também os cria e os veicula livremente.

Moscas no vidro

Mas seria ingenuidade acreditar que tudo isso é apenas benéfico às pessoas e às sociedades humanas, pois, assim como as duas faces de Janus, essa nova conjuntura também traz problemas e crises nunca dantes imaginados.

Mesmo porque, enquanto ascende o virtual, o cibernético-informacional, que nos media e suporta perante o mundo e a realidade, declina – em igual medida – a condição fática do mundo local, em que nos encontramos corporeamente, geograficamente, o plano do imediato e a própria concepção de real.

E é exatamente por isso que não é tarefa fácil delimitar o que seria um (virtual) e o que seria o outro (real), ou seja, o universo do âmbito virtual compete frontalmente com a realidade imediata presencial e local, cuja raiz etimológica vem exatamente daquilo que não possui (ou não precisa de) mediações, ou seja, que acontece diretamente, sem mediações. “Não podemos imaginar [escreve Jean Baudrillard (1997, p. 71-72)] o quanto o virtual já transformou, como que por antecipação, todas as representações que temos do mundo.

Não podemos imaginá-lo, pois o virtual caracteriza-se por não somente eliminar a realidade, mas também a imaginação do real, do político, do social – não somente da realidade do tempo, mas a imaginação do passado e do futuro”. Tratamos aqui de um tempo sem pensamento, uma espécie de percepção distorcida da própria realidade, que nos sequestra e nos remete a uma nova condição perceptiva e existencial intrínseca ao próprio sistema.

Jean Baudrillard (1997, p. 71) também afirma que “hoje, não pensamos o virtual; somos pensados pelo virtual. Essa transparência inapreensível, que nos separa definitivamente do real, nos é tão inteligível quanto pode ser para a mosca no vidro contra o qual se bate sem compreender o que a separa do mundo exterior”. Essa sagaz e certeira analogia de Jean Baudrillard se aplica com perfeição às vidraças cibernético-informacionais do virtual, que experimentamos ao nos debatermos compulsiva e inconscientemente nas telas de computadores, televisores, tablets, telefones e demais próteses.

Mas, muita atenção: há uma ambiguidade conceitual flagrante aqui, pois mesmo que soe contraditório e confuso, o simulacro, na cibercultura e no ciberespaço, é absolutamente real. Ele simula e media as relações e processos, mas as simulações e mediações também são dados e fenômenos da realidade factual, do mundo físico, do real, ou seja, do que existe no mundo.

Pois, por trás de cada computador, de cada link, de cada postagem, de cada imagem, dado e informação, existem pessoas físicas, reais, e real também é a própria superestrutura cibernético-informacional que possibilita que tudo isso funcione materialmente, com seus infindáveis cibercircuitos, já que esta superestrutura depende inequivocamente de processos físicos, técnicos e tecnológicos para poder funcionar e nos mediar.

Virtual, nesse âmbito, não significa de maneira nenhuma imaterialidade ou inexistência, mas sim novas formas e possibilidades de existir e materializar ideias, conceitos, ao mesmo tempo em que essa virtualidade despe a própria realidade de sua possível compreensão imediata, direta, o que vale dizer, uma compreensão sem mediações.

O que o filósofo francês nomina como desertificação do real diz respeito a essa mediação, sem a qual o próprio real passa a ser um simples e mero dependente ou coadjuvante do virtual. A verdade e o sentido – por mais que esses sejam conceitos difíceis de definir com clareza – não estão mais (apenas) aqui fora, no mundo imediato, e sim na rede, de forma mediada. E ambos – em muitos sentidos – se fundem e se confundem.

Adaptado de Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 65